Capítulo 2 - Território inimigo

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Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Nov 19, 2015 2:54 pm

- Isso não fazia parte do acordo. Não acha que já tenho que lidar com muitos obstáculos? A última coisa de que preciso é que vocês me criem mais problemas!

Embora usasse um tom de voz discreto e contido, a entonação de Romeo Campanaro deixava claro que ele não estava nada satisfeito com a pessoa do outro lado da linha. O novo segurança dos Romazzini estava numa das garagens cobertas da mansão, sozinho, falando ao celular. A pedido dele, os carros de luxo que geralmente ficavam ali tinham sido transferidos para outras garagens. Seria um ambiente ideal para iniciar o treinamento de Isadora.

Como ainda faltavam quase trinta minutos para o horário combinado com a garota, Romeo julgou que fosse seguro atender aquela chamada. Ele precisava atender. O incidente no aeroporto ainda não fora devidamente esclarecido e Romeo sabia que tinha direito de exigir explicações.

- Acalme-se. – a voz de Benito Agostini soou suave do outro lado da linha – Eu concordo com você, mas preciso que mantenha a serenidade. Foi uma ordem que não partiu de mim. Mas já tenho a situação sob controle e garanto-lhe que foi um erro que não irá se repetir.

Aquela era uma explicação desnecessária. O rapaz sabia que o pai jamais daria a ordem de iniciar um tiroteio com Romeo no fogo cruzado. O novo segurança dos Romazzini apostaria a própria vida no nome de Vincenzo como culpado, mas não precisava verbalizar aquela acusação. Benito conhecia muito bem o filho caçula.

- Que justificativa ele inventou? – Romeo ainda estava irritado, mas a voz serena do pai tinha o poder de abrandar os nervos do rapaz – Que mentira estúpida ele usou como desculpa para atirar contra mim?

- Ele disse que tentou criar um cenário perfeito para que você se sobressaísse, para que você conquistasse o seu espaço. – antes que Romeo pudesse explodir, Benito completou – Eu não acredito nele, bambino. Sei que Vincenzo tentou unir o útil ao agradável. Mas estou satisfeito em saber que, no fim das contas, ele conseguiu te ajudar. Segurança pessoal da “principessa” Romazzini? Você superou as minhas melhores expectativas. Como de costume, bambino.

Apenas a respiração de Romeo se tornou audível no telefone enquanto o segurança caminhava de um lado para o outro na garagem vazia. Aquela pausa foi usada para que Romeo organizasse os pensamentos e terminasse de acalmar a fúria que o dominava sempre que o segurança se lembrava do tiroteio no aeroporto.

- Foi um erro infantil, uma jogada de principiantes. O signor tem ideia de como será fácil juntar as peças e chegar ao nosso nome? Ele já deu ordens para iniciar uma investigação. – Romeo completou, ainda mais baixo – Esta história não será esquecida. Ele poderia até se esquivar de uma briga se os tiros tivessem sido disparados contra ele. Mas uma das balas tinha como destino a cabeça da garota. Tem ideia de como isso agrava a situação, papà?

O semblante preocupado de Benito se derreteu com aquela última palavra. Romeo costumava chamá-lo de “Don Benito” diante de estranhos e de “signor” quando estavam na casa dos Agostini. “Papà” era um tratamento raro, reservado apenas para quando os dois tinham um momento de privacidade. Ironicamente, nenhum dos filhos legítimos tinha aquele poder de desarmar Benito com um simples “papà”.

- Eu já lhe disse que tenho tudo sob controle, bambino mio. A investigação não chegará a nenhuma prova conclusiva. Não há mais pontas soltas nesta história, eu me encarreguei pessoalmente disso. Eu me desdobrei para garantir que este erro não te prejudique mais. Confie em mim.

- Eu confio. – Romeo finalmente parou de andar e encostou um dos ombros na parede, mudando o celular para a outra orelha – E como estão as coisas em casa?

- Bem, bem... – Benito suspirou pesadamente e sua voz soou mais desanimada – Mas sinto a sua falta, bambino.

- Eu também, papà.

- Está sendo bem tratado? – Agostini se tornou mais sombrio – Alguém parece nutrir desconfianças contra você?

- Está tudo bem, sou tratado como membro da famiglia. O chefe da segurança é naturalmente o mais receoso, mas até nisso teu filho me ajudou. Pelo menos duas semanas de afastamento. Quando ele retornar, já terei me estabelecido na função.

- E quanto ao restante da família? – o coração de Benito acelerou, mas sua voz não refletia a ansiedade que o dominava – Os filhos? A irmã de Lorenzo... ela tem se comportado de maneira estranha com você, bambino?

- Não. Não que eu tenha notado...

Romeo estranhou absurdamente a pergunta do pai, mas imaginava que Benito tivesse suas razões para temer Antonella. Mesmo com o pouco tempo de convivência, o segurança já havia notado que a irmã de Lorenzo era uma mulher inteligente e observadora. Talvez Benito tivesse medo que Antonella fosse a primeira a notar algo estranho no novo funcionário.

- Ela me trata com a mesma distinção reservada aos demais funcionários. Não tive muito contato com os dois filhos, mas pareceu-me que aceitaram a minha presença com tranquilidade. A garota é simpática e absurdamente inocente. Ela jamais desconfiaria de coisa alguma.

- Uma bambina muito bonita, não acha? – Benito provocou o filho com aquela brincadeira – A inocência dela não te deixará ainda mais tentado, Romeo? Não ensine a ela mais lições do que deveria, hm?

O segurança riu e sacudiu a cabeça, tentando afastar da mente os pensamentos nada puros que nasceram após as insinuações de Benito.

- É só uma menina. – Romeo tentava convencer a si mesmo daquilo – Eu gosto de mulheres, não de meninas.

- Romeo, Romeo... tenha juízo, mio bambino! E durma tranquilo, eu estou tomando conta de tudo aqui fora. Sinto a sua falta. Ti amo, bambino.

- Da próxima vez deixe que eu te ligo. Cuide-se. Ti amo.

Um sorriso sereno ainda estampava o rosto de Romeo quando ele afastou o celular da orelha e finalizou a chamada tocando na tela do aparelho. O semblante suave do rapaz se quebrou em mil pedaços quando Romeo se voltou para a porta da garagem e encontrou Isadora Romazzini parada ali.

O segurança havia olhado na direção da porta há poucos segundos, então tinha certeza que Isadora não acompanhara o começo da sua ligação. Mas, sem sombra de dúvida, a moça já estava ali durante a despedida melosa. Por sorte, Romeo não havia dito “papà” antes de finalizar a chamada.

- Está adiantada, signorina. – Romeo forçou um sorriso para amenizar o clima – Ansiosa para as lições?
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Nov 19, 2015 5:06 pm

Isadora tinha ido dormir bastante irritadiça com aquelas insinuações acerca do flerte de alguma mulher com Romeo, fora as brincadeiras de Pietro. No entanto, o que mais a irritava mesmo tinha sido a questão da tarde no shopping. Por que ele não disse que já estava agindo como o segurança particular dela ali?

Ela encontrava mil perguntas cujas respostas eram bastante simples, mas ela não sabia porque não estava sabendo lidar com aquela omissão dele. Talvez estivesse mais irritada do que gostaria de admitir por conta da tal mulher do telefone.

Quando viu a Girafa entre suas coisas, ela pegou a pobre Pelucia e guardou dentro de um dos armários, sem querer ver a pobrezinha. Como se ela tivesse culpa de alguma coisa...

O dia seguinte foi normal. Ela ainda estava de férias na Universidade de Artes, mas se teria que ficar dia a noite com Romeo, ela achava por bem entregar os horários a ele. E estava trabalhando nisso, pelo menos em parte da manhã enquanto não resolvia outras questões por telefone ou e-mail, falando com as ONGs que ela ajudava e afins.

As horas passaram voando e uma hora antes do lanche da tarde, ela seguiu até a garagem.

A mansão tinha duas academias: Uma para os seguranças e uma pra familia. Ambas tinham os aparelhos de última geração, mas as diferenças eram sutis. A academia dos seguranças era muito mais voltada para musculação e lutas, eles tinham treinadores e horários fixos para cuidarem do condicionamento físico. Além disso, tinham até um pequeno ring para que lutassem. Já a academia da familia era algo mais refinado, onde as duas faziam aulas de pilates, alongamento, zumba, enfim.


Lorenzo não gostava de imaginar a Mansão dele como uma prisão, mas desde que sua familia pudesse encontrar tudo ali dentro, eles certamente estariam mais protegidos.


Por isso a casa era enorme e a vista era tão bonita. Era quase como um condomínio de luxo.

Isadora não entendeu porque o pai faria mais um lugar apenas para seus treinos. Na verdade, ela não queria ficar a sós com Romeo ainda mais depois de toda a irritação que estava sentido.

Como ela era uma pessoa ansiosa, ela chegou 15 minutos antes. Usaria o tempo para conhecer o novo ambiente que a garagem tinha se tornado – e estava ganhando formas. Soube que eles iriam treinar Krav Maga, Muay Thai e um pouco de Judô. Obviamente que ela não sairia pronta para um MMA, mas seria o básico de socos, chutes e chaves para que ela conseguisse se livrar de eventuais incidentes com pessoas armadas ou não.

Também haveria aulas de tiros e com facas.

O currículo de Romeo era realmente impressionante, quando ela soube disso tudo.

Surpreendeu-se ao chegar na porta e ver que Romeo já estava ali – de costas para a entrada e falando num tom privado. Fechou os lábios para não interrompe-lo, mas arqueou uma das sobrancelhas com o primeiro comentário dele.

“É só uma menina. Eu gosto de mulheres, não meninas.”

Isadora podia ser ingênua, mas ela sabia que Romeo estava falando dela. Não é que fosse egocêntrica, mas qual era a única ‘menina’ daquela casa? Tia Antonella certamente não seria.


E aquilo a magoou porque...Primeiro, ela era uma mulher, mesmo que fosse uma menina. Segundo porque o tom que ele usava a fazia se sentir...diminuída. E uma tola, porque realmente se comportou como tola na presença dele. Terceiro porque seu ego estava abalado.


A despedida melosa apenas a fez entender que era uma pessoa muito próxima dele. Talvez a mulher do telefone.

Romeo finalmente se tocou da presença dela e Isadora o encarou seriamente. Ele sorria, mas os lábios da menina estavam fechados, sem deixar transparecer nenhum pequeno sinal de que ela abaixaria a guarda.


Estava usando uma calça de yoga – aquelas de ginastica, que prendia na metade de sua canela e ia até sua cintura, modelando o corpo, e uma blusa preta, estilo nadador, revelando o top azul marinho que ela tinha por baixo. Também usava tênis e o cabelo estava preso num rabo de cavalo.

Trazia uma bolsa com água e toalhas. Ela estava presa em seu ombro, mas Isadora não se moveu.


- Você também está adiantado, Romeo.

Disse sem nenhum tipo de emoção.

- Talvez eu já tenha aprendido uma agora. Você não é uma babá, sabia, Romeo? E tenho certeza que você não precisa ficar com uma menina por mais tempo do que seu serviço determina. Você está dispensado por hoje...E espero que o próximo trabalho o agrade mais, com Pietro, talvez.

Deu as costas para o rapaz e nem chegou a colocar os pés no local de treino.

(...)

Benito desligou o telefone e menos de dois minutos depois, a porta do escritório recebeu uma batida hesitante.

- Entre.

Vicenzo entrou no campo de visão de seu pai. Apesar da aparência inabalável, era possivel perceber que ele estava preocupado com a conversa que teria com o pai. Os dois já tinham conversado durante aquela noite, discutindo sobre os vídeos que a policia enviou a eles.

Romeo era conhecido pelo Detetive que trabalhava para os Agostini, por isso ele não entendeu absolutamente nada e foi consultado o Don.

Até aquele momento, Vicenzo acreditava que estava tudo resolvido, mas pela expressão de seu pai, não estava.

- Papà. O signor me chamou?

Benito cerrou os olhos com aquela pergunta imbecil e indicou o lugar à frente de sua mesa. O rapaz sentou-se, desabotoando o paletó e engoliu em seco.

- Você me trouxe um problema, Vicenzo, mas também vai me trazer a solução para isso.

- Papà eu...

- Não te chamei aqui para que você fale, Vicenzo. Você veio aqui para receber instruções e obedecer, me entendeu?

Aquilo mexeu com o orgulho do jovem, mas ele meneou positivamente e ouviu em silencio.

- Você precisa aprender que todo ato gera consequências. E é por isso mesmo que você vai dar cabo desses cinco homens que você contratou para atacar o seu irmão. Não quero pontas soltas, mas não são os seguranças que farão o serviço sujo.

Benito apagou seu charuto.

- Vai ser você.

O homem o encarou fixamente.


- Matar não é simples como você pensa, garoto. Matar requer um pedaço de sua alma e por conta de sua atitude diante do seu irmão e por passar em cima de ordens minhas, você vai com os seguranças até o Q.G. desses rapazes e irá executá-los. Você. Cinco vidas pelo seu erro. O Alberto já tem as instruções. Você tem até as 18h para cumprir minha ordem.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Nov 19, 2015 5:48 pm

Uma das sobrancelhas de Romeo se arqueou quando Isadora demonstrou com brilhantismo que nem sempre era tão doce e simpática. É claro que ela havia escutado mais do que deveria e se sentia ofendida. A caçula poderia ser uma jovem doce, mas continuava sendo uma Romazzini orgulhosa de sangue quente.

Em meio à surpresa pelo tratamento hostil recebido da jovem, Romeo sentiu uma inegável pitada de satisfação. Aquilo não era somente orgulho. O segurança sentia de longe o aroma dos ciúmes que temperavam a explosão da garota. E qualquer homem se sentia honrado em ser alvo do ciúme de uma jovem como Isadora Romazzini.

Ao invés de tentar trazer a garota de volta à garagem onde deveria acontecer o treinamento, Romeo enfiou as mãos nos bolsos e começou a seguir os passos dela. Foi difícil conter uma risada quando Isadora lançou um olhar fulminante ao homem que caminhava ao seu lado.

- Achei que de todas as pessoas no mundo, você seria a que melhor compreenderia a minha situação, Isadora. Somos vítimas do mesmo mal, afinal...

Desde criança, Romeo sempre foi dono de um raciocínio rápido. A inteligência dele não poderia ser comparada a de nenhum dos irmãos. Era o único dos filhos de Benito que herdara a astúcia do mafioso. Romeo tinha aquela rara habilidade de falar exatamente o que o seu interlocutor mais deseja ouvir.

- Era mi madre no celular.

A mentira soou natural. Romeo aprendera desde cedo a mentir, então fazia aquilo sem nenhuma dificuldade, sem demonstrar nenhum esforço.

- Não importa quanto tempo passe. Não importa que eu já tenha a minha vida, o meu emprego, as minhas obrigações... Mamma continua a me tratar como se eu ainda fosse um bambino de cinco anos. Mas eu não a julgo. Mi madre perdeu tudo quando papà se foi de forma trágica. Acho que é natural que ela ainda tente me esconder sob suas asas protetoras.

A cabeça do segurança se virou lentamente na direção da garota, seus olhos encarando Isadora com atenção.

- Imagino que entenda este sentimento, Isadora. Eu já notei que seu pai age de maneira muito semelhante com você.

Aproveitando-se de um segundo de distração de Isadora, Romeo se colocou na frente dela, impedindo que a moça continuasse a caminhada. Os dois pararam exatamente no meio do extenso jardim dos Romazzini, mas nem mesmo a exposição do local intimidou o segurança. Sem demonstrar receio, Romeo ergueu uma das mãos até o rosto da garota e segurou o queixo dela entre seu indicador e o polegar.

- Não vou duvidar da sua inteligência e nem macular a confiança que desejo despertar em você. Por isso, não nego que me referia a você quando fiz o comentário sobre uma “menina”. Mas eu disse apenas o que mamma queria ouvir, Isadora. Ela ficou preocupada e enciumada quando eu mencionei que seria segurança particular da filha de Don Lorenzo. Eu disse aquilo apenas para evitar que mi madre começasse a perder noites de sono com o risco de não ser mais a única mulher da minha vida...

Um sorriso divertido brincou nos lábios de Romeo e, numa atitude ainda mais ousada, ele teve a audácia de deslizar o polegar numa carícia bem rente ao lábio inferior de Isadora.

- Não me julgue por esta fraqueza. Su papà também vai se tornar um psicopata quando sentir-se ameaçado por outro homem em seu coração.

O segurança novamente buscou pelos olhos de Isadora e a encarou profundamente.

- Eu não quis ofendê-la. – Romeo sabia que estava indo longe demais, mas simplesmente não conseguiu se segurar – Embora eu precise admitir que seu biquinho enciumado é adorável, Isadora.

Romeo parecia ter o poder de pronunciar o nome da garota de uma maneira única. Não havia nenhuma diferença gritante na maneira como o segurança proferia as sílabas, mas a entonação dele mudava. E Romeo parecia prolongar o “t” por algumas frações de segundo a mais em “Itsadora”.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Nov 19, 2015 7:20 pm

Isadora não era uma pessoa autoritária, mas também não costumava ter suas ordens ou pedidos negados. Quando deu as costas a Romeo, ela imaginava que a conversa tinha chegado ao fim. Não esperava que ele tivesse a ousadia de segui-la, tampouco de falar com ela pelo resto do dia. Sua única intenção era seguir até o escritório de seu pai e sugerir discretamente que Romeo tivesse outra atribuição dentro daquela casa.

Mulher com orgulho ferido já é perigoso.

Uma Romazzini com orgulho ferido é ainda mais. Independente do bom coração que a “menina” tivesse.

No entanto, como Antonella havia dito, Romeo era realmente um insolente.

Isadora estava ajeitando a alça de sua bolsa quando percebeu que ele estava caminhando um passo atrás e, agora, lado a lado com ela. Os olhos azuis da jovem, naturalmente puxados como os de um felino, o fuzilaram, de verdade.

- Não imagino o que possamos ter de semelhante, Romeo. Além do sangue italiano, é claro.

Virou a cabeça para não encarar aquele abusado. Tendia acelerar os passos para se livrar do estorvo, mas ao contrário do que tinha imaginado, ela diminuiu um pouco os passos quando ele falou sobre sua mãe.

Hm.

Continue falando.

A jovem não o encarava de novo, deixando que ele a seduzisse com aquelas palavras e se aproximasse um pouco mais. Romeo soube jogar bem sujo quando falou da morte trágica e prematura de seu pai. Isadora deixou a expressão ficar um pouco mais triste e ela o encarou, como se perguntasse “é verdade?”. E imaginou se Romeo também tinha sido uma criança triste, muito triste por ver seu pai num caixão.


Os olhos dela marejaram um pouco, um momento de fraqueza e distração. O momento perfeito para que Romeo parasse em frente a ela e realizasse aquele gesto tão “impróprio” para um desconhecido.

No entanto, assim como tinha acontecido no shopping, ela não desviou de seu toque e também o encarou fixamente.

O problema de encarar Isadora por tanto tempo era a vontade que existia de mergulhar naqueles olhos tão bonitos. E o problema de encarar Romeo por tanto tempo era se deixar levar por aquela lábia poderosa. Os olhos dela recaíram até os lábios dele que ainda se moviam enquanto sua voz rouca alcançava e dominava seus sentidos.

Eram palavras encantadoras, com um ritmo tão encantador quanto, porque o timbre de Romeo era...a melhor musica que ela já tinha escutado.

Os lábios dela ficaram entre abertos, revelando os dentes da frente – ela tinha um sorriso perfeito, mas os dentes da frente eram um pouco dentuços. Acabava sendo mais um charme para a pequena signorina.

Mas Romeo cometeu um erro.

Ele ultrapassou os limites e ousou falar a única palavra que ela negaria até a morte. Mesmo que a forma como ele a chamava tivesse sido inebriante, ela nunca admitira que estava enciumada.

Por isso, o fogo do orgulho de sua familia foi aceso e ela levou a mão até a de Romeo e “delicadamente” tirou de seu rosto.

- Você é bastante esperto, mas também tem uma lição que eu gentilmente ensinarei hoje. – Ainda segurou a mão dele, pelo pulso. – Não tente ultrapassar os limites comigo, Romeo. Independente de você me achar uma menina ou uma mulher, eu sei bem o que eu sou. Uma Romazzini. E não se brinca com uma Romazzini.

Soltou o pulso dele.

- Pense bem duas vezes antes de tentar julgar os meus sentimentos. Até onde me consta, você não se chama Lorenzo, Enzo ou Pietro. Impossível sentir ciúmes de você.

Mexeu de leve a sobrancelha, altiva e tão distante da menina boazinha que ele a conhecera. Isso que dava mexer com o ego.

- Outra lição é que não volto atrás nas minhas decisões. Você tem o dia de folga, talvez possa visitar sua mama para que ela não se sinta tão sozinha.

Forçou um pequeno sorriso.

- Tenha uma boa tarde.


Esperou que ele saísse de sua frente e ela pudesse retornar até a mansão. As pernas dela estavam meio bambas, mas Isadora era bastante geniosa e não ia admitir que estava enciumada desde a noite anterior, apenas para alimentar o ego de Romeo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Nov 19, 2015 8:48 pm

Uma das tantas qualidades de Romeo era reconhecer uma batalha perdida. E, naquela tarde, ele soube que a última palavra deveria ser de Isadora. O orgulho dela fora ferido e nem mesmo a ousadia natural do rapaz permitiu que ele prolongasse mais as provocações. Por mais que Isadora negasse, Romeo farejava o cheiro dos ciúmes. Mas não era um bom momento de insistir naquele ponto.

Já que não haveria treinamento naquela tarde, Romeo abandonou a garagem e dedicou seu tempo às demais tarefas que lhe foram destinadas. Lorenzo havia pedido ao novo segurança que fosse ao hospital pedir o último boletim médico sobre Salvatore e, na volta, deveria passar numa das empresas da família para pegar um dossiê.

Enzo já esperava pelo segurança quando Romeo entrou no escritório. Era fim de tarde e o herdeiro do império Romazzini já se preparava para sair do trabalho, mas iria passar na casa da noiva antes de retornar à mansão. Como Lorenzo tinha uma certa urgência em ver aqueles documentos, Romeo se encarregaria de levar a pasta ao patrão.

- Alguma recomendação especial, signor...? – Romeo questionou enquanto pegava a pasta estendida por Enzo.

- Não, não. Apenas entregue ao meu pai o quanto antes. Trata-se de informações sobre um investidor que estará na cidade amanhã. Papà quer saber mais detalhes sobre a agenda dele para promover um encontro “casual”.

O segurança apenas acenou positivamente com a cabeça, pegou a pasta e desceu tranquilamente pelo elevador. No estacionamento subterrâneo, Romeo também manteve um comportamento exemplar. Somente depois de entrar no carro, protegido pelos vidros escuros da Mercedes, Campanaro se atreveu a abrir cuidadosamente a pasta.

Romeo teve o cuidado de não tocar nas folhas internas para não correr o risco de amassá-las. Seus olhos vasculharam rapidamente o conteúdo da primeira página do dossiê até encontrar um nome.

O carro dos Romazzini já era guiado na direção da mansão de Lorenzo quando uma voz soou do celular de Romeo. O aparelho estava no colo do segurança, o viva-voz ativado.

- Diga, bambino.

- Basilio Cesare. Este nome significa alguma coisa para o signor?

- Não me é um nome estranho. Por que?

- Don Lorenzo tem um dossiê completo sobre ele, incluindo a agenda de Cesare na cidade amanhã. Enzo disse que é um investidor e deu a entender que o pai vai forçar um encontro.

- Cesare... Basilio Cesare.

Benito repetiu o nome para Cecilio, que estava ao seu lado no escritório. O primogênito prontamente digitou os dois nomes num site de busca e só demorou cinco segundos para encontrar a resposta que os Agostini precisavam.

Basilio Cesare era um empresário do ramo automobilístico. Sua fortuna fora incalculável no passado, mas havia rumores bem fundamentados de uma crise insustentável nos negócios. Cecilio só precisou de mais alguns segundos para entender quais os interesses do empresário na Sicília: os Cesare eram donos de muitos imóveis valiosos na região, inclusive no centro comercial de Palermo. Era fácil concluir que o pobre empresário falido estava na cidade para tentar vender os imóveis e recuperar ao menos um pouco de seu império.

Um sorriso maldoso surgiu nos lábios de Benito quando Cecilio invadiu o site da prefeitura e mostrou a ele a lista de imóveis dos Cesare. Agostini sentiu o doce sabor da vitória ao ver que o maior dos imóveis era um prédio localizado exatamente ao lado da sede das empresas Romazzini.

- Lorenzo quer ampliar os negócios às custas de um pobre homem falido. – Benito soltou um riso debochado – Conseguiu ver a agenda de Cesare, bambino? Onde ele está agora?

- O voo dele chegou às seis da tarde. Não consegui ver o nome do hotel...

- Quanto tempo você demora a descobrir qual hotel fez reservas para Basilio Cesare, Cecilio?

- Trinta, talvez quarenta minutos...

- É o tempo que preciso para tomar um banho. – Benito se levantou calmamente de sua poltrona – Vou jantar com Basilio esta noite e fecharei um excelente negócio. Obrigado, bambino, você é fantástico!

Lorenzo parecia uma fera enjaulada, andando de um lado para o outro, enquanto esperava que Romeo chegasse. O mafioso estava na sala e olhava o enorme relógio de cordas pendurado na parede repetidamente. Antonella e Isadora faziam companhia ao homem, mas nem mesmo elas conseguiam a atenção de Lorenzo por mais de alguns segundos. Por fim, Antonella desistiu de distrair o irmão e começou a folhear uma revista de moda enviada por um de seus amigos. A atenção dela só se desviou dos modelos quando a voz de trovão de Lorenzo bradou.

- Dio santo, quanta demora, Romeo! Onde está?

- Desculpe, signor, foi o trânsito do fim da tarde...

O segurança estendeu a pasta para o patrão. Apesar da ansiedade, Lorenzo pegou os documentos com cuidado. O mafioso sentou-se no sofá e apoiou a pasta delicadamente sobre a mesinha de centro, abrindo-a com um gesto delicado. Romeo fingiu desinteresse, mas sabia exatamente o motivo da delicadeza de Lorenzo. Ele queria averiguar se o segurança havia mexido nas folhas.

Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios de Romazzini quando ele encontrou o dossiê intocado. Conforme combinado, Enzo havia prendido as folhas com um grampo e não havia nem mesmo uma marquinha que denunciasse que Romeo havia folheado a documentação. Lorenzo pegou o dossiê e foi passando as folhas agilmente, atento aos detalhes.

Os olhos dele brilharam quando ele confirmou suas hipóteses: Cesare era o proprietário do prédio vizinho à sede da empresa e devia uma grande fortuna em impostos. O empresário certamente ficaria grato se ficasse livre daquelas dívidas e acabaria cobrando pelo imóvel um valor muito inferior ao de mercado. Romazzini realizaria o sonho de expandir a sede principal da empresa, reformaria o edifício e o transformaria num aglomerado de escritórios para controlar suas ações ilícitas na região.

- Vamos jantar fora hoje. – Lorenzo lançou um sorriso animado a Antonella e Isadora – Quero experimentar o tempero do restaurante Villa Celimontana. Vocês duas tem vinte minutos para estarem lindas, bambinas!

A ideia de Lorenzo era bem simples. Ele forjaria um encontro casual com Basilio Cesare durante um “inocente” jantar em família. Seria fácil guiar a conversa até os imóveis que o empresário possuía na cidade e Romazzini faria uma proposta quando o homem mencionasse o prédio que lhe interessava. Como o encontro pareceria casual, Cesare não ficaria ofendido quando Lorenzo mencionasse um valor tão baixo. Ele jamais imaginaria que cada passo do mafioso fora cuidadosamente programado.

O que Lorenzo não sabia era que Benito Agostini estava um passo a sua frente. Naquele exato momento, Benito tomava um drinque no bar do Villa Celimontana, acompanhado por Basilio Cesare.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Nov 19, 2015 10:43 pm

Depois de deixar Romeo no jardim, Isadora seguiu até o escritório de seu pai, disposta a conversar com ele. No caminho, ela encontrou com Raoul e foi informada que o pai estava numa reunião muito importante. Como já tinha se “livrado” de Romeo por um dia, ela achou que poderia conversar em outro momento.

O dia passou sem maiores problemas, mas a oportunidade de conversar não surgiu. Lorenzo estava muito agitado e impaciente.

Tanto Antonella quanto Isadora acharam mais prudente ficarem quietas. E a verdade era que Antonella já conhecia o irmão o suficiente para suspeitar o que ele ia fazer, por isso ela mandou a sobrinha ficar arrumada e deixar algumas opções separadas.


- Por que, tia?

- Provavelmente vamos jantar fora. Deixe três modelos separados. Se seu pai falar de um lugar informal, use o modelo mais descolado. Se for um ambiente mais clássico, a roupa mais refinada. E um meio termo.

Isadora ouvia as instruções e observava a tia.

- Confesse, tia...

- O que?

- Preto é muito mais fácil.

Antonella deu uma risada divertida e deu de ombros.

- Não nego. Mas também tenho meus visuais formados. Mas faça o que eu digo.

Deu uma piscadinha para Isadora e deixou que a sobrinha se distraísse com suas roupas. Sempre que Lorenzo ficava agitado dessa forma, era sinal que alguma coisa estava tramando. E, mesmo que ele acabasse fazendo algo sozinho, elas poderiam sair para jantar. Fora que estavam apenas se precavendo. Odiava ter que se arrumar às pressas.

As duas se encontraram de novo numa das salas. Isadora estava lendo um livro pelo kiddle. Já tinham desistido de chamar a atenção de Lorenzo ou tentar acalmá-lo – sabe-se lá do que – quando Romeo finalmente chegou. Elas tiraram os olhos do que estavam lendo e voltaram a atenção para o rapaz.

Antonella não disfarçou o interesse, chegando a mexer o pé lentamente. Isadora encarou Romeo por um segundo e fingiu desinteresse, voltando o olhar para o que estava lendo – mas prestando muita atenção no que era dito.

Assim que o pai anunciou que as duas jantariam, Isadora olhou para a tia e Antonella apenas deu um sorriso de vitória.

- Vinte minutos, Lorenzo? Francamente...Ainda bem que já nascemos perfeitas...

A loira mexeu no cabelo e seguiu na frente. Isadora deu um suspiro e seguiu logo atrás da tia.

Vinte minutos depois, as duas desciam esplendidas. O restaurante era bastante refinado e exigiu a roupa um pouco mais requintada das duas. Antonella desceu com um belíssimo tubinho preto, de frente única. A gola do vestido era fechada em seu pescoço e as costas ficavam nuas. O vestido batia até seu joelho e ela usava um belíssimo par de sapatos salto 15cm. O cabelo estava preso num coque banana e ela tinha feito pouca maquiagem – já estava com a base pronta, obviamente, só precisou colocar os cílios e o batom vermelho. Seus acessórios também eram finos: um par de brinco de perolas, pulseira combinando com o mesmo e um delicado anel.

Ela era linda e quando se arrumava assim, apenas realçava ainda mais sua beleza.

E Isadora seguia o mesmo passo da beleza.  O cabelo dela estava preso numa trança lateral – começava do lado esquerdo e terminava do lado direito. O comprimento e os cachos do cabelo ajudavam no efeito. O vestido escolhido era azul marinho, com aquele tecido transparente que dava a impressão que o modelo era tomara que caia, mas na verdade tinha uma manga curta ali. O decote do vestido era em formato de coração e a saia leve. Os sapatos eram sandálias que mostravam os delicados pés dela e eram prateadas. Ela usava acessórios delicados também, mas o que sempre destacava era o relicário de ouro branco com o símbolo da familia. A maquiagem era delicada, como da tia. Talvez ela realmente fosse uma menina. Mesmo que os pensamentos de qualquer homem fora da familia que olhasse para ela, fossem bastante impuros

Além de belas, elas também estavam com um perfume que inebriou o ambiente no instante que elas chegaram.

Lorenzo começou a aplaudir.

- Bravo! Bravissimo!! Vocês estão maravilhosas!!

Ele estava com um humor excelente também. Tinha apenas trocado a combinação de gravata e colocado um terno mais elegante.

Ele deu um braço para cada uma e logo seguiram até o carro. Romeo e um motorista acompanhariam os dois. Lorenzo também tinha mandado que o rapaz fosse se arrumar, para que fizesse companhia a Isadora durante o jantar. Isso indicava que ela ainda não tinha falado com o pai e que talvez ele tivesse chances de reverter o desentendimento da tarde.


Meia hora depois, a familia parava em frente ao restaurante. Havia mais um carro de seguranças de sobreaviso – depois do ataque do dia anterior, Lorenzo estava bem mais precavido.

Ele desceu, ofertando o braço para Antonella e também ajudou a filha a descer, mas indicou para que ela fosse com Romeo. Ele não teria problemas em seguir com as duas lado a lado, mas ele também não gostava de sair exibindo o pescoço de Isadora.


A jovem olhou para o braço de Romeo e desviou o olhar, dando um suspiro mais pesado. Ela não tinha outras opções e apoiou a mão no braço dele.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Nov 19, 2015 11:28 pm

Mesmo sendo apenas um empregado, Romeo sabia que deveria estar bem vestido naquela noite. Lorenzo deixou claro que ele acompanharia Isadora no interior do refinado restaurante e o segurança não queria que a moça se sentisse constrangida com a sua presença.

Normalmente, Romeo já usava um terno refinado para trabalhar na mansão Romazzini. A diferença foi que o rapaz trocou a formalidade do preto por um cinza chumbo bem mais elegante. A gravata preta também foi trocada por um dos “presentes” que ganhara de Antonella durante o passeio no shopping. Campanaro usou um pouco de gel e penteou os cabelos escuros para trás. O último detalhe foi uma loção pós barba com um perfume masculino gostoso.

Como Romeo já esperava, Isadora continuava emburrada. Foi com muito esforço que o rapaz não sorriu quando Don Lorenzo indicou o segurança para a filha quando chegaram diante do luxuoso hotel. Romeo sabia que até uma Romazzini doce como Isadora poderia ser perigosa, mas simplesmente não conseguia resistir. Ela ficava ainda mais adorável com aquele biquinho irritado.

- Por que está mal humorada? – Romeo sussurrou a pergunta enquanto entrelaçava seu braço ao da garota – É fome?

Embora conhecesse os perigos, Romeo não parecia intimidado. Ao contrário, ele se permitiu sorrir para Isadora. Aproveitando-se que Lorenzo estava distraído enquanto Antonella ajeitava o vestido, o segurança se inclinou para sussurrar com os lábios quase colados na orelha da menina.

- Não fique tão brava, Isadora. Eu retiro o que disse esta tarde, hm? Foi mesmo muita insolência, como diria a sua tia. Tudo o que eu quero é que voltemos a ser amigos.

Romeo completou com um sorrisinho sacana.

- Não tire de mim este emprego tão magnífico. Onde mais eu vou encontrar alguém que me pague para fazer companhia a uma moça como você?

Antes que Isadora tivesse a chance de responder, Lorenzo fez um sinal para que a filha e Romeo seguissem seus passos. O grupo se encaminhou até o saguão do hotel e um funcionário os acompanhou até a recepção do restaurante fino. O local estava cheio e provavelmente funcionava através de reservas. Mas Don Lorenzo Romazzini sabia que homens como ele não precisavam reservar mesas. Bastava chamar o gerente e a melhor mesa seria oferecida a ele.

Naquela noite, contudo, as coisas não saíram conforme o planejado. Lorenzo pediu que o gerente fosse chamado e percebeu que algo estava muito errado quando o homem chegou à recepção, mais pálido que o champanhe nas taças equilibradas na bandeja do garçom que seguia seus passos.

- Don Lorenzo! Não esperávamos pelos signor esta noite. Eu pedi que trouxessem nosso melhor champanhe!

- Agradeço a cortesia, mas minha família e eu preferimos nos assentar adequadamente antes de aceitar as bebidas. Imagino que o fato de não ter feito reservas não seja um grande inconveniente, o restaurante não me parece lotado...

O gerente apertou uma mão na outra. O ar condicionado deixava o ambiente com uma temperatura muito agradável, mas nem isso impediu que gotículas de suor começassem a brotar da testa do funcionário do restaurante. Romeo, o único ali que entendia o desespero do gerente, chegou a sentir piedade do pobre coitado.

- Não estamos lotados, signor. Há algumas mesas vagas esta noite...

- Ótimo. Me leve até uma delas, então.

- É que... que... – o gerente afrouxou a gravata, o suor agora já escorrendo pela raiz dos seus cabelos – Acho que Don Lorenzo preferiria levar sua famiglia a outro local esta noite. Se me permite a sugestão, o cardápio do El Sapore di Salerno tem sido muito elogiado. O restaurante fica há menos de dez minutos daqui e...

- Qual é o problema, homem? – os olhos de Lorenzo se estreitaram – Não sou bem vindo ao seu restaurante?

- Não é isso, signor, por favor!!! – o gerente decidiu ser direto antes que Lorenzo tomasse aquilo como ofensa pessoal – Uma de nossas mesas está ocupada por Benito Agostini. Imaginei que o senhor não iria querer que sua famiglia dividisse o mesmo ambiente que ele.

Assim como o gerente, Antonella ficou pálida. Nem mesmo a maquiagem disfarçou a perda de cores no rosto da mulher. Ela apertou o braço do irmão com mais firmeza, sentindo uma necessidade quase sufocante de fugir logo dali. Há duas décadas ela não ficava frente a frente com Benito e preferia manter aquele distanciamento. Antonella não confiava nos próprios sentimentos quando o assunto era Agostini.

- Eu saí de casa disposto a comer neste restaurante e não pretendo mudar meus planos. – a voz de Lorenzo soou sombria.

- Por Dio! – Antonella arregalou os olhos e encarou o irmão – Não há a menor necessidade de nos expor a isto, Lorenzo! Devo lembrá-lo de que Isadora está conosco?

- Atenção redobrada. – Lorenzo ignorou a irmã e encarou Romeo – Mantenha a arma destravada. Nós vamos entrar.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 10:06 am

A ousadia de Romeo era simplesmente inacreditável. Isadora ficou sem palavras quando ele perguntou se ela estava com fome, por conta de seu “mau humor” que ela fazia. Deixou os olhos sobre os dele com um certo humor até, mas meneou negativamente ainda incrédula. Desviou o olhar para a frente e ele aproveitou para sussurrar aquele pedido de desculpas.

Não era apenas o perfume que ele usava na loção pós barba ou a deliciosa forma como ele falava seu nome. Era Romeo.

Ele a deixava mais entorpecida do que ela gostaria de admitir. E isso era muito perigoso. Para ambos.

Não houve tempo para uma réplica, o que talvez tenha sido muito bom. Imagine que cena adorável seria se os dois ficassem discutindo na entrada do restaurante, sob os olhares de Lorenzo e Antonella. Eles, obviamente – a tia, principalmente, - perceberiam que havia algo errado ali e quem sabe o que poderia acontecer?

Ela também sabia declarar uma “derrota” e Romeo teria a palavra final daquele instante. Mas não da noite. Isso, com certeza, não.

Os quatro caminharam de modo imponente até o interior do hotel, chegando ao belíssimo restaurante. Pararam em frente ao recepcionista. Isadora e Romeo estavam um passo mais atrás enquanto Lorenzo e Antonella tomavam a frente. O jovem casal podia perceber que havia algo errado na conversa, mas Isa arregalou os olhos e apertou o braço de Romeo com mais força após os dizeres de seu pai.


- Qual seria a necessidade disso? – Perguntou num sussurro.

- Não há necessidade. Lorenzo, por favor, seja razoável! – Antonella dizia entre os dentes, ainda abraçada ao irmão.

- Eu sou bastante razoável, Antonella. Chegará o dia que serei impedido de entrar num lugar por conta da presença dele. Ele que deve nos temer, não o contrário.

Lorenzo disse de modo irredutível. Isadora ainda não entendi absolutamente nada, mas suas mãos estavam ficando um pouco mais frias. Antonella, por outro lado, estava tentando controlar os nervos. Olhou para o irmão com verdadeiro rancor, mas ergueu a cabeça. Respirou fundo e fechou os olhos por um segundo.

Eles seguiram adiante.

O gerente estava orando a todos os deuses de todos os credos enquanto começava a guia-los. Ele ainda tinha a possibilidade de deixá-los o mais distante possivel da mesa onde Benito estava. Mas certas coisas estão acima das orações dos meros mortais.

- Maldito.

Lorenzo disse entre os dentes quando os olhos encontraram a mesa de Benito. Antonella não olhou na direção que o irmão olhava.

- Como ele soube? – Disse num rosnado baixo.

- Soube o que?

- Cesare.

Lorenzo falou o nome e Antonella foi obrigada a olhar naquela direção. Ficou ainda mais branca quando viu que os dois homens apertavam as mãos e brindavam alguma coisa.

- Vamos embora, Lorenzo.

- Pois não vou. Agora fico. E vou cumprimenta-los.

- Lorenzo...

Antonella soltou o braço do irmão quando ele deu um passo à frente. Ela ficou no mesmo lugar, passando a mão pelo pescoço.

- Tia. O que está havendo?

Isadora perguntou num tom educado. Antonella olhou para a sobrinha e forçou um sorriso.

- Seu pai viu um velho conhecido e foi cumprimenta-lo, nada demais. Vamos para a nossa mesa.

- Mas tia, precisamos esperar o papà...

- Não vou ficar atrapalhando os corredores dos garçons.

- Então vamos até o papà...

Ela deu um passo a frente. Antonella estava borbulhando de raiva, mas que opção ela tinha? Não conseguia das explicações plausíveis para não se aproximar dali. Lorenzo já estava no meio do caminho e abriu um amistoso sorriso para Cesare.

Cesare, que não fazia ideia do fogo cruzado que tinha acabado de se meter, abriu o mesmo sorriso largo para Lorenzo e levantou-se, com os braços abertos.

- Lorenzo Romazzini!

- Basilio Cesare!! Quanto tempo!!

Os dois se abraçaram. Basilio era um homem de meia idade também, baixinho, careca e bastante tolo. Mas um bom homem, tinha um coração ingênuo e se apaixonava tão rápido e com tanta intensidade quanto Antelo. A diferença é que ele não comandava as relações e sempre terminava de coração partido.


- Verdade! Como você vai?

- Muito bem e você?

- Ah, ficarei. Acredito que você já conheça Benito Agostini...

Indicou Benito ao lado dele. Lorenzo voltou o olhar para Benito e manteve a agradável expressão. Virou-se na direção dele, cumprimentando-o e Benito também se levantou para que dessem um abraço.

- Claro que sim! Como vai, Benito?

- Muito bem, Lorenzo. Muito bem. E você?

Aquilo era demais para qualquer pessoa que estivesse vendo. Algumas mesas chegavam até a pedir a conta depois do que viram. Antonella estancou, fazendo uma expressão de repudio. Isadora ainda estava de braço dado com Romeo, que ela tinha relutado a dar, mas também não tinha soltado desde então.

- Bem...

Lorenzo olhou para Cesare, mas os olhos dele brilhavam com a imagem de Antonella. O Don encarou a irmã e recebeu um olhar congelante em resposta.

- Antonella, mia bela! – Basilio deu a volta na mesa e caminhou até ela.

Vale destacar que, graças ao salto alto, Basilio acabava batendo na altura do peito de Antonella. Ela vestiu a mascara da educação e olhou para o velho conhecido de seu irmão. Deu um sorriso enquanto ele pegava sua mão e depositava um beijo em sua pele.

- Devo dizer que sua família é abençoada pela beleza, Lorenzo. Antonella está cada vez mais bella e...

- Oh, Cesare. São os seus olhos. Espero que esteja bem. – Antonella respondeu e tirou a mão dele enquanto ele desviava o olhar para Isadora.

- Não me diga que esta é a sua bambina!

- Sim. Isadora, este é Basilio Cesare, um amigo de longa data. E o rapaz que a acompanha é o Romeo.

- É um prazer conhece-lo.

Isadora disse daquele modo encantador e iluminado, alheia ao climão que se formava ali.

Basilio estava até emocionado por vê-la, era tão parecida com a mãe que era quase como se Chiara ainda estivesse viva.

- Por favor, sentem-se conosco...

- Não queremos incomodar... – Antonella respondeu rapidamente.

E ela não tinha falado com Benito ainda.

- Não será nenhum incomodo, pelo contrário. Benito, você se incomoda?

- Claro que não. Será um prazer...

- Então vamos aceitar!

Lorenzo logo pediu para que melhorassem a mesa e até a arrumação parecia um problema para eles. Cesare pediu uma mesa redonda maior. Não dava para saber se isso era bom ou ruim para eles.

A ordem ficou: Benito, Cesare, Lorenzo, Antonella, Isadora e Romeo.

E antes que se sentassem, Isadora cumprimentou o desconhecido.


- Olá, Signor...?

- Agostini.

- Agostini. – Ela sorriu. – É um prazer conhece-lo. E obrigada por oferecer a mesa também.

Benito a encarou fixamente, tentando pescar se havia algum tipo de falsidade ali, se ela jogava o mesmo jogo que seus parentes. Mas havia tanta pureza e transparência que ele apenas sorriu em resposta e beijou a mão dela.

- O prazer é todo meu, signorina Romazzini.

- Isadora. Sente-se, por favor.


Antonella falou. Talvez alguém tenha percebido que Antonella não falou com Benito em nenhum momento, mas se perceberam, deixaram o momento passar. O jantar realmente tinha tudo para ser...memorável.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 10:37 am

Quando viu Lorenzo Romazzini girar sobre os calcanhares e caminhar na direção de Benito Agostini, o gerente do Villa Celimontana teve uma certeza. Se aquela noite não terminasse num tiroteio, provavelmente ele morreria vítima de um ataque cardíaco fulminante. De qualquer forma, seria uma morte bem rápida.

Uma coisa ficou muito clara para Romazzini quando ele se colocou diante do seu pior inimigo: Benito não estava nem um pouco surpreso em vê-lo ali. Agostini sabia que ele viria atrás de Cesare e fora mais rápido. O que Lorenzo ainda não sabia era como aquela informação sigilosa e privilegiada chegara ao conhecimento de seu rival tão rápido.

O gerente do restaurante já começou a sentir dores no peito quando os dois mafiosos se abraçaram. Quem não os conhecesse poderia pensar que eram velhos amigos, mas bastaria se aproximar um pouco mais e notaria o clima pesado ao redor da mesa. O ar ficava quase irrespirável quando Agostini e Romazzini dividiam o mesmo ambiente.

Ingênuo, Cesare fez o convite para que todos se juntassem para jantar. Benito não se esquivou porque estava nitidamente ganhando aquele jogo. E Lorenzo não era o tipo de homem que se deixava abater no primeiro golpe.

Se alguém notasse que Antonella não dirigiu a palavra a Benito, certamente também notaria que o mafioso não fez questão de cumprimentá-la. Mesmo depois que todos estavam devidamente acomodados na mesa maior, Agostini ignorou a presença da irmã de Lorenzo e voltou a sua atenção para Isadora.

A garota lhe soou tão inocente que, por um momento, Benito duvidou de tamanha ingenuidade. Mas ele era um bom observador. Isadora não parecia ser dona de uma mente tão ardilosa. E Romeo já tinha dito a ele que a menina era doce e ingênua ao extremo. Ignorando o nítido incômodo de Lorenzo e Antonella, Agostini fez questão de prolongar a simpática conversa com a mocinha.

- Isadora... é um bonito nome. Combina com a signorina. – Benito empurrou delicadamente o cardápio na direção dela – Eu chamarei o garçom quando tiver se decidido, bambina...

- Ainda não fizemos nossos pedidos! – Cesare comentou com um sorriso animado – Íamos pedir agora, vejam que feliz coincidência.

- Sim, sim... – Benito apagou o charuto que ainda estava pela metade em respeito às damas - Vocês chegaram no exato momento em que trocamos uma reunião de negócios por um jantar entre amigos. Aliás, preciso me livrar dos últimos resquícios de trabalho para aproveitar plenamente esta noite maravilhosa...

Agostini pegou uma pasta que até então estava apoiada em seu colo e a estendeu na direção do bar. Um segurança prontamente se aproximou e resgatou os preciosos documentos das mãos do patrão.

- Lembra-se do Danila, Lorenzo? – Benito indicou o seu chefe de segurança – Soubemos do triste acidente ocorrido com Salvatore. Faço votos de que ele se recupere logo...

Danila comprimiu os lábios para evitar uma risada debochada antes de pedir licença aos demais e se retirar do restaurante, provavelmente para guardar os documentos no carro do mafioso. Cesare realmente não parecia se dar conta do clima pesado da mesa quando explicou, animado.

- Benito me fez um grande favor esta noite, sabiam? Eu tinha uma coleção de imóveis que só me davam dor de cabeça em Palermo. Bom, agora serão um problema do meu nobre amigo Agostini...

- Ora, não diga isso. Eu prefiro acreditar que fiz um bom negócio... – Benito abriu um sorrisinho antes de se voltar para Isadora – Bambina! Temos algo em comum! Eu também sempre espio as opções de sobremesa antes de pedir o prato principal. Gosta de chocolate? Este restaurante serve um petit gateau de caramelo incomparável.

Como se não bastasse todas as provocações até então, Benito resolveu cutucar ainda mais os Romazzini.

- Você está ótima. Tenho certeza que o seu namorado não vai se importar se você abandonar a dieta hoje para provar essa amostra do paraíso! – ao pronunciar “namorado”, Benito lançou um olhar maldoso para Romeo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 11:33 am

Romeo puxou a cadeira para Isadora se sentar. Lorenzo já havia feito a gentileza para Antonella. A jovem encarou Benito e deu mais um sorriso para o seu elogio.

- Obrigada...  – Pegou o cardápio e começou a dar uma olhada.

Ouvia a conversa, mas estava prestando atenção mesmo era na comida. Olhou de banda para Romeo quando ele esticou o pescoço para olhar o cardápio e rapidamente virou a página, numa pura e genuína implicância com ele. Mesmo assim, ela esboçou um sorriso no canto dos lábios.

Antonella e Lorenzo tinham expressões opostas, mas pensamentos semelhantes. Lorenzo ajeitou-se um pouco mais em sua cadeira, mantendo o olhar e a expressão agradável, mas já estava maquinando tudo em sua mente.


- É mesmo? Pois acho que teremos muito ao que brindar hoje à noite.

Voltou o olhar para Danila.

- Não me recordo de seu rosto, mas tenho certeza que Salvatore se lembraria...

Depois de soca-lo algumas vezes. Isadora ergueu a cabeça quando ouviu sobre o acidente de Salvatore. Lorenzo umedeceu os lábios, passando a mão tranquilamente na sobrancelha antes de falar.

- Sim, foi um infeliz acidente, não é mesmo? Mas Salvatore tem uma saúde de ferro e um temperamento explosivo. Tenho certeza que tudo estará resolvido, em breve.

Antes que Lorenzo respondesse sobre os negócios, Benito começou a cutuca-lo através de Isadora.

A jovem o encarou com as bochechas meio coradas quando ele falou da sobremesa, mas ela riu de novo.

- Porque dessa forma eu consigo pensar na quantidade de pratos salgados que eu aguento. – Deu outra risadinha. – Mas agora que vou seguir sua sugestão e pedir um salmão com três purês...

Entregou o cardápio para Romeo. Antonella estava pensando em comer apenas uma sala ceaser e um peixe grelhado com batatas, mas não estava conseguindo concatenar as ideias direito.

Todos os Romazzini se surpreenderam com a insinuação de Benito. Isadora ficou com a boca meio aberta e meneou negativamente.

- Não, ele não é meu namorado. O Romeo é o meu...primo.

Não sabia se era uma boa ideia falar que era o segurança particular dela. As pessoas poderiam se sentir ofendidas. Lorenzo pareceu não se importar com a mentira, mas não tinha gostado daquela insinuação. Essa foi a munição necessária para que ele atacasse Benito e mostrasse porque ele fez um mau negócio.

Já Antonella sentiu um aperto intenso em seu coração, quase como se o ar faltasse. Ficou um pouco mais pálida, fechando o punho e estalando os dedos.

- De segundo grau... – Isadora completou a mentira. – Veio passar uma temporada conosco, apenas, não é, Romeo?

Manteve o sorriso para ele.

O sorriso de Lorenzo aumentou um pouco mais no canto dos lábios e ele segurou bem ali, voltando a atenção para Cesare. Sabia que Benito se cansaria de perturba-lo com Isadora, quando ouvisse o que tinha a dizer.

- Os imóveis de Palermo? Ah, Cesare...Cada um tem o seu momento. Eram excelentes imóveis, de fato. Eu tenho certeza que Benito fará um bom proveito dele. Bom, pelo menos é tempo o suficiente para tentar embargar a decisão judicial a favor da prefeitura...

- Eles não vão mais leiloar agora que poderei quitar os impostos, Lorenzo... – Basilio afirmou com a voz meio hesitante.


- Ah não...Você ficou um tempo fora, não deve saber. E na verdade, essa informação é exclusiva. Soube hoje de manhã pelos meus contatos da Prefeitura. Parece que tem um plano de melhorias em Palermo e alguns prédios serão tombados pela Administração Publica. Um dos meus entrou na lista, inclusive, mas já estou vendo com meus advogados. Infelizmente creio que se são os imóveis que estou pensando, todos estão numa zona que será alterada.

Fez uma expressão triste no canto dos lábios e olhou para Benito.

- Eu...Eu não...Eu não sabia.

- Por enquanto não é nada confirmado. Vamos esperar para que não passem de boatos, não é mesmo? – Voltou o olhar para a irmã. – Todos já decidiram o que comer e beber?

- Já. O de sempre pra mim, com licença.


Antonella levantou-se da mesa com sua bolsa e seguiu até o toilet. Ainda estava com um pouco de falta de ar depois das informações que foram disparadas ali.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 12:22 pm

A insinuação maldosa de Benito fez com que Romeo dirigisse um olhar mais sério a ele. O que Agostini estava fazendo? Que parte do “não preciso que me criem mais problemas” o pai não compreendera? Aquilo poderia soar como uma piada interna para os dois, mas Romeo preferia não ser o foco das atenções naquela mesa instável.

- Primo... – Benito sorriu com a resposta de Isadora – Ah, sim. Eu também tenho vários “primos de segundo grau” como o Romeo. – o mafioso trocou um olhar malicioso com Lorenzo – Eu só nunca confiei tanto em um deles para colocá-lo ao lado da minha filha.

Agostini fez uma pausa, na qual aproveitou para tomar um generoso gole de sua bebida.

- Confio plenamente na minha bambina e nos meus “primos”. Mas você sabe como é, não sabe, meu bom amigo Lorenzo...? A tentação existe e a carne é fraca.

Quando todos pensaram que o clima na mesa não poderia ficar pior, Benito lançou um discreto olhar na direção de Antonella enquanto pronunciava a expressão “a carne é fraca”. Aquilo foi demais para a mulher. Antonella manteve a compostura só por alguns segundos a mais antes de anunciar que precisava ir ao toilet.

As informações de Lorenzo sobre os imóveis de Cesare não abalaram Agostini por um simples motivo: se Romazzini estava se esforçando TANTO para pegar para si aqueles bens era porque algum valor eles tinham. Benito só precisava de tempo e de alguns especialistas para descobrir onde estava escondida a mina de ouro.

- Não se atormente, Cesare. – Benito tomou mais um gole de sua bebida antes de completar – Como eu te disse no início desta noite, a maior motivação para fecharmos este negócio era o meu desejo de ajudar um velho amigo. Se não forem imóveis lucrativos, paciência... O que gastei esta noite é apenas o lucro de um dos meus cassinos num dia pouco movimentado.

O garçom parecia caminhar para o matadouro quando se aproximou da mesa dos mafiosos para registrar os pedidos. As mulheres fizeram seus pedidos primeiro, sendo seguidas pelos cavalheiros.

Romeo tinha suas dúvidas de que conseguiria digerir a comida, mas pediu um medalhão com molho de café e salada. Como estava trabalhando e havia a real possibilidade de precisar sacar o revolver naquela noite, o segurança dispensou bebidas alcoólicas e pediu apenas uma soda.

Para surpresa de todos, Benito pediu um prato idêntico ao de Isadora, alegando que a menina tinha bom gosto.

Naquela noite, os pratos foram servidos em tempo recorde para a mesa dos mafiosos. Era um sinal claro de que os funcionários do restaurante estavam unindo forças para que aquele jantar acabasse o mais rápido possível. Isadora foi a primeira a ser servida, mas Benito inclinou-se sobre a mesa e puxou o prato da garota antes que ela pudesse experimentar a refeição.

Antes que Lorenzo reagisse, Agostini trocou o próprio prato com o da menina. Era exatamente a mesma comida, mas a atitude do mafioso era óbvia. Se por acaso alguém mexera na composição de seu prato a mando dos Romazzini, o veneno ficaria diante de Isadora.

- O meu salmão é maior que o seu. – Benito brincou com a menina – Já estou velho, não posso comer tanto a esta hora da noite. Sem mencionar que também estou guardando um lugar para a sobremesa...
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 12:47 pm

A mina de ouro só existiria se fosse Lorenzo a adquirir o imóvel. Tendo tanta influencia na politica, ele poderia comprar os imóveis e ainda ajudar a reestruturar Palermo, para que o imóvel não fosse tombado pela Administração Publica. Agora que Benito tinha comprado os imóveis, ele só ia ajudar a concretizar o plano inicial.


No entanto, isso levantava um sinal para ele. Como é que as informações estavam chegando tão rápido a ele? Não era a primeira vez que algo do tipo acontecia. Assim como no aeroporto, a informação privilegiada também chegou a Benito. E outras vezes, nos últimos meses.

Os olhos de Lorenzo recaíram sobre Romeo.

Não gostava de testar sua familia, mas sabia que alguém estava mentindo ali. Se não naquela mesa, dentre as pessoas de sua confiança.


Mas quem?

Lorenzo deu um gole em seu vinho enquanto ponderava.

Os pratos foram servidos e Antonella lançou um olhar mortal a Benito quando ele trocou o prato de Isadora daquela forma. A garota apenas olhou para o tamanho do peixe e puxou o ar com força.

- Mas eu também não vou aguentar tanta coisa... – Deu uma risada divertida. – Vou levar pra casa.


- Não. Eu não cheguei a pedir o meu peixe, querida. Vamos dividir?

Antonella começou a passar uma parte para o seu prato e pegou um dos purês. Levou a primeira garfada até a boca, sem hesitar e sentindo o sabor. Isadora ficou encarando a tia.

- Está no ponto?

- Maravilhoso.

E Lorenzo encarava Romeo com um pouco mais de desconfiança. Tudo bem que era a primeira vez que o rapaz se envolvia num jantar daquele porte, mas ele não parecia entender a complexidade da situação. Estava deixando Isadora mais exposta do que qualquer um.

Ao contrário do que os funcionários esperavam, eles passaram a demorar bastante no jantar, conversando sobre a vida de Cesare e os negócios. Eles continuavam se alfinetando e alguns sofriam em silencio.

Isadora voltou o olhar na direção dos músicos. Eles ainda estavam um pouco tensos, mas a noite precisava seguir.

- Só falta tocar por uma cabeza...

Comentou baixinho para Romeo e sorriu, mas só depois que fez isso, foi que percebeu que estava falando com ele. Estalou a língua no céu da boca e revirou os olhos, mas deu de ombros e voltou o olhar para a mesa.


Os homens combinavam uma tarde no clube, aproveitando a estadia de Cesare na Sicilia. Depois do susto inicial, tudo estava ficando bem. Com exceção de Antonella que tinha todos os motivos do mundo para ainda estar incomodada com tudo aquilo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 1:25 pm

Foi nítido o brilho nos olhos de Isadora quando o garçom se aproximou com as bandejas contendo as sobremesas. Apenas ela e Benito haviam pedido o petit gateau e Cesare resolvera experimentar um pedaço da torta de limão. Os demais estavam tão tensos que nem mesmo um pouco de açúcar aliviaria suas preocupações.

- Prove... – Benito riu da animação de Isadora – Sei que vai concordar comigo, é delicioso!

- Você fala isso com muita propriedade, Agostini. – Cesare implicou gentilmente com o amigo – Sua bambina também é uma fanática por doces?

- Mariella? – uma breve risada irônica escapou dos lábios de Benito – Bem se nota que você realmente não conhece a minha bambina, Basilio. Se algum dia “alguém” quiser torturá-la...

Benito tinha mesmo um humor negro e se arriscou a olhar para Lorenzo enquanto descrevia um ritual de tortura perfeito para Mariella.

- ... basta amarrá-la e obrigá-la a comer um bombom. Mariella é completamente fanática por dieta, percentuais de gordura e todas essas baboseiras. Ela se jogaria na frente de um trem se descobrisse que alguém adoçou o café dela com açúcar.

Cesare soltou uma risada gostosa, tombando a cabeça para trás. Isadora também riu dos comentários exagerados de Benito. Somente Romeo sabia que o pai não estava exagerando tanto. Mariella era louca naquela intensidade quando o assunto era beleza e vaidade.

- E seus rapazes...? – Cesare deu mais uma garfada em sua torta antes de completar – Você já tem netos, Benito?

- Não... – Benito não imaginava que estaria repetindo a exata frase do filho bastardo quando completou – Não que eu saiba...

Pela primeira vez naquela noite, Romeo sentiu o estômago afundar. Por sorte, a iluminação do restaurante disfarçou a maneira como o sangue fugiu de seu rosto. Ele havia feito aquela brincadeira com Antonella sem nunca imaginar que, em breve, Benito repetiria a mesma piadinha comum na casa dos Agostini.

A expressão do rapaz não mudou, mas ele já começava a calcular quanto tempo teria para sacar a arma depois que Antonella o denunciasse.

Inconscientemente, foi Cesare quem salvou o rapaz quando riu e completou a brincadeira.

- Está dizendo isso por causa de prováveis netos perdidos ou pensando em filhos perdidos?

O termo “filhos perdidos” tocou tão fundo em Antonella que a loira sequer se lembrou da existência de Romeo, muito menos da idêntica piadinha que o segurança fizera durante o passeio no shopping.

- Os dois. – Benito manteve um sorrisinho malicioso nos lábios – Não coloco a mão no fogo pelos meus filhos, nem por mim.

O peso foi demais para os ombros de Romeo. Até então ele estava se divertindo internamente com a troca de farpas, mas por um momento o segurança pensou que seu disfarce estava arruinado. E um tiroteio ali, no interior de um restaurante fino, seria catastrófico. Campanaro sabia que não conseguiria salvar a própria pele e a de Benito ao mesmo tempo. Isso sem mencionar Isadora. O estômago de Romeo deu uma cambalhota quando ele pensou na jovem Romazzini literalmente no meio daquela guerra.

- Romeo...?

A voz de Antonella soou preocupada. Foi obedecendo a um instinto que a loira desconhecia que Antonella se colocou de pé e caminhou até o rapaz. Romeo só teve tempo de virar o tronco na direção contrária da mesa antes que seu estômago se contraísse, expulsando toda a comida refinada do Villa Celimontana.

Pronto. Aquela foi a faísca que todos temiam. Antonella segurou o rapaz pelos ombros e soltou um grito quando viu Benito e Lorenzo ficando de pé e apontando armas uma para o outro.

- VOCÊ ENVENENOU O MEU SEGURANÇA, AGOSTINI!

- EU JAMAIS FARIA ISSO, ROMAZZINI!

- POR DIO! – Antonella estava furiosa quando se meteu entre os dois e deu um tapa no punho de Lorenzo – Ninguém envenenou o menino! Romeo só está indisposto! Parem já com essa palhaçada!

Seria uma cena engraçada se não houvesse o real risco da noite terminar num banho de sangue. Todos os clientes e funcionários do restaurante, sem exceções, estavam escondidos debaixo das mesas quando os dois mafiosos abaixaram as armas.

Tal como Antonella dissera, Romeo não estava agonizando. Fora apenas um mal estar passageiro, fruto de um dia inteiro de trabalho pesado, associado ao tempero forte do restaurante e às tensões naquela mesa de guerra.

- Eu disse que o garoto precisava de um dia de folga! – Antonella deu outro tapa no braço de Lorenzo – Vamos embora agora!
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 2:34 pm

O jantar que tinha começado bastante tenso, terminou de forma dramática. Cesare e Isadora ficaram chocados com as armas que Lorenzo e Benito apontavam um para o outro. Nem mesmo eles conseguiram ver graça naquela situação.


Antonella foi a pessoa que colocara um fim naquela cena. Bem como na noite.

Os Romazzini deixaram o local e a conta para que eles pagassem. Isadora estava confusa com o ocorrido e muito preocupada com Romeo. Primeiro porque eles citaram um envenenamento, mas mesmo agora, sabendo que era apenas um mal estar pontual, ela ainda se mostrava preocupada com ele.


A Mansão logo se fez presente para eles e Romeo foi levado até suas acomodações. Felicia foi solicitada para que preparasse algum chá com ervas medicinais.

Antonella estava francamente atormentada com tudo o que tinha acontecido e olhou com certo rancor para Lorenzo.

- Nunca mais me faça passar por uma cena dessas, Lorenzo.

- O que você queria?! Eu não recuo diante do inimigo!

- Você nos expos!!! – Os olhos dela estavam cheio de lágrimas. – E para que??? Eu estou tão furiosa com você, Lorenzo que eu não quero nem olhar para a sua cara!


- Mas o que de tão grave eu fiz?! Até parece que você não faria o mesmo que eu!


- Eu teria te respeitado!!

Tão logo ela cuspiu essa verdade para o irmão, ela se arrependeu. Lorenzo não fazia ideia de seu segredo e não tinha culpa dos demônios que ela carregava dentro de si. Levou a mão até o ventre e, em seguida até o peito.

- Eu vou dormir no meu apartamento. Me mande noticias do Romeo.

O coração dela estava apertado. Doía porque eles simplesmente foram arregaçando suas cicatrizes com as mãos nuas. Ela também estava muito preocupada com Romeo, mas estava confundindo os próprios sentimentos, com toda certeza. Sentia que era uma preocupação quase que maternal , mas era apenas fruto de seu hábito. De suas ilusões.

Deixou a Mansão dos Romazzini e seguiu até sua própria residência. Ela não morava muito longe dali, era apenas do outro lado do bairro, num luxuoso duplex em frente ao mar.

Tinha sido um presente de Mauro, mas ele nem imaginava o quanto aquela vista também a torturava. Pelo que acontecera antes de seu casamento e pelo mar que levara seus filhos também.

Mas ela não tinha coragem de se desfazer do imóvel.

Era quase como se ela precisasse se torturar, de vez em quando.

Eram 23h quando ela chegou em casa. Os empregados sempre mantinham o lugar impecavelmente limpo e a decoração mudava todo ano. Mas era um lugar...vazio. Vazio de risos, sentimentos, familia. Era apenas um reflexo dela mesma.

Encheu uma boa dose de whisky e ficou olhando para a praia à noite.

Já estava descalça e o coque tinha sido desfeito. As lágrimas rolavam por seu rosto, mas ela ainda mantinha aquela postura.

As farpas daquela noite ecoavam em sua mente. Aquela brincadeira casual que Benito havia feito era idêntica à brincadeira de Romeo. No entanto, era a essência dela que mais chamava sua atenção.

O que tinha acontecido com o filho dela?

Puxou o ar com forças e pegou o próprio celular.

- Fabrizio. Eu quero que você procure um numero para mim, por favor. Eu conto com a sua discrição...

(...)

Os empregados da Mansão Romazzini tinham bastante conforto. Não havia nada do que reclamar em viver ali. Romeo tinha sido medicado e agora poderia descansar ou pelo menos tentar.

Duas horas depois que eles voltaram do restaurante, alguém bateu na porta do quarto dele.

- Romeo?

Era a voz de Isadora.

Carregava uma bandeja com um lanche para ele e mais alguns comprimidos, caso ele ainda estivesse mal.

Lorenzo tinha se recolhido e os outros estavam preocupados com os próprios afazeres para ficarem controlando os passos de Isadora. Fora que ela realmente não via mal em procura-lo para saber como ele estava.

Ela estava muito preocupada...

(...)

Bastava atravessar a avenida para conseguir chegar até a praia.

Tão logo ela conseguiu o numero desejado, ela ligou para o celular de seu alvo e apenas informou que exigia vê-lo ainda aquela noite, no lugar de sempre. A verdade era que ela nem tinha esperado uma resposta.

O whisky conseguia deixá-la mais arredia do que ela já era.

Colocou sandálias rasteiras nos pés e pegou uma echarpe preta para cobrir suas costas desnudas.

Quando estava perto do horário que ela combinara, ela simplesmente desceu e caminhou pela praia. Ficou parada olhando para o mar. E esperaria...


Já tinha esperado por 25 anos, podia esperar um pouco mais...
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 5:48 pm

- Eu já lhe disse que estou bem...

Já era a terceira vez que Benito ligava para o filho bastardo em menos de uma hora. Por mais que Romeo explicasse que estava bem e que fora vítima de um mal estar isolado, o mafioso continuava angustiado. Definitivamente, Romeo nunca fora um garoto frágil, Benito conseguia contar nos dedos as vezes que seu bambino havia adoecido. O ocorrido no restaurante apenas mostrava que talvez toda aquela pressão fosse demais, mesmo para os padrões de Romeo.

- Bambino... – Agostini suspirou, sem nenhum resquício da máscara de arrogância usada no restaurante – Eu pensei em tudo isso enquanto voltava para casa. Acho que não faz sentido, é um risco desnecessário...

- Papà, eu estou bem... vamos esquecer este assunto?

- Estou falando sério. Volte para casa. Você pode passar uma temporada fora do país e retornar em dois ou três anos, os Romazzini nem vão se lembrar mais do seu rosto. E você só teria que se manter fora do caminho deles, como fez em toda a vida.

Era evidente que Benito estava muito preocupado com a situação do filho. Aquele plano sempre o angustiara, mas agora o mafioso estava francamente desesperado em saber que Romeo estava abalado com toda aquela pressão.

- Papà. Eu não vou recuar agora, está fora de cogitação. Eu já me sinto muito bem. Tive um dia agitado e o signor não ajudou muito insinuando a Don Lorenzo que sou um perigo à filha dele. Se eu perder a confiança dele, está tudo acabado, sabia?

- Perdoe-me, bambino. Você tem razão, eu sinto muito. Pensei apenas em atingir Lorenzo, não medi as consequências...

Romeo ia repetir pela décima vez naquela noite que já estava melhor quando escutou batidas suaves na porta do seu quarto. A voz de Isadora soou logo em seguida, obrigando o segurança a sussurrar no celular.

- Preciso desligar, eu te ligo depois.

Campanaro ergueu-se da cama com um pulo e caminhou com os pés descalços até a porta. Isadora escutaria o som da chave sendo girada no trinco e a porta foi aberta logo em seguida.

Por mais que ainda estivesse abatido por causa do mal estar, Romeo exibia uma visão de tirar o fôlego. Pela primeira vez, desde que Isadora o conhecera, o segurança não usava um terno. A calça de moletom preta era surrada, mas parecia bastante confortável. Cobrindo o tronco, Romeo usava uma camiseta branca que não escondia os músculos dos seus braços e o peitoral bem definido. Os cabelos estavam desalinhados, visto que o rapaz estivera deitado, mas aquela aparência lhe dava um ar absurdamente atraente. Era como se o segurança tivesse acabado de acordar numa manhã preguiçosa e agradável.

- Isadora...

Uma das sobrancelhas dele se ergueu e Romeo pronunciou o nome dela com aquela entonação gostosa, quase uma melodia. A bandeja deixava bem clara qual era a intenção da menina, mas ainda assim o segurança reagiu com profissionalismo.

- Está precisando de alguma coisa?

(...)

A primeira reação de Benito foi dizer a si mesmo que não iria a aquele encontro. Era absurdo que Antonella sumisse por mais de vinte e cinco anos e de repente ligasse fazendo exigências.

Mas o mafioso só precisou de alguns segundos para mudar de ideia.

Depois das turbulências daquela noite, não era uma boa ideia ignorar Antonella. E se ela tivesse descoberto a verdade sobre Romeo? Antonella sempre fora muito inteligente e observadora. E se ela reconheceu em Romeo algum detalhe que denunciava os laços que os uniam? Benito precisava saber, precisava daquela informação para se defender e, principalmente, para defender seu bambino.

Aquela foi a principal motivação que levou o mafioso a dispensar o motorista e a dirigir sozinho até a praia. Mas ele estaria mentindo para si mesmo se dissesse que seu coração não saltitava dentro do peito sempre que ele pensava que ficaria frente a frente com Antonella mais uma vez.

Vinte e cinco anos tinham se passado, a vida havia levado os dois em direções muito distintas. Mas o coração de Agostini ainda se comportava como um adolescente quando o assunto era Antonella Romazzini. Nem mesmo tanto tempo foi capaz de apagar por completo a chama do amor arrebatador que os dois viveram no passado.

Quando o carro escuro estacionou na orla, Antonella já esperava por ele na praia. Ali, olhando para o mar, tão imersa nos próprios pensamentos, Antonella mais parecia uma obra de arte. Uma perfeita estátua que Benito daria uma fortuna para adquirir.

A brisa do mar soprava os cabelos do mafioso para trás. Os sapatos sociais afundavam na areia enquanto Agostini caminhava na direção da loira, mas ele não parecia se importar. Na verdade, ele não conseguia pensar em outro lugar mais adequado para aquele reencontro. Ali era o recanto deles, sempre fora o palco de brigas acaloradas e de reconciliações ainda mais quentes.

Sem dizer uma palavra, Benito se colocou ao lado de Antonella e deixou que seus olhos também se perdessem na imensidão das ondas escuras. Apenas a luz da lua iluminava as águas e os dois únicos ocupantes daquela praia.

A voz de Benito só soou depois de quase dois minutos inteiros de absoluto silêncio.

- Qual é a urgência, Ella?
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 6:24 pm

Os olhos dela repousavam sobre a madeira da porta do quarto – que era um mini-apartamento – do segurança. Uma parte da mansão era reservada aos funcionários que precisavam dobrar a escala e eles podiam manter sua intimidade desde que não afrontasse a honra da familia.

Lorenzo realmente se preocupava com os homens que cuidavam de sua família. E todos eles tinham um quarto próprio, mesmo que também tivessem uma casa em outro lugar. Isso fazia com que eles fosse individualizados e não um aglomerado de números ou sobrenomes.


Isadora já imaginava que ele estaria um pouco mais confortável, mas não imaginava que a sua reação seria aquela.

Quando Romeo abriu a porta, os olhos dela estavam meio abaixados e ela logo se deparou com aquele visão até então desconhecida. Estava tão acostumada com o Romeo de terno que não conseguiu disfarçar a sua surpresa quando o viu daquela forma. As pupilar dela diminuíram, virando dois pontinhos na imensidão azul e as bochechas coraram quase ao mesmo tempo.

Ela usava uma blusa cinza de manga curta e com um delicado decote, onde seu colar estava pendurado e um short de pijama xadrez – vermelho, preto e branco. Os pés eram calçados por chinelo e o cabelo ainda estava preso na mesma trança do jantar.

Também estava bastante informal, mas ela não esperava demorar, de toda forma.

Sentiu a pele arrepiar pela forma como foi chamada e engoliu em seco.

- Sim. – Sussurrou, ainda meio hipnotizada, mas logo piscou, mexendo a cabeça de leve. -  Estou precisando cuidar do meu segurança para que ele volte a trabalhar em breve.

Disse com um certo humor e então ergueu um pouco mais a bandeja para ele.

- Eu sei que você vomitou bastante e está enjoado, mas não pode deixar de se hidratar...Por isso eu trouxe essa água de coco, Gatorade do Pietro, depois eu reponho. – Fez uma careta. – E frutas, caso o seu estômago esteja doendo. E...Remédio para azia e má digestão. E sal de frutas.

Quando foi reparando na quantidade de coisas que havia ali, ela tombou um pouco a cabeça, ponderando.


- O que sobrar de remédio, você guarda pra próxima vez.

Deu um sorrisinho com certo humor e empurrou a bandeja para ele.

- Tome. É toda sua...

(...)

Ninguém é perfeito nessa vida. Todos tem sua quota de pecado a pagar. Antonella não tinha sido diferente. Aquela praia mesmo tinha sido o palco de várias vezes que ela pecara, arriscara. Ela agia por impulso, sem pensar nas consequências ou nas pessoas que poderia magoar por conta de seus atos.


A lista foi gigante.

Mas o preço que ela pagou ainda era cobrado.

As lágrimas escorriam silenciosamente pelo rosto da mulher que ela havia se tornado. Antes uma jovem cheia de vida, audaciosa, até mesmo ousada. Tudo isso se perdeu depois que a mãe a obrigara a fazer a escolha mais desprezível de sua vida. E ela jurara que nunca, nunca o procuraria.

E por vinte e cinco anos ela vinha cumprido essa promessa, sempre evitando os mesmos lugares, ignorando os eventuais olhares, as ligações. Rasgando todos os planos que foram feitos. Tornou-se uma mulher correta, casada com um homem digno, foi mãe. E perdeu tudo. De novo.

Quase como um lembrete do quanto ela havia pecado antes.

Tinha muitos motivos para que ela não quisesse cruzar com Benito. E o principal deles era essa, a pequena chama de motivação que seria acesa para que ela o procurasse. Para que quebrasse a sua promessa.

E qual seria o preço que ela pagaria agora?

Talvez, a verdade.

As lágrimas pararam de rolar quando ela sentiu a aproximação de Benito. Sim, o perfume dele o denunciava e o vento geralmente estava a favor de Antonella. A loira passou delicadamente as mãos pelo rosto e cruzou os braços logo abaixo de seu peito. O elegante vestido daquela noite estava protegido pela comprida echarpe. E a mesma destacava seu cabelo dourado, sua pele já com marcas de expressão, mas ainda bela e os olhos azuis de sua família.


Os olhos continuaram fixos no mar mesmo quando Benito parou ao seu lado.

Foram minutos que pareceram horas onde eles apenas ficaram observando o vai-e-vem das ondas.


A presença dele conseguia acalmar ao mesmo tempo que agitava seus sentimentos. Quando a voz dele ecoou daquela forma, a chamando pelo apelido que ele carinhosamente lhe dera, ela não mais aguentou e finalmente voltou a encará-lo.

- Meu filho.

Sussurrou.

- O nosso filho, Benny.

Naquela distancia, ele podia imaginar como os olhos dela estavam avermelhados, mas também podia identificar o cheiro do álcool. Ela precisou tomar coragem, quase que literalmente para o que viria.

- Eu preciso saber se você ficou com ele ou se eu vivi uma mentira pelos últimos vinte e cinco anos. Ela me deu a palavra dela que ele chegaria aos seus braços, se eu nunca mais o procurasse. E eu me agarrei nessa crença e cumpri minha parte da promessa. Eu disse ao Lorenzo que não queria vê-lo esta noite. Em nenhuma outra noite...

As lágrimas malditas escorriam de novo pelo rosto dela.


- Mas ele não me ouviu e agora...Eu preciso saber. E eu imploro para que você me diga como o meu filho está. Aonde o meu filho está...
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 7:23 pm

O coração de Benito falhou uma batida quando Antonella pronunciou a expressão “nosso filho”. Naquele momento, ele teve certeza de que a ex-amante sabia toda a verdade sobre Romeo. A mente de Agostini já tentava imaginar a melhor maneira de salvar seu bambino das garras dos Romazzini quando percebeu que Antonella não sabia a verdade.

Um suspiro de alívio foi inevitável. Mas logo a dor estampada no rosto da mulher fez com que Agostini se sentisse mal novamente.

Por muitos anos, Benito imaginou que Antonella havia simplesmente abandonado aquela criança e reconstruído a vida sem nunca mais pensar no fruto do amor proibido com um Agostini. Aquilo não combinava em nada com a Antonella que ele conhecera, mas que outra resposta poderia ter para aquele silêncio de vinte e cinco anos?

Finalmente, a resposta viera e tudo se tornara mais claro. Agora Benito entendia como Antonella tivera coragem de “abandonar” o filho e nunca mais procurara por notícias da criança.

Era doloroso que ela não soubesse que seu bebê estava tão próximo. Naquela mesma noite, Antonella havia tocado no filho e não sabia disso.

É claro que Agostini não podia confortá-la com toda a verdade. Mas ele podia mencionar alguns detalhes que certamente abrandariam a dor daquela mãe.

- Ele chegou aos meus braços. – a voz de Benito se tornou mais sonhadora enquanto sua mente reconstruía cenas do passado – O bebê mais adorável que eu já vi. Quase nunca chorava...

A cabeça do mafioso se virou lentamente na direção de Antonella.

- Não me pergunte se eu “fiquei com ele” como se o nosso filho fosse um filhote de cachorro. Este questionamento me ofende, Ella. É claro que eu não me livraria de um filho. Muito menos de um filho nosso.

Benito novamente voltou seus olhos para o mar enquanto falava.

- Eu não pude assumi-lo como meu, é claro. Para a própria segurança dele, era melhor que crescesse sem que o mundo soubesse de sua condição de bastardo. Mas eu nunca me descuidei dele, Ella. Nunca.

A voz de Benito se tornou mais distante.

- Ele sabe que é meu filho. Eu o poupei da verdade sobre a mãe, mas não consegui esconder dele o meu amor. Nosso filho... – Agostini abriu um sorriso emocionado - ...ele é perfeito, Ella. Tornou-se um homem tão inteligente, tão bonito. Tenho mais orgulho dele do que de qualquer um dos meus filhos legítimos. É o meu bambino mais amado, e ele sabe disso.

Benito fez uma longa pausa antes de olhar novamente na direção da antiga amante.

- Como eu poderia não amar algo que veio de você, Ella?

(...)

O “bambino” de quem Benito e Antonella falavam estava agora diante de Isadora Romazzini. Um sorriso enigmático surgiu em seus lábios enquanto Romeo pegava a farta bandeja oferecida pela menina. Ele estava encantado com a preocupação e com a gentileza de Isadora. Definitivamente, Romeo não esperava por aquilo depois da troca de farpas daquele dia.

- Você disse “meu segurança”...? – Campanaro alargou mais o sorriso – Isso é bom. Achei que tivesse perdido o emprego.

Romeo fez uma breve careta enquanto observava os itens da bandeja.

- Eu lamento por isso. Estou constrangido pela fraqueza e pelo mal entendido que quase terminou mal no restaurante. Realmente não entendo o que houve. Pode ser que o molho da carne tivesse algum ingrediente a base de amendoim, estava meio adocicado. Eu sou alérgico. É a única coisa que faz meu estômago reagir tão mal.

O mal estar fora fruto da tensão daquela noite, mas Romeo estava dizendo a verdade quando mencionou a alergia a amendoim. E aquilo não seria uma novidade para Isadora. “Coincidentemente”, a tia Antonella sofria daquele mesmo mal. Se ousasse colocar amendoim na boca, brotavam erupções na pele da loira e seu estômago expulsava imediatamente todo o conteúdo.

- Obrigado, Isadora. Você realmente não precisava se preocupar.

Como a menina parecia curiosa com o interior do quarto, Romeo abriu um pouco mais a porta. Era um cômodo amplo e confortável. A cama estava amassada, sinalizando que Romeo estivera deitado ali. O terno usado pelo rapaz naquela noite estava embolado em cima da poltrona, seus sapatos estavam espalhados pelo tapete.

- Não sou muito organizado, eu confesso.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 8:09 pm

Antonella sentiu um nó apertando sua garganta quando ouviu a narrativa de Benito. Ela nem ao menos pôde ver o rosto de seu filho. Não havia nenhum traço para que ela pudesse se lembrar, nem mesmo o cheirinho que ele tinha. A única coisa que ela sabia era que se tratava de um menino, isso porque ela pôde ver quando o puxaram e cortaram o cordão umbilical.

- Ele também não chorou no instante em que nasceu...Mas os olhos estavam abertos.

A mulher gaguejou ao dizer isso e passou a mão pelo rosto, tentando impedir que as lágrimas continuassem escorrendo, mas o fluxo já era impossível de ser contido.

Ao ser chamada a atenção pela forma que havia se expressado sobre o bebê, ela meneou negativamente ergueu uma mão na direção dele, como se pedisse para que ele se acalmasse.

- Não foi minha intenção, Benny. Eu juro...

E silenciou-se enquanto ele falava sobre a história do bebê deles. Por um instante, ela quase sorriu. O coração de mãe realmente não se enganava e por isso mesmo ela não sentia o peito se comprimir em reconhecimento quando olhava para as imagens de Vicenzo. Ele não era o seu bebê.

Mas seu bebê era o que trazia mais orgulho ao pai. O que ele mais amava.

Não seria mentira dizer que ela sentia inveja de Benito por ter podido aproveitar todos aqueles anos ao lado do menino. Mesmo que fosse um bastardo, ele conheceu o amor do pai. E Benito certamente tinha o amor do filho, amor que fora negado a ela.

A pergunta final de Benito arrematou o coração dela.

Antonella abaixou o olhar, secando as lágrimas e fungando.

- Eu sei o que pareceu, Benny. – Disse num sussurro. – Eu sei que você deve ter me odiado e que meu filho deve me desprezar por achar que foi abandonado. Mas acredite em mim quando eu digo que...

As palavras ficaram engasgadas em sua garganta. O peito comprimiu com mais força e ela levou a mão até o mesmo. Fechou os olhos com forças e meneou negativamente.

- Não houve um único dia que eu não pensasse no nosso menino. Ou em você...

Confessar aquilo era mais difícil do que ela imaginava. Novamente ela estava traindo sua família.

- Eu queria que tudo, absolutamente tudo tivesse sido diferente. Estava tudo certo para que eu me encontrasse com você, depois da sua última viagem, mas...A minha mãe desconfiou dos meus sintomas e creio que minha carta nunca chegou até você. Minha mãe era uma mulher cruel, Benny.

Antonella não dizia isso com satisfação, ela dizia com claro rancor da própria mãe.

- Até hoje eu tinha duvidas se ela realmente cumprira a parte dela do acordo. Porque ela queria mata-lo no poço ou jogá-lo no lixo. Eram as duas opções que ela me dava, depois de me manter trancada por 5 meses e de impedir que eu segurasse ou amamentasse o meu bebê.

A mão dela recaiu até o ventre. Os italianos eram naturalmente dramáticos, mas era impossível não acreditar no que ela dizia. E na dor que ela revivia.

- E foi nesse instante que eu soube que para que meu filho vendesse, eu deveria oferecer algo precioso a ela. Por isso...Eu me vendi. E cumpri minha parte da promessa, sem questionar, sem hesitar. E sem saber absolutamente nada do meu pequeno. Eu nem ao menos sei a cor dos olhos dele, Benny. E não existe como você recuperar vinte e cinco anos...O tempo é a única coisa que você não recupera...

Fechou os olhos, escondendo o rosto com as duas mãos. Os ombros dela tremiam e nem mesmo quando ela era jovem, ela pareceu tão frágil quanto naquele instante.

(...)

A bandeja foi para os braços de Romeo e Isadora entrelaçou os próprios dedos à frente de seu corpo. Arqueou uma das sobrancelhas para o comentário dele e fez um bico no canto dos lábios.

- Não comemore muito. Já que você faz tanta questão do trabalho, serei uma chefe bem inoportuna. Seu dia será recheado, mas você não poderá reclamar. 

Eu dei a chance de você ser o segurança do Pietro.

Ela ainda estava brincando e o sorriso dela demonstrou isso.

Quando ouviu a justificativa de Romeo, ela fez uma expressão meio surpresa também e ponderou.

- Você não precisa se justificar, Romeo. E não se preocupe mais com o cardápio de lá. Não vamos voltar nem tão cedo. Mesmo que o Signor Agostini estivesse certo sobre o Petit Gateau. Se bem que...

Meneou negativamente.

- Não podia imaginar que ele fosse um dos inimigos de papà. Como alguém pode enganar tanto, não é? Ele foi tão gentil, mas teria feito mal a qualquer pessoa naquela mesa, quando quisesse.

Abaixou o olhar, realmente chateada.

- E eu tinha gostado dele. Acho que realmente preciso de um segurança, eu sou muito boba.

Cruzou os braços e tinha que falar sobre o remédio de tia Antonella, mas Romeo tinha entendido aquela demora como uma curiosidade dela. Isadora ficou surpresa com a arrumação do quarto dele e chegou a se coçar de leve.

- Nossa. Você é...um caso perdido, Romeo. Dio mio... – Reprovava. – Eu não vou nem olhar por mais um segundo ou vou querer arrumar isso. Por todos os santos!!

Desviou o olhar.

- Você mencionou ser alérgico a amendoim. Tia Antonella também sofre dessa ingrata alergia. Se precisar de um antialérgico, ela tem uma farmácia no quarto dela. Posso pegar pra você.

Olhou para o corredor porque aquele quarto realmente estava a tirando de seu juízo perfeito.


Por mais de um motivo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 9:03 pm

A tentação era tão grande que Benito não resistiu e colocou-se atrás de Antonella. As mãos do mafioso foram pousadas nos ombros da ex-amante e, como nos velhos tempos, ele a massageou naquela região, deixando que os dedos compridos deslizassem até a nuca de Antonella, desfazendo os pontos de tensão.

Era horrível vê-la tão fragilizada. Benito nunca gostou de ver nenhuma mulher sofrendo, mas aquele incômodo era quase sufocante quando a dor vinha de Antonella. Ele a amava, nunca deixara de amar. Mesmo quando imaginou que a amante havia abandonado o filho, Agostini nunca foi capaz de odiá-la.

- Agora tudo faz sentido. Agora eu entendo que você nunca deixou de ser a mulher corajosa por quem eu me apaixonei. Você salvou o nosso bebê, Ella. O seu sacrifício foi grande, mas valeu a pena. O nosso filho sobreviveu.

Vagarosamente, Benito deslizou pela areia até ficar de frente para Antonella. Num gesto carinhoso, ele limpou as lágrimas dela com as pontas dos dedos. Motivado pela dor refletida nos olhos da mulher que ele ainda amava, Agostini tomou uma decisão drástica.

Ele não queria englobar Antonella na grande mentira articulada na casa dos Romazzini. Ela não merecia ser enganada depois de tanto sofrimento. Antonella não merecia continuar chorando por um filho desaparecido quando o bebê que ela tanto amava estava ao alcance de suas mãos.

- Ella... você realmente ama o nosso bebê, não ama?

Benito continuou antes que a loira tivesse a chance de responder.

- Você se sacrificou demais para mantê-lo vivo, então não faria nenhuma bobagem que pudesse custar a vida do nosso bambino, não é?

- Do que está falando...? – Antonella soluçou, completamente confusa – É claro que eu nunca faria nada para prejudicar o meu filho, Benny!

- Neste caso, há algo que você precisa saber... Eu não vou aguentar dar as costas a você esta noite sem que você saiba, Ella. Você precisa saber. Você já sofreu muito.

O mafioso apalpou os bolsos até encontrar o smartphone. Ele quebrou um pouco a tensão do momento compartilhando um sorriso divertido com Antonella enquanto destravava o aparelho.

- Não fique muito ansiosa, eu ainda não estou totalmente adaptado a tais tecnologias.

De fato, Benito demorou um pouco até conseguir abrir uma pasta de fotos dentro do seu álbum. A pasta em questão estava protegida por uma senha, que o mafioso digitou com alguma dificuldade devido à escuridão da praia.

Quando Agostini finalmente abriu a foto que planejara, a tela foi virada na direção de Antonella. A loira veria uma fotografia mais antiga, provavelmente fora escaneada através de um computador. Na imagem, um bebê de pouco mais de um ano estava sentado num jardim ensolarado, acenava para a câmera com uma das mãozinhas gorduchas e chupava os dedinhos da outra mão.

- É o nosso bambino.

Benito deu todo o tempo do mundo para que Antonella admirasse a criança. O pequeno Romeo tinha a pele clarinha, o que realçava seus olhos azuis escuros. Os cabelos eram negros e começavam a formar adoráveis cachinhos. E ele parecia muito feliz e bem cuidado. Certamente aquele seria um enorme consolo para a mãe.

- Mais uma...

Agostini vasculhou novamente os arquivos até encontrar outra foto do filho bastardo. Na segunda imagem, Antonella veria um garotinho de uns cinco anos. Ele já era bem alto para a idade e os cachos negros nos cabelinhos estavam mais definidos. Havia algo de familiar no sorriso e no olhar esperto do garotinho, mas é claro que Antonella jamais imaginaria a verdade.

- Ella... – Benito alertou enquanto selecionava a próxima foto – Eu preciso que fique calma. Por favor, Ella. Eu vou te mostrar mais uma foto do nosso bambino, mas você precisa me prometer que não fará nenhuma bobagem...

- Que bobagem eu faria, Benny?

- Promete, Ella?

Agostini esperou que a ex-amante concordasse com um movimento de cabeça. O mafioso respirou fundo antes de virar a tela do celular novamente para a loira. Antonella veria uma típica fotografia de família. Benito estava com roupas casuais e uma vara de pescaria nas mãos. Atrás dele, havia um lago calmo. Certamente o mafioso estava em uma das suas tantas propriedades rurais.

Mas o detalhe mais chocante da imagem era o rapaz que o acompanhava. Romeo Campanaro estava um passo atrás de Benito e mantinha um dos braços apoiados no ombro do pai. Os dois sorriam, Romeo olhando na direção da câmera e Benito fitando o filho com um semblante amoroso.

(...)

- Se foi a alergia, já passou. Eu estou bem.

Romeo já havia perdido as contas de quantas vezes já repetira aquelas palavras nas últimas duas horas. Mas a verdade é que só agora ele se sentia realmente bem. A visita inesperada de Isadora tivera o poder de elevar o seu ânimo e exterminar por completo o seu mal estar.

- E acho que já tem comprimidos demais nesta bandeja. Mais do que já precisei tomar em toda a minha vida.

Depois daquela brincadeira, o segurança deu as costas a Isadora e entrou no quarto. A porta continuou aberta, num convite mudo para que a moça entrasse. Romeo não se atreveu a fazer o convite porque Isadora já havia deixado bem claro que tinha algumas características Romazzini em seu temperamento. Além disso, Romeo estava se deliciando com a curiosidade de saber até onde Isadora iria naquele inegável clima que surgia entre os dois.

A bandeja foi colocada no canto da cama e Romeo iniciou a exploração pelo Gatorade. A garrafinha foi aberta e o segurança tomou um generoso gole antes de se virar novamente na direção da porta.

- Não se culpe tanto. Don Benito Agostini foi gentil com você, não havia motivos para desconfiar das intenções dele. Você não é tão tola, Isadora. Só precisa reconhecer melhor as situações maldosas que nos cercam.

Romeo tomou mais um gole da bebida antes de se sentar ao lado da bandeja, na pontinha da cama.

- Eu vou te ensinar a se defender disso também.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Nov 20, 2015 9:58 pm

- Benny...

Antonella sussurrou o nome do amor de sua vida e se encolheu diante do toque dele. Pouco a pouco ela conseguiu relaxar com a massagem que recebia. Soluçou mais um pouco, mas deixou que ele falasse.


Uma vez diante dele novamente, ela apenas meneava negativamente.

- Não, eu nunca quis abandonar nosso filho, nem você.

Repetia apenas o que havia dito, mas logo Benito surgia com aquela história e os olhos dela se encheram de esperanças. Não pensou em pedir para que ele mostrasse uma foto recente do filho deles, até porque, ela não se achava nesse direito.

Naquele instante, Benito se aproximou de um verdadeiro herói, quase um santo pelo milagre que realizava na vida de Antonella. Ela mal conseguia se segurar em pé enquanto ele pedia para que ela tivesse paciência. As mãos dela tremiam e tremeram muito mais quando ele virou a tela do celular para ela.

E a primeira foto, foi simplesmente arrebatadora.

Aquele bebezinho tão gordinho, com as bochechas tão deliciosas. O soluço dela ecoou pela praia e ela realmente não suportou mais o peso do próprio corpo e ajoelhou-se na areia da praia, sentando-se em seu calcinha.

- Oh Dio Mio!!

Abraçou o celular e voltou o olhar para aquele menino tão lindo.

- O meu pequeno era tão lindo!! Tão misturado com a gente...Os cachos da minha familia...

Acariciou a foto como um bem precioso e olhou para cima, para Benito. Segurou a mão dele e deu um beijo antes de falar.

- Benny...Você...Obrigada...Muito obrigada...

Benito começou a se abaixar e sentou-se ao lado dela. Gentilmente pegou o celular de novo e para mostrar outras fotos.

Antonella estava em estado de graça e lágrimas. Ela nem conseguia respirar direito. A cada foto, maior era a expectativa de saber como o seu menino estava atualmente, mas ao mesmo tempo, seu coração se acalmava ao ver que ele tinha sido criado com o amor do pai.

A admiração por Benito apenas aumentava até que...

Que tipo de loucura Antonella poderia fazer com a verdade?

Estava se recompondo de novo quando a última foto veio.

E o sorriso dela que estava praticamente tatuado em seus lábios, foi sumindo pouco a pouco. O coração parou na garganta e ela tentava entender o que estava acontecendo ali.

Conhecia o rapaz há dois dias, mas desde o primeiro instante ela se sentiu afeiçoada por ele. Antonella nutria um carinho muito grande para alguém que ela nem conhecia. Parecia inexplicável. Apenas parecia...

E ao mesmo tempo que seu coração disparava por seu filho estar tão perto dela, o ódio também aumentava por saber que Benito tinha colocado o filho deles no meio da linha de fogo. Ele era um agente duplo! E era bastante mentiroso, pois estava enganando toda a familia. Estava enganando...Isadora.

- Romeo...

Ela falou o nome baixinho e olhou para Benito.

- Como você pode fazer isso, Benito? Como você teve CORAGEM de fazer isso?

A feição de Antonella mudou da água para o vinho e ela se levantou num impulso, de uma vez só. A echarpe ficou e ela levou as mãos até a cabeça.

- O Lorenzo vai matar o meu filho, Benito. O Lorenzo vai mata-lo!!! COMO VOCÊ PODE FAZER ISSO? COMO VOCÊ PODE SER TÃO CRUEL???? QUE TIPO DE HOMEM VOCÊ SE TORNOU??? O NOSSO FILHO, COMO UM ESPIÃO!!!! BENITO!!!!!

(...)

Aquele era um jogo que Isadora realmente não dominava, mas havia um certo instinto para brincar com ele. Não era de forma inconsciente que ela caía nas armadilhas que Romeo criava, mas ela também não podia acreditar que ele fosse tão ousado ou inconsequente...

Não era nada demais, não é?

Ela deu uma risada com o comentário dele e voltou a encará-lo, observando enquanto o rapaz dava um longo gole no Gatorade e se aproximava da cama.

Ficou um pouco mais séria quando ouviu o conselho dele e meneou positivamente.

- Falando nisso...

Levou a mão até o bolso traseiro do short de pijama que ela usava. Retirou o celular dali e...deu um passo a frente, finalmente entrando no quarto dele.

- Hoje de manhã eu preparei os meus horários para que você pudesse se organizar. Eu ia entregar à tarde, mas nós tivemos aquele pequeno...”incidente”.

Deu de ombros e se aproximou da roupa dele que estava jogada. Ela tinha sérios problemas com bagunça e ele pode perceber isso no instante que ela pegou a roupa e começou a dobrar com uma das mãos enquanto com a outra desbloqueava o celular.

- Liga o seu bluetooth para que eu passe a tabela para você...É um arquivo, acho que não dá para passar por whatsapp.

Ligou o bluetooth dela e deixou o celular sobre uma das superfícies do quarto. Deu as costas para Romeo e dobrou as roupas que estavam largadas. Colocou em cima da poltrona, sendo o terno colocado de modo correto, esticado, no encosto da mesma. Depois catou os sapatos dele e também colocou em frente à poltrona.


- Por que vocês são tão desleixados...?


Virou-se para Romeo, esperando para ver se ele já tinha recebido o arquivo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sex Nov 20, 2015 10:38 pm

Embora soubesse que merecia cada uma daquelas acusações, Benito não compartilhava o mesmo desespero de Antonella. O mafioso deixou que ela explodisse – e ele tinha certeza que explodiria – e só tomou a palavra quando a loira finalmente pareceu ficar sem voz.

- Em primeiro lugar, acalme-se. De nada vai adiantar ficar histérica, Ella. Está feito.

Agostini suspirou e suas feições assumiram uma expressão chateada. Ele era um excelente mentiroso, mas Antonella era uma das raras pessoas que não se deixavam enganar por Benito. Naquela noite, ela teria certeza que o ex-amante estava realmente chateado com aquela situação.

- Não foi uma ideia minha. Eu jamais planejaria colocar o meu bambino nas garras do meu pior inimigo. Eu me posicionei contra este plano até o último momento, mas eu não pude evitar por um simples motivo: o Romeo fez questão de levar a ideia até o fim.

Pelo pouco que conhecia de Romeo, Antonella já teria motivos para acreditar que seu filho não tinha uma personalidade fácil. O novo segurança dos Romazzini já mostrara à família que era insolente e que não se intimidava com facilidade.

- Romeo não está no meu testamento por objeção dos meus outros filhos, principalmente Vincenzo, o caçula. E partiu de Vincenzo o desafio. Ele garantiu que se Romeo conseguisse se infiltrar na famiglia Romazzini e nos trouxesse algum ganho indiscutivelmente grande, o nome dele seria posto no testamento.

Os olhos de Benito giraram e ele estava francamente irritado quando continuou.

- Romeo não precisa de dinheiro, Ella. Ele tem uma poupança com a qual conseguiria viver confortavelmente até a velhice. Eu já passei várias propriedades para o nome dele. O testamento seria apenas uma formalidade jurídica desnecessária. Ele aceitou o desafio porque quer mostrar ao Vincenzo que ele tem coragem. Romeo é assombrosamente teimoso, atrevido, orgulhoso e não se esquiva de desafios...

Agostini não se dava conta de que, ao descrever os defeitos do filho bastardo, parecia estar falando de si mesmo.

- Eu liguei para ele pouco antes de vir ao seu encontro e implorei que esta loucura acabasse. Sugeri uma temporada fora do país, bem longe dos Romazzini. Romeo me respondeu com um simples: estou bem. E desligou o celular.

O mafioso também se levantou calmamente, posicionando-se em frente à Antonella.

- Não pense que estou dormindo tranquilo sabendo que meu bambino está sob o teto de Lorenzo. Por mim, isso jamais teria acontecido. Mas Romeo é tão teimoso quanto você.

(...)

O segurança conteve um sorriso enquanto assistia Isadora entrando vagarosamente em seu quarto. Ela mais parecia um filhotinho explorando um novo ambiente. Como a filha dos Romazzini conseguia ser tão adorável!?

O comentário sobre os horários fez com que Romeo se esticasse para pegar o celular sobre o criado-mudo. Havia um aparelho em seu bolso, mas aquele era o que Campanaro chamava de “celular Agostini”, no qual recebia apenas as chamadas de sua família “oficial”.

- Está ligado, pode transferir...

Aproveitando-se que Isadora estava de costas arrumando as roupas dele, Romeo deslizou silenciosamente para fora da cama. Com passos leves, o segurança foi até a porta e a fechou sem fazer nenhum ruído.

Quando a garota se virou, encontrou o quarto fechado e Romeo há poucos centímetros de distância, olhando-a de uma maneira muito semelhante à forma como um predador encararia uma presa.

- O que...? O que está fazendo...? – os olhos de Isadora não poderiam estar mais arregalados.

- Estou colocando em prática o que você planejou quando veio ao meu quarto hoje, Isadora.

Com um sorriso, Romeo deu um passo na direção da moça. Isadora recuou até sentir suas costas apoiadas na parede. Ela já chegara ao fim do quarto do segurança.

- Eu planejei te trazer remédios. E um lanche!

- Não. – Romeo sacudiu a cabeça lentamente, colocando-se diante da menina – Você pode até não ter plena consciência, mas o que você planejou foi isso...

As mãos do segurança tocaram o rosto de Isadora com uma delicadeza que combinava com os traços dela. O coração dele pulsava na garganta e todos os seus instintos estavam aflorados. Apesar disso, Romeo conseguiu se conter. Quando ele se inclinou na direção da garota, seus lábios capturaram os dela num beijo suave e gentil.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Sab Nov 21, 2015 11:44 am

Antonella tinha ficado completamente sem voz depois daqueles gritos que ecoaram pela praia. Enquanto Benito tentava se explicar, ela só conseguia menear negativamente e pensar no que poderia fazer para salvar o seu filho da ira de seu irmão.

- Você não tem ideia do que fez, Benito.

Disse num sussurro, com a voz bastante rouca. Fechou os olhos, levando a mão até a garganta.

- Você está mentindo para si mesmo! É isso o que você está fazendo! – Bateu o pé na areia e se aproximou dele, buscando os olhos dele para que o encarasse fixamente. – Você permitiu que o nosso filho colocasse a cabeça dele à prêmio. Você, Benito, não o seu filho. Porque se você realmente quisesse impedir que isso acontecesse, você podia ter evitado.

O pesar e o rancor estavam presentes em seu tom de voz. Antonella acreditava que não tinha mais lágrimas para chorar, mas se surpreendeu quando os olhos ficaram marejados de novo.

- Talvez a tentação de me provocar e de provocar o Lorenzo tenha sido mais forte do que o bem-estar do nosso filho! Como você acha que ele conseguirá sair dessa? Todos nós sabemos o que acontece com os nossos seguranças. Ou eles morrem nos defendendo ou eles morrem tentando sair da familia. O que você imagina que acontecerá com um espião?

Escondeu os lábios com as duas mãos e meneou negativamente.

- É óbvio que eu vou proteger o meu filho, mas eu não posso trair minha familia, Benny. Eu não posso traí-lo de novo, você entende isso?

Não, ele não entendia. Ou não teria colocado o filho deles naquela casa!

Pelos céus! Romeo agora tinha uma arma constantemente apontada para sua cabeça. E, ao mesmo tempo, as situações clareavam novamente.

Os dois golpes que eles tinham sofrido. Tudo tinha sido por conta de Romeo e Benito. Antonella franziu as sobrancelhas e recuou um passo.

- Eu vou pensar em algo “grandioso” que o Romeo possa mostrar para sua familia e se livrar desse fardo absurdo, Benito. Mas eu não vou permitir que ele atrapalhe os planos do meu irmão. Tampouco coloque a vida da minha sobrinha e a minha em perigo. Você planejou o ataque de ontem e o nosso filho tomou um tiro. Por pouco não matou a minha sobrinha, que eu amo como se fosse minha filha. E isso, eu não vou perdoar.

Pegou a echarpe que estava que estava perto de Benito e bateu na mesma, tirando a areia.

- Essas são as minhas condições e a única forma de proteger o nosso filho. Se você quiser me impedir, só me matando...

Deu de ombros e deixou que eles caíssem enquanto ela abria um pouco os braços.


- E você tem a chance agora.

(...)

- Romeo...

O nome dele foi suspirado enquanto os olhos de Isadora desviavam daquele tom escuro de azul e recaíram nos lábios carnudos.  Um arrepio percorreu por seu corpo antes mesmo do beijo começar.

Romeo segurou o delicado rosto de Isadora, cujos traços se encaixavam com perfeição nas habilidosas mãos do segurança. O corpo dela ficou um pouco mais tenso, com as costas completamente grudadas na parede.

Apesar de ser uma cena bastante sensual, o beijo não pode ser mais gentil e romântico. Isadora estava completamente tensionada até que o beijo começou.

Não era o primeiro rapaz que ela beijava. Nem o segundo ou terceiro. Apesar de ser uma moça recatada, ela tivera breves experiências ao longo dos anos. Nunca tinham passado de beijos, porque a menina tinha a crença que tudo despertava com o beijo.


Se ele não lhe dissesse nada, não lhe trouxesse o tal do arrepio, ela sabia que não haveria motivos para insistir e seguir em frente.

Era impossível não se lembrar de sua mãe.

Chiara sempre lhe contava histórias de conto de fadas ou de heróis da cultura pop, quando Pietro também estava para ouvir a mãe antes de dormir.  Mas a história favorita de Isadora era quando gostava de ouvir era sobre os seus próprios pais.

E quando a garotinha sem dentes perguntou como a mãe soube que estava apaixonada por Lorenzo, Chiara deu um sorriso e respondeu.

“Um suspiro antes do primeiro beijo...”.

Ela dizia isso de modo tão romântico que ela gravara em sua mente.

E no suspiro antes do primeiro beijo, Isadora dissera o nome de Romeo. E sabia que nunca mais desejaria beijar outros lábios. Sabia que estava apaixonada...

Os braços dela percorreram os fortes braços fortes do rapaz até envolver o pescoço dele e tombar o rosto para o lado. Eles trocavam um beijo gentil e carinhoso, mas ele despertava sensações semelhantes de um beijo mais quente. A sintonia deles parecia inexplicável até mesmo para os próprios envolvidos.


O quarto se entregou ao silencio que era quebrado por conta dos movimentos dos lábios ou quando eles eventualmente trocaram de lado. Os lábios se afastaram com um último gesto e os olhos dela continuaram fechando. Ela escondeu os próprios lábios por um segundo, mas antes que houvesse um segundo beijo, ela recuou. Deslizou as mãos até os ombros dele e o afastou delicadamente.

- O que estamos fazendo...Não pode...

Meneou negativamente, abrindo os olhos para encará-lo.

- Não...


Levou a mão até os lábios e tentou sair da parede, fazendo um real esforço para que isso acontecesse. Em parte porque estava lutando contra o próprio desejo.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Sab Nov 21, 2015 8:23 pm

- Você não conhece o nosso bambino...

Benito murmurou quando Antonella o acusou de não ter impedido o “plano Romazzini”. A verdade é que, por mais que respeitasse o pai, Romeo sabia impor a própria vontade. Por saber que Benito o amava tanto, o rapaz sabia muito bem como usar aquele sentimento ao seu favor. Não havia nada que o mafioso lhe negasse.

A acusação de Antonella fez com que, pela primeira vez naquele encontro, Benito perdesse a serenidade. Os olhos dele se estreitaram e sua voz soou perigosamente calma e articulada.

- Eu não planejei ataque algum. Nunca mais ouse questionar o meu amor por Romeo e o meu zelo pela segurança dele. O ataque de ontem foi um erro, algo que escapou do meu controle. Mas eu já cuidei de todos os detalhes e garanti que isso nunca mais se repita.

Os olhos de Agostini giraram com alguma impaciência quando Antonella finalizou seu desabafo de forma tão dramática. Aquilo não fazia sentido, principalmente porque ela sabia que o ex-amante jamais teria coragem de matá-la.

- Poupe-me desta encenação, Ella. Não somos mais jovens que podem perder tempo com dramaticidades. Sejamos racionais. Você apresentou as suas condições e eu te digo que concordo com elas. Mais do que isso, eu ficarei muito grato se você conseguir colocar um fim nesta história.

Benito suspirou e soou sincero quando completou.

- Depois de tudo o que aconteceu hoje, tudo o que desejo é ter meu bambino de volta sob as minhas asas protetoras.

(...)

Normalmente, Romeo não valorizava nenhum tipo de beijo que não tivesse o poder de lhe arrancar todo o fôlego. Ele era um amante naturalmente quente, que já procurava no primeiro beijo a saciedade dos seus instintos mais primitivos.

Com Isadora, contudo, as coisas foram diferentes. Romeo não quis assustá-la com uma abordagem mais intensa e optou por um beijo mais romântico. E aquela nova maneira de interagir com uma mulher foi surpreendentemente agradável para o segurança. O beijo não deixou Romeo excitado ou ofegante, mas conseguiu fazer com que seu coração se acelerasse e com que um calor gostoso se espalhasse em seu peito.

Havia uma sintonia inexplicável naquela união dos lábios. Era a primeira vez que Romeo se via tão saciado com um beijo, e nem era um beijo quente!

Isadora se encaixava com perfeição junto ao peito dele, os dois se beijavam com movimentos harmônicos, como se soubessem exatamente o que esperar um do outro. Ninguém que visse aquela cena se arriscaria a dizer que era o primeiro beijo daquele casal.

Quando Isadora acordou daquele sonho e aterrissou violentamente na realidade, Romeo não tentou impedir que a garota se afastasse. Pelo contrário, o segurança deu um passo para trás e abriu espaço para que a garota saísse de perto da parede.

É claro que Romeo queria que ela continuasse por perto, desejava um novo beijo e talvez até algo mais. Mas o segurança sabia que garotas como Isadora precisavam de tempo. Ela ficaria assustada e fugiria se começasse a se sentir pressionada. Era mais sensato – e também mais gostoso – manter um ritmo mais lento naquele jogo de sedução. Pelo menos por enquanto.

- Desculpe. Eu achei que você também quisesse...

Romeo encostou-se na parede e voltou os olhos azuis escuros para a garota. A jogada dele era arriscada, mas o segurança acreditava na própria audácia. E Romeo tinha certeza que, depois daquele beijo perfeito, Isadora não conseguiria evitá-lo por muito tempo.

- Eu realmente não queria estragar o nosso relacionamento, Isadora. Se preferir, podemos esquecer que isso aconteceu. É isso que você quer, Isadora?
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Isadora Romazzini em Dom Nov 22, 2015 6:58 pm

Antonella ficou sentida quando Benito disse que ela não conhecia o filho. Apesar de saber que ele não quis ataca-la com aquela declaração, Antonella sentiu como se recebesse um tapa em sua cara. Era óbvio que ela não conhecia o bambino deles, mas isso não significava que ela não o amasse. Ela o amou por vinte e cinco anos, sem nunca ter tido a chance de conhecer seu rosto direito. E agora que ele ganhou formas, ela se preocupava em perde-lo e isso fatalmente aconteceria se Lorenzo soubesse da verdade.

Conseguiu ministrar a dor ao ouvir sobre o ataque do dia anterior. Benito não admitia que ela o acusasse de tal ato, mas também não negava a autoria do fato. Ou seja, algum de seus subordinados pensou em causar um dano irreversível ao seu filho.

Mas quem?

Era uma resposta que ela sabia que não obteria com tamanha facilidade. E Antonella falava sobre o que iria fazer, para tentar proteger o filho e o irmão. Porque não podia trair sua familia, mas também não podia permitir que nada acontecesse ao seu filho.


Fechou os braços, meio que se abraçando após ser repreendida pela cena que ela fez. No entanto, ela tinha sido bem sincera.

Os olhos avermelhados por conta das lágrimas e do álcool voltaram-se para Benito.

- Eu vou dar um jeito de afastá-lo e coloca-lo fora de perigo. Ele está cuidando de Isadora, então, vou mantê-los longe de qualquer confusão. E longe do Lorenzo. Até que eu encontre algo que ele possa mexer, sem que afete o meu irmão.

Ajeitou a echarpe e fungou novamente, olhando para o mar. Ficou em silencio por alguns minutos até que finalmente sussurrou.

- Obrigada, Benny...Por me contar a verdade e por ter... – O sorriso dela vacilou. – Dado todo o seu amor ao nosso filho. Obrigada...

Mordeu o lábio inferior e eliminou a distancia entre os dois, finalmente o abraçando. Até então, eles não tiveram nenhum tipo de contato físico. Nenhum cumprimento com as mãos ou beijos. Mas aquele abraço, aquele abraço compensava qualquer falta de decoro anterior.

(...)

Isadora estava com as pernas bambas e vacilou alguns passos até se afastar de Romeo. Passou a mão pelos lábios, olhando para trás uma última vez e franziu um pouco as sobrancelhas quando ele pediu desculpas.

- Não peça desculpas se você não se arrepende do que fez...

Meneou negativamente. E ela não estava arrependida também, por isso ela não se desculpou ou o acusou. Apenas estava se afastando antes que cometesse uma loucura e fosse além do que deveria.

Quando ouviu a proposta dele, ela parou por um instante e o encarou com um pouco mais de atenção.

Os lábios estavam um pouco mais inchados por conta do beijo e o cabelo ligeiramente despenteado.

- Sim.

Disse como se isso realmente fosse verdade.

- O que aconteceu aqui, não se repetirá de novo. Romeo. Não pode.

O tom saiu um pouco mais firme e ela ergueu a cabeça de novo.

- Bom descanso, Romeo. Você está dispensado amanhã para que se recupere completamente. Não se preocupe...Boa noite.


Abriu a porta do quarto e saiu do mesmo, tomando o cuidado de fechar a porta antes de tomar os corredores e voltar até a Mansão.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

Mensagem por Romeo Campanaro em Seg Nov 23, 2015 4:53 pm

Foi como se o tempo não tivesse passado. Aquele abraço fez com que Benito se sentisse como o homem que fora há vinte e cinco anos, completamente apaixonado e disposto a alterar os rumos de sua vida por causa de uma Romazzini. O destino não permitiu que os dois colocassem em práticas seus planos, mas o sentimento ainda estava ali.

Como nos velhos tempos, Agostini deslizou seus braços pela cintura da antiga amante e a acomodou junto ao seu peito. O perfume de Antonella despertou tantas lembranças no mafioso que Benito fechou os olhos para apreciar melhor aquele cheiro que ficara impregnado em suas melhores memórias.

- Não precisa me agradecer, Ella. Eu que sou grato pelo presente que me deu. Nosso bambino foi o que de melhor já aconteceu na minha vida...

Mesmo sabendo que era uma jogada arriscada, Benito não foi capaz de se conter. Ele havia escondido a sua dor por mais de vinte e cinco anos. Mas agora, com Antonella novamente em seus braços, era impossível fingir indiferença. Ele ainda a amava perdidamente e Antonella precisava saber disso.

Benito dispensou as palavras e decidiu passar aquele recado de maneira ainda mais direta. Ainda com a ex-amante em seus braços, Agostini afastou o rosto apenas o bastante para encará-la.

Os dois trocaram um breve, mas intenso olhar antes que o mafioso tomasse a iniciativa de unir seus lábios aos dela.

Agostini não era mais um jovem no auge de sua energia, mas a maneira sedenta como ele tomou os lábios de Antonella deixava claro que a paixão ainda tinha o poder se esquentar o sangue do mafioso.

(...)

Nem por um momento, Romeo tentou impedir que Isadora “fugisse” de seus aposentos. O segurança já havia ultrapassado todos os limites naquela noite e derrubar mais barreiras poderia ser um erro imperdoável.

Isadora era uma moça doce que precisava de tempo para absorver aquela novidade. Mais do que isso, a garota precisava de tempo para concluir que era tolice continuar fugindo.

A harmonia perfeita daquele beijo deu a Campanaro a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, Isadora cairia novamente em seus braços, desejando mais uma amostra de como eles ficavam perfeitos juntos.

Naquela noite, quando voltou para a cama, Romeo exibia um sorriso vitorioso nos lábios. É claro que era agradável a ideia de estar causando mais aquele abalo na família Romazzini, mas Campanaro mentiria se dissesse que seu envolvimento com Isadora fazia parte do plano.

Definitivamente, o segurança não se sentia imune aos encantos de Isadora Romazzini.
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Re: Capítulo 2 - Território inimigo

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