Capítulo 5 - Alianças improváveis

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Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Sab Dez 26, 2015 7:08 pm

Como de costume, Lorenzo Romazzini estava em seu escritório naquela tarde. Depois de uma pesada reunião no período da manhã, o mafioso aproveitava a tarde para colocar alguns papeis em ordem. Seu planejamento era terminar o trabalho e retornar para casa mais cedo naquele dia. Com Romeo ainda no hospital, Lorenzo sentia-se inquieto. Sua relação com Isadora estava estremecida desde a revelação da verdade há alguns dias, mas nem por isso o pai pretendia se descuidar com a proteção de sua menina.

Aqueles planos, contudo, foram frustrados quando a secretária particular de Lorenzo se anunciou antes de entrar no escritório. A moça apertou uma mão na outra, visivelmente tensa, antes de tomar a palavra.

- Há alguém na recepção que deseja vê-lo, Sr. Romazzini.

Os olhos do mafioso se estreitaram e ele conferiu o relógio antes de resmungar, sem afastar a atenção dos documentos que revisava.

- Eu não atendo ninguém sem horário marcado. Você sabe disso, Marina.

Não era incomum que a agenda de Lorenzo estivesse cheia. O mafioso costumava receber todo o tipo de pessoas, desde homens de negócios até comerciantes mais simplórios interessados em pedir algum favor ao Don. Mas SEMPRE com horários previamente agendados.

- Eu sei, signor. Mas...

- Mas o que, Marina? – Lorenzo finalmente encarou a moça, com um semblante frio – É alguém da minha famiglia?

- Não, signor.

- É um dos meus velhos amigos?

- Definitivamente não, signor.

- Então por que está me importunando, Marina?

- Porque eu não sei como me livrar de Benito Agostini, signor.

Apenas a menção do nome do mafioso rival tornou o clima tão pesado que a secretária esfregou as mãos nos braços, sentindo um calafrio. Os olhos de Lorenzo se tornaram dois riscos ameaçadores e sua voz soou num sussurro perigoso.

- Agostini está aqui? No MEU prédio?

- Sim, signor. Ele e um segurança. Salvatore também está por perto e tentou se livrar deles, mas o Sr. Agostini deixou claro que só sairia se fosse dispensado pelo signor.

- Quanta audácia! – o punho de Lorenzo acertou a mesa com força – Como ele ousa aparecer AQUI?

- Eu vou dispensá-lo, signor.

Marina chegou a tocar a maçaneta para sair do escritório, mas a voz de Romazzini a deteve. O mafioso continuava irritado, mas a curiosidade começava a falar mais alto. O que havia levado Agostini ao seu território? É claro que Benito viera em paz, era muita tolice invadir as terras de um inimigo em busca de uma batalha.

- Eu autorizo a entrada dele. Apenas dele, Marina. Os seguranças podem esperar do lado de fora.

Os olhos da secretária se arregalaram e ela engoliu em seco, temendo por um tiroteio dentro e fora daquele escritório. Porque estava claro que Salvatore e Danila também tinham vários problemas a serem resolvidos.

Apesar do receio, Marina transmitiu as ordens do patrão e, em poucos minutos, introduziu Benito Agostini no escritório de Lorenzo. Os dois homens se encararam com frieza antes de abrirem idênticos sorrisos falsos. A secretária não acreditou no que estava vendo quando Romazzini se colocou de pé e saudou o inimigo com um abraço, que foi prontamente retribuído.

- Lamento aparecer sem avisar, Lorenzo. – a voz de Agostini soava anormalmente tranquila para a tensão do momento – Digamos que foi uma decisão repentina.

- Eu teria reservado o meu melhor vinho se soubesse sobre a sua visita, Benito. Imagino que não fará a desfeita de recusar uma bebida, não é?

- De forma alguma. Será um prazer.

Lorenzo encarou Marina, que demorou alguns segundos até reagir. A pobre secretária tremia de leve quando serviu duas taças com vinho e levou as bebidas até os dois mafiosos. Depois que Romazzini tomou o primeiro gole e descartou a possibilidade de haver um veneno misturado à bebida, Benito também experimentou o vinho.

Marina foi dispensada da sala com um gesto e saiu às pressas, mas não sem antes ver Lorenzo oferecer um de seus caros charutos ao seu pior inimigo.

Benito acendeu o charuto sem pressa e deu uma demorada tragada. O silêncio no escritório era quase sufocante quando Agostini finalmente tomou a palavra, com uma entonação tranquila, como se aquele realmente fosse um encontro de velhos amigos.

- Eu obviamente tomei conhecimento sobre o seu último revés. Lamento pelos seguranças. E espero que saiba que eu nada tenho a ver com tal infortúnio.

- Eu sei. – Lorenzo se tornou mais sombrio – Não estaríamos tendo esta conversa sem esta certeza, Benito.

Agostini deu mais uma tragada no charuto e encarou o rival com seriedade antes de explicar a sua presença naquele escritório.

- Temos as nossas diferenças, Lorenzo. Mas é inegável que conseguimos conviver de forma relativamente pacífica em Palermo. Eu não nutro nenhum apreço por você, mas admiro a maneira como você respeita o nosso código. Há um agradável balanço na maneira como você dita as ordens na ala sul da cidade enquanto eu dou a última palavra na ala norte. É claro que nós dois preferiríamos ter o controle da cidade toda, mas é inegável que atingimos um equilíbrio positivo para ambos os lados.

Benito fez uma pausa para que o inimigo digerisse aquelas palavras. Só depois, acrescentou com a mesma entonação.

- Por isso, este último ataque me preocupa. Claramente trata-se de alguém com um invejável poder bélico. E também é alguém que está querendo atingir apenas os Romazzini, visto que eu nunca sofri nenhum tipo de ataque desmotivado. Imagino que você já tenha ligado o último acontecimento à tragédia no iate, não? Porque, para mim, é óbvio que ambos são obra do mesmo autor.

A taça de vinho foi novamente levada aos lábios de Benito e ele tomou um gole generoso.

- Resumindo a situação, Lorenzo. Eu me sinto um tanto apreensivo com a possibilidade de trocar você por um inimigo desconhecido, que já mostrou desrespeito pelo nosso código. Desejo que este risco chegue ao fim antes mesmo que esta sujeira comece a respingar em mim. Por isso, proponho uma trégua e ofereço ajuda. Tudo para que Palermo continue sendo nossa.

A argumentação de Benito fazia sentido, mas a sua principal motivação para querer colocar um fim naquela situação era o amor. O líder dos Agostini não conseguia dormir sabendo que Antonella e Romeo eram potenciais alvos do inimigo oculto que tentava atingir os Romazzini.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Dom Dez 27, 2015 4:43 pm

A argumentação de Benito fazia sentido, mas existiam alguns pontos que ainda eram capazes de incomodar sobremaneira o Don dos De Lucca. Lorenzo ouviu com bastante paciência todas as informações transmitidas por Benito.

Concordava que eles formavam uma parceria e tanta na Sicilia. Eram os melhores no ramo, mesmo que às vezes entrassem em conflito mais grave. Verdade que na época dos pais deles e antes disso, a guerra era muito mais sangrenta. Mas desde que Lorenzo tinha assumido o controle e Antello criara raízes na politica, eles passaram a se respeitar um pouco mais. Num mundo tão informatizado, seria muito difícil se manter nas sombras se eles espalhassem sangue pelas ruas.

Mas mesmo assim...

- Eu concordo com as coisas que você diz, Benito. A verdade é que, apesar de nossas diferenças e da história de nossas famílias, eu acho que fazemos um trabalho melhor do que nossos ancestrais e nossa Guerra Fria traz pouquíssimos prejuízos. Mas...

Lorenzo apoiou os pulsos na frente e se inclinou um pouco.

- Como você bem diz, esse é um problema que atinge apenas a minha família. Por algum motivo, cuja explicação ainda me escapa, isso não alcança a sua.

- Você não está sugerindo que eu tenha alguma relação com isso.

- Não. Mas se você quer mesmo formar uma aliança temporária, não será pelas sombras.

- Como é?

- Se está tão inclinado em defender o seu inimigo contra o inimigo desconhecido, o seu nome também será exposto.

Benito tragou o charuto e soltou o ar lentamente. Logo ele começou a rir, meneando negativamente.

- Você quer que eu coloque um alvo na minha família também? Lorenzo, eu venho aqui oferecer uma ajuda, um apoio. Não acho que você esteja em posição de fazer exigências.

Lorenzo deu um sorriso e meneou negativamente.

- Você se engana, Benito. Eu não pedi pelo seu apoio e você não tem ideia do que estou planejando. É verdade que fui pego de surpresa, mas desde a tragédia do iate, eu venho me preparando pelo retorno deste inimigo desconhecido. É uma associação, na verdade. Não é mais como o nossa tradicional distribuição, eles são uma...Equipe mais complexa. Mas o fato é que tenho me preparado para eles e sei lidar.

Benito meneou negativamente, tragando outro tanto do charuto e suspirou.

- É uma pena que você não seja razoável, Lorenzo.

- Estou sendo razoável, Benito. Você vem até minha presença e oferece sua ajuda como se eu não fosse capaz de lidar com os problemas da minha família. Que tipo de Don eu seria se aceitasse me submeter ao meu maior rival? Ainda mais se fosse para receber ajuda por debaixo dos panos. Não. Você se expõe comigo e nós dois vamos nos ajudar.

Benito cerrou um pouco mais os olhos, encarando-o fixamente.

- Espero sua resposta até o baile anual do Prefeito.

- O mesmo de você, Lorenzo. Mas espero que você não tenha que sofrer na carne antes de perceber que meus termos foram mais do que razoáveis com você. E isso não é uma ameaça. Como disse, eu respeito nosso código. É só um conselho.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 5:48 am

- Isso é totalmente desnecessário! Eu me sinto ótimo!

- Foi o que você disse antes de ser encontrado seminu no bairro industrial, fugindo de abelhas imaginárias.

- Você nunca vai esquecer isso, não é, Salvatore?

- Nunca. Tenho o vídeo gravado para garantir que jamais vou esquecer nenhum detalhe.

O chefe dos seguranças soltou uma risada gostosa enquanto se lembrava do vídeo gravado durante o “resgate” de Campanaro. Diante daquelas circunstâncias nada comuns, foi muito fácil convencer a todos de que Romeo havia sido uma pobre vítima do efeito colateral de um analgésico forte. Nem mesmo Salvatore, com toda a sua astúcia, cogitava a hipótese do segurança ter fugido do hospital para resolver um problema pessoal com Benito Agostini.

- Isso é ridículo...

Romeo resmungou enquanto se sentava numa cadeira de rodas que o levaria para fora do prédio. O rapaz já estava livre da camisola do hospital e vestia roupas comuns naquela tarde. Aquelas semanas de internação tinham feito Campanaro perder alguns quilos, então a calça jeans que antes lhe servia perfeitamente precisou do auxílio de um cinto para ajustar melhor a cintura. A camiseta branca era simples, mas cumpria o papel de disfarçar a palidez do segurança. Romeo já estava em condições de receber alta, mas era óbvio que ainda precisava de alguns cuidados em casa.

- Você ganhou um mês de folga. – Salvatore comentou enquanto guiava o carro na direção do condomínio onde ficava a mansão dos Romazzini – Sugiro que programe uma viagem, passe alguns dias com sua mãe no interior.

- Não preciso de folga, Salvatore. Talvez uma semana, no máximo.

O chefe dos seguranças deu uma breve olhada para o lado, mas logo voltou a atenção para o trânsito. Por mais que quisesse manter a máscara de durão, Salvatore precisava admitir que admirava o novato. Qualquer outro jovem segurança estaria amedrontado e louco para fugir daquele emprego tão arriscado.

- Você quase morreu. Quase mesmo, foi por muito pouco.

- Mas não morri. Estou vivo e não quero perder mais tempo.

- Por que? – Salvatore foi direto ao ponto – Eu realmente queria entender por que você é tão dedicado à famiglia, Romeo. Você nos conhece há pouco tempo e já experimentou o que há de pior nas consequências de fazer parte deste grupo.

Aquela era uma pergunta complexa. Campanaro não sabia o que responder para si mesmo. Romeo não sabia mais se estava tão empenhado na missão dos Agostini, ou se era de Isadora que ele não queria se afastar. Em meio a toda a confusão, surgia Antonella. Romeo ainda a desprezava, mas era inegável que ficara mexido em finalmente conhecer a mãe biológica.

- Quando eu assumi este emprego, dei a minha palavra de que seria devotado aos Romazzini. E a famiglia tem sido leal comigo, Salvatore. Isso é algo inédito, algo que valorizo muito e não quero perder.

- Don Lorenzo insistiu nesta folga. Ele está com medo de você se assustar e desistir do emprego.

- Pois diga a ele que isso não está nos meus planos. Aceito uma semana de folga. Na próxima segunda, retornarei às minhas funções.

- Que seja. Você é tão teimoso quanto ele, deve ser por isso que se entendem.

Campanaro respondeu com um breve sorriso e voltou a atenção para a janela, admirando a paisagem que antecedia a chegada ao condomínio dos Romazzini.

Como de costume, o carro foi estacionado na lateral da casa e os seguranças entraram pela porta dos fundos. Romeo planejava comer alguma coisa qualquer antes de ir para o quarto, mas foi surpreendido por uma cozinha lotada.

A mesa estava repleta de delícias, sinal de que Felicia havia se esforçado bastante naquela manhã. Havia pelo menos três tipos de bolo, duas tortas, biscoitos doces e salgados, pães caseiros, sucos e várias garrafas com chás.

Além dos funcionários da casa, os patrões também estavam aglomerados na cozinha para recepcionarem o segurança. Todos estavam felizes pela recuperação de Romeo e gratos pelo rapaz ter se arriscado tanto pela famiglia.

- Eu não tive este banquete quando voltei do hospital! – Salvatore lançou um olhar enciumado à cozinheira.

- Como ousa? – Felicia estreitou os olhos para ele – Eu passei horas cozinhando naquele dia, seu ingrato! Da próxima vez deixarei que coma os restos do almoço!

- Não briguem! – Pietro abriu os braços, indicando a mesa – Ou então briguem depois de comermos, estamos perdendo tempo aqui! A barriga da gordinha está roncando tão alto que estou ficando constrangido por ela!
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Dez 31, 2015 8:39 am

Três semanas não foram o suficiente para que certas coisas fossem digeridas. Antonella ainda estava muito balançada com a forma como Romeo a tratara no hospital. Ela não sabia o que esperava, mas simplesmente não estava preparada para uma reação como aquela. Seu proprio filho a rejeitara, sem que ela pudesse explicar o porquê de ter feito aquilo.

Foi a condição para que ele continuasse vivo.

A mulher não voltou a incomodá-lo no quarto. Pelo menos não quando ele estava acordado. Todos os dias, ela o visitava no hospital, querendo conversar pessoalmente com o médico e tendo breves vislumbres dele. Mas não se aproximou, deu o espaço que ele queria.

Com Benito, as coisas também andavam estremecidas. O mafioso não ficou satisfeito por ter brigado com seu bambino, tampouco conseguia colocar toda a culpa em Antonella. Eles ficavam juntos, mas conversavam de menos. As palavras eram desnecessárias naquele momento. E, por isso, ele conseguia refletir e estava prestes a colocar seu orgulho em xeque apenas para proteger a familia que ele não pôde construir, mas desejava mais do que tudo.

Obviamente que a conversa com Lorenzo não terminou bem para nenhum dos dois lados, mas era certo que eles pensariam no assunto.

Dentre prós e contras, o que pesaria mais?

Com Isadora, a situação não era diferente.

A caçula dos Romazzini não tinha voltado a falar com sua família. E não era exagero dizer que ela não falava mesmo. Mal conseguia encará-los sem ver um mar de sangue em volta deles, por isso evitava ficar perto.

Passou a ficar mais tempo na faculdade e nos Centros Comunitários, onde era voluntária rotativa, ou seja, trabalhava em diversas áreas. Desde aulas de recreações e pinturas para crianças, até aula de artesanato para as mulheres, que poderiam ganhar uma renda extra porque algumas eram realmente talentosas. Passando por isso, ela também ajudava a lavar roupas e fazer comida.

Fez uma escala para visitar Romeo também. Ele sabia que havia algo errado, mas Isadora se recusava a falar o que era. Sempre o enrolava, dizendo que não queria pensar e preferia gastar os minutos com ele.

Romeo apenas respeitou porque ele também estava passando por algo semelhante. E não era a hora de conversar sobre isso.

Quando chegava em casa, Isadora ia direto para o quarto.

Aquela era a primeira vez que toda a familia se reunia de novo, até mesmo Enzo.

Mesmo que fosse um momento de confraternização, o clima ali era denso. Além da comida farta, Romeo também poderia notar que Isadora estava consideravelmente distante da familia. Não apenas afetiva, mas fisicamente também. Estava perto de Felicia, quase que na outra ponta.

E Antonella estava mais ao fundo, meio que atrás de Enzo. Como se estivesse dando espaço a Romeo.

Todos sorriram com a chegada do rapaz, mas Isadora lançou um olhar gelado e de desprezo ao irmão. Revirou os olhos e se aproximou de Romeo, abraçando-o na frente de todos.

- Seja bem-vindo, Romeo. É bom tê-lo de volta.

Usou um tom mais profissional e o abraço tinha sido um pouco menos intenso do que eles gostariam. Sorriu para ele e deu espaço para os outros.

Pietro chegou mais perto e o cumprimentou, como o camaradinha de sempre. Enzo e Lorenzo também foram calorosos. Já Antonella, ela lançava um olhar orgulhoso para ele, mas manteve os braços cruzados.

- Bem-vindo.

Disse num tom baixo e então se moveu, indo até a mesa para começar a ajudar a refeição. Isadora também tinha usado aquela esquiva. A convivencia entre as duas, que mais parecia de mãe e filha tinha dado hábitos semelhantes.

Elas estavam feridas e procuravam seu proprio espaço, escondendo-se em suas conchas.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 9:19 am

Depois de três semanas tendo que aturar a comida insossa do hospital, Romeo achou que havia chegado ao paraíso quando se sentou em frente ao banquete preparado por Felicia. Seria muito fácil recuperar os quilos perdidos se a cozinheira continuasse tão dedicada nos dias seguintes.

Era uma agradável surpresa ser recebido por todos, mas no fundo Campanaro sabia que era assim que funcionava a famiglia. Os Agostini também receberiam carinhosamente qualquer segurança que levasse um tiro para proteger Benito em um ataque.

O abraço de Isadora foi formal demais, mas Romeo sabia que os dois não podiam ir além disso diante de uma plateia tão grande. Pietro e Antonella já sabiam sobre o envolvimento do casal, mas Enzo e Lorenzo jamais imaginariam que Isadora e o segurança tinham ultrapassado as barreiras da relação profissional. Aliás, talvez nem mesmo Pietro e Antonella imaginassem que os dois já haviam ido tão longe naquele romance.

Mais uma vez, Campanaro ignorou completamente a presença da mãe. Era fácil não olhar na direção dela quando havia tantas pessoas rodeando-o. Ninguém pareceu notar que Romeo fazia aquilo propositalmente. Ninguém além de Antonella, é claro. A loira não tinha dúvidas de que estava sendo intencionalmente desprezada.

- Mais torta?

Felicia cortou mais um pedaço generoso da torta e o empurrou para o pratinho de Romeo antes mesmo que o segurança engolisse o último pedaço e pudesse responder.

- Você está magro demais, Romeo! Mas eu vou dar um jeito nisso!

- Você tem uma semana para me engordar antes que eu volte ao trabalho, Felicia.

- Uma semana? – a cozinheira estreitou os olhos e se virou para Lorenzo – O garoto leva um milhão de tiros pra salvar a sua pele e você vai dar UMA semana para que ele se recupere???

Felicia tinha seu espaço tão garantido naquela famiglia que realmente não tinha o menor receio de enfrentar o patrão. Chegava a ser engraçada a forma como Lorenzo parecia intimidado pela cozinheira. O chefe dos Romazzini foi salvo pelas explicações do segurança.

- Foi uma escolha minha, Felicia. Eu enlouqueceria se ficasse mais um mês sem fazer nada! Eu me sinto ótimo.

- Tem certeza? – Salvatore zombou – Nenhuma dorzinha? Talvez precise de mais uma dose de analgésico.

- CARA, VOCÊ PRECISA ME PASSAR O NOME DESSE REMÉDIO! – Pietro berrou com a boca cheia de farelos de biscoito – SÉRIO, FICARÍAMOS MILIONÁRIOS VENDENDO ESSA COISA NO MERCADO NEGRO!

- Pietro. – Enzo fuzilou o irmão com um olhar gelado – Menos.

Agora que Isadora sabia sobre os negócios ilegais da família, não havia mais sentido esconder nada da garota. Contudo, a forma fria como a menina tratava os irmãos e o pai indicava que Isadora ainda não estava preparada para lidar tão diretamente com a outra face dos Romazzini. Era clara a intenção de Enzo em continuar poupando a irmã.

Mas aquela fala de Pietro deu a Romeo a explicação que faltava para que ele entendesse o semblante mais carregado de Isadora nos últimos dias. Os Romazzini tinham finalmente aberto o jogo com a caçula. E o clima tenso entre eles mostrava que Isadora não reagira tão bem como a família gostaria.

Campanaro lançou um olhar mais preocupado à garota, mas não havia nenhuma chance de conversarem sobre aquilo no momento.

É claro que Isadora estava infeliz e decepcionada por saber que sua família não era o grande exemplo que ela sempre imaginara. Mas a verdade é que a caçula tinha demorado muito para se inteirar dos negócios dos Romazzini.

Por mais que não concordasse com as condutas da famiglia, ao menos agora Isadora conhecia os perigos que a rodeavam e compreenderia melhor as razões para aprender a se defender. E Romeo pretendia ajudá-la porque, independente de ser uma Romazzini, Isadora agora também era sua.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Dez 31, 2015 12:18 pm

Isadora estava comendo em silêncio, até que o assunto chamou atenção dela. Observou Romeo quando ele falou que só aguentaria ficar longe do trabalho por uma semana e sabia que era o principal motivo para tamanho esforço do rapaz. Deu um pequeno sorriso no canto dos lábios que sumiu completamente com o comentário de Pietro, piorando com a reação de Enzo.

- Oh, isso é por minha causa?

A jovem olhou de modo cínico e irônico para Enzo. O irmão mais velho - bem como quase toda a família - olhou para Isadora um pouco sem reação.

- Não seja por isso. Eu já terminei.

Limpou os lábios com o guardanapo.

- Com licença.

- Isadora. - Lorenzo disse um tom mais sério do que o normal, voltando aqueles olhos azuis gelados na direção de sua princesa.

A jovem lançou um olhar de desprezo para o pai, mas parou no meio do caminho para se levantar.

- Sim?

Esperou que ele dissesse o que queria, mas o olhar dela era tão cruel para com Lorenzo que o homem deu um longo suspiro e massageou a têmpora.

- Não saia dos limites da casa.

Respondeu com o resquicio de paciencia que ainda tinha. Isadora deu um sorriso falso, movendo a cabeça positivamente. Não tinha intenção de abandonar sua prisão domiciliar.

O clima ficou bastante silencioso e denso, mesmo depois que a jovem tinha deixado o lugar. Antonella deu um pesado suspiro e fechou os olhos.

- Eu vou falar com ela. - A loira levantou-se.

- Não vai adiantar, Ella. - Lorenzo respondeu meio cansado.

- Pelo menos vou tentar.

Deu um tapinha de leve no ombro do irmão e saiu pelo mesmo caminho da sobrinha. Lorenzo voltou o olhar para Romeo.

- Você deve estar sem entender, não é? Mas acho que você terá mais trabalho do que antes. Isadora está impossível e irredutivel. Quis dar um mês a você, para pensar em realocá-lo para outra função. Não sei nem se Isadora continuará na Sicilia. Aqui não faz bem a ela.

Nem a Lorenzo, na verdade. O patriarca fechou os olhos, massageando a tempora.

- Tenho pensado em mandá-la para Milão para continuar os estudos lá. Na verdade, vou conversar com Antonella se ela não quer essa tarefa também. Outra que anda meio esquisita. Às vezes, eu penso que meu avô tinha razão em não querer que as mulheres se metessem nos negócios da familia.

- Você realmente está cogitando isso, papà? - Pietro perguntou.

- Sim. Do jeito que as coisas estão, prefiro afastá-la daqui de novo. De vez. Por mais que isso me machuque...
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 12:39 pm

O estômago de Romeo afundou quando foi mencionada a hipótese de Isadora ser mandada para longe. Mesmo depois de tantos dias comendo mal, o segurança perdeu completamente o apetite com a simples ideia de não ter mais a caçula dos Romazzini por perto.

Por sorte, Campanaro tinha a desculpa de ainda estar indisposto para explicar a repentina falta de interesse com a comida. Felicia não se ofendeu ao ver o rapaz largando o segundo pedaço de torta pela metade. Ao contrário, ela pareceu preocupada já que conhecia bem o apetite voraz de Romeo.

Aos poucos, as pessoas foram se dispersando da cozinha. Os funcionários voltaram às suas respectivas funções e os Romazzini também tinham que trabalhar. Até mesmo Pietro mencionou que precisava resolver algumas pendências sérias da boate. Depois de várias semanas, parecia que os prejuízos finalmente começavam a assombrar o rapaz.

Depois de garantir a todos que estava bem, Romeo foi para o quarto alegando que queria cochilar um pouco. Contudo, sua cabeça fervilhava de tal forma que seria impossível relaxar e adormecer. Tudo o que ele queria era falar com Isadora, mas Antonella deveria estar com a sobrinha naquele momento.

O segurança fez uma careta ao pensar nessa possibilidade. Até nisso Antonella o irritava. Aliás, Romeo sentia uma implicância tão grande pela loira que até o som da respiração da mãe o incomodaria.

Sentindo-se enjaulado como um animal selvagem, Romeo começou a andar de um lado para o outro do quarto. De dois em dois minutos, o segurança conferia o relógio e se zangava pelos ponteiros que pareciam se arrastar.

Uma hora tinha se passado desde que a cozinha dos Romazzini se esvaziara quando Romeo concluiu que era seguro procurar por Isadora.

Com passos silenciosos, o rapaz se esgueirou para fora do quarto e chegou ao jardim dos fundos da casa. Por sorte, a janela do quarto de Isadora ficava bem escondida por uma das maiores árvores, de forma que os seguranças instalados nas entradas da casa não conseguiam ver Campanaro escalando uma das pilastras até chegar à sacada do quarto da garota.

Apesar do abatimento, Romeo fez tamanho esforço sem demonstrar cansaço. Na sacada, o segurança se aproximou lentamente da porta e esperou por alguns minutos, apenas para garantir que não daria de cara com Antonella se entrasse no quarto.

Só quando o silêncio deu a Romeo a certeza de que Isadora estava sozinha, ele abriu silenciosamente a porta e deslizou para dentro do quarto da menina, movido por saudades e pelo desespero de consertar as coisas antes que Lorenzo colocasse em prática a ideia de afastar Isadora dali.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Dez 31, 2015 1:29 pm

Antonella seguiu até o quarto da sobrinha, imaginando que seria a segunda vez que ela seria rejeitada. Quando ela bateu na porta, Isadora permitiu a entrada dela e apenas a encarou fixamente.

- Isa, eu sei que não é um momento fácil e imagino como você esteja se sentindo, mas...

- Você só pode imaginar mesmo, Antonella. Porque se você estivesse sentindo o mesmo que eu, não teria nem vindo perder seu tempo aqui.

Isadora usou um tom de voz tão frio com a tia que Antonella sentiu a nuca arrepiar.

- Eu sei que você está passando por uma decepção muito grande. Eu já estive no seu lugar, Isa. Anos atrás...

- E mesmo assim você permitiu que mentissem pra mim. VOCÊ mentiu pra mim. Mas sabe o que é pior? Essa não é a parte que mais me dói, porque eu sempre soube que vocês me super-protegiam desde o acidente no iate. O pior é saber que vocês são tudo aquilo que eu mais desprezo. Que EU faço parte daquilo que mais desprezo.

Os olhos de Antonella se encheram de lágrimas e ela passou a mão pelo rosto. Já Isadora, continuava com aquele olhar de repulsa para a tia, meneando negativamente.

- Eu mal consigo ficar no mesmo ambiente que vocês. Eu tenho nojo de vocês, todos vocês. Vergonha, não quero mais ser parte dessa familia. Não quero lembrar que vocês são minha familia.

Isadora recuou e deu a volta até a cama. Antonella segurava a lágrima.

- Sabe o que é ironico, Isa?

- Eu podia te dar uma lista, Antonella.

A loira sentiu outra bofetada por ser chamada pelo nome, daquela forma.

- O irônico é que você aprendue bem rápido os métodos da nossa familia: a crueldade. Suas palavras são mais potentes que um tiro, Isadora. Sua avó teria orgulho.

Isadora encarou a tia com as sobrancelhas franzidas e não entendeu bem porque a avó fora usada como exemplo. Mas a tia apenas deu um sorriso triste e deixou o quarto, fechando a porta.

A caçula dos Romazzini fechou os olhos com forças e tacou a luminária de cristal contra a parede, do outro lado do quarto. A peça se espatifou em mil pedaços, mas nenhum que chegasse a atingi-la.

Antes que alguém viesse importuná-la, ela trancou a porta e se encolheu na cama, fechando os olhos, tapando os ouvidos.

Quanto tempo Romeo demoraria até vir em seu socorro?

Não soube como suportou tanto tempo dentro daquele ambiente opressor. Levantou-se, uma hora depois e foi até a sacada. Recuou quando ouviu o barulho e respirou aliviada quando viu Romeo entrando pela porta de vidro.

Os ombros dela caíram, baixando completamente a guarda. Os olhos marejaram e ela eliminou a distancia, abraçando-o mais forte do que nunca.

Ela precisava muito daquele abraço. E de Romeo, como um todo.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 1:55 pm

Apesar do abraço forte de Isadora, Romeo sentiu o corpo relaxar. A simples proximidade da garota tinha o poder de tranquilizá-lo. Ali, nos braços dela, o segurança quase se esquecia da loucura que estava fazendo e do risco de perdê-la.

Inicialmente, Campanaro apenas retribuiu ao abraço com a mesma intensidade usada pela garota. Tudo o que Romeo precisava naquele primeiro momento era sentir o calor e o perfume do corpo de Isadora, era saber que ela ainda estava ao alcance de suas mãos.

A ideia de que os dois eram primos de primeiro grau eventualmente assombrava a mente de Romeo, mas ele se esforçava para esquecer este detalhe. Os dois já estavam envolvidos demais para que aquele elo de sangue conseguisse separá-los. É claro que Isadora também tinha o direito de conhecer a verdade, mas o rapaz não encontrava uma maneira de contar sem denunciar todo o plano dos Agostini.

Aliás, a atração que os unia era tão grande que Romeo duvidava que os dois tivessem seguido caminhos diferentes mesmo se fossem criados como primos desde a infância. Se fosse este o caso, certamente os dois teriam cometido aquele “pecado” ainda mais cedo, com um Romeo adolescente escalando a sacada do quarto da prima depois de uma ceia de Natal.

O beijo foi breve, mas cheio de saudade. Enquanto movia os lábios sobre os dela, Romeo andou pelo quarto empurrando Isadora delicadamente na direção da cama até que os joelhos dela se dobrassem e a morena caísse sentada sobre o colchão macio.

Se Isadora esperava pelo amante quente que conhecia tão bem, ficaria surpresa quando Romeo se agachou diante dela ao invés de “atacá-la” na cama. Os olhos azuis escuros a fitaram com alguma urgência e as mãos de Campanaro seguraram o rosto da garota com sua típica firmeza.

- Isadora... – Romeo sabia que desarmava a garota quando pronunciava o nome dela daquele jeito – Eu imagino que não esteja sendo fácil para você lidar com a verdade.

Apesar do pouco tempo de convivência, o segurança já conhecia bem a personalidade da caçula dos Romazzini. Isadora tinha o gênio difícil e era absurdamente orgulhosa e teimosa. Mas, acima de qualquer defeito, ela era uma pessoa bondosa e ingênua. Ela era o tipo de pessoa que jamais aceitaria fazer parte da máfia liderava por Lorenzo.

- Não faça esta cara. Nós precisamos conversar sobre isso. – Romeo foi direto ao assunto ao notar a expressão de desagrado da menina – Porque o seu atual comportamento vai nos separar, Isadora.

O segurança deixou que Isadora digerisse aquelas palavras antes de explicar, ainda com aquele semblante atormentado.

- Seu pai acabou de dizer que você não sabe lidar com a situação e que eu provavelmente ganharei outra função depois que ele te mandar para longe daqui. Eu não tenho escolha, mas você tem.

Romeo suspirou e aproveitou que seus dedos estavam segurando o rosto da menina para acariciá-la, deslizando os polegares sobre os traços perfeitos. Um dos dedos de Campanaro “desenhou” a curva do lábio superior de Isadora, roçando de leve nos dentes dentucinhos dela.

- Não estou pedindo que concorde ou que apoie isso. Só estou pedindo que recolha o seu exército e saia desta batalha dignamente, porque esta é uma guerra perdida. Você não vai mudar a realidade, Isadora. A única coisa que vai conseguir com isso é me afastar de você.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Dez 31, 2015 2:25 pm

Isadora se derreteu com os beijos que trocou com Romeo. O corpo dela recuou automaticamente, até que sentiu a cama e sentou-se. Esperava que Romeo continuasse com o beijo e deitasse sobre seu corpo, mas abriu os olhos quando percebeu que ele não faria nada disso.

Ao contrário, ele ajoelhou-se diante dela, do lado de fora da cama.

Ela sabia que era bastante séria e, provavelmente, já sabia qual era o tema daquela conversa. Seu coração acelerou quando ele a chamou daquela forma, mas a expressão ficou fechada com o tema.

Era impossivel se mostrar tranquila para um assunto tão delicado.

- Eu não...

Mas Romeo pediu para que ela não fizesse aquela cara. Os olhos azuis voltaram-se na direção dele e demonstraram real pavor com a possibilidade deles terminarem. Logo as lágrimas vieram. O queixo tremeu e ela começou a chorar.

- O que você está dizendo...?

Ele queria terminar com ela?

Mas logo as palavras seguintes a deixaram ainda mais chocada. As lágrimas vieram com mais intensidade e Isa curvou um pouco o corpo para a frente, abraçando Romeo e desabafando.

- Eu não consigo, Romeo. Eu não consigo encará-los sem sentir nojo, asco! Eles mentiram pra mim durante toda a minha vida e tem mais sangue nas mãos do que possamos imaginar. Eu tenho!

Afastou-se e o encarou.

- Todas as famílias que sofreram pela culpa da minha familia! Todo o dinheiro sujo...Eu não...consigo..suportar isso. - Soluçava como uma criança. - Aceitar que eles podem viver bem com isso!

Fechou os olhos, voltando a soluçar e chorar.

- Eu não consigo perdoá-los. Se eles querem me mandar embora, tanto melhor! Eu vou e depois sumo no mundo! E você deveria ir comigo também.

Isso pareceu tão lógico pra ela...

- Romeo...Vamos embora juntos!
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 2:56 pm

A proposta de Isadora foi recebida pelo rapaz com o mesmo impacto violento de uma das balas que o atingiram há algumas semanas. Era a última coisa que Romeo esperava ouvir da garota e, portanto, mesmo sendo bom com as palavras, o segurança ficou vários segundos sem resposta.

Fazia sentido. Se ele fosse um simples segurança, fazia todo o sentido do mundo abandonar tudo e fugir com Isadora para que construíssem uma vida longe da máfia. Mas Romeo não era um segurança. Ele estava ali como um espião dos Agostini e sabia que havia muito em jogo. Por mais que gostasse de Isadora, não era possível abandonar tudo por ela. Isa desprezava os feitos de sua famiglia, mas Romeo era devotado aos Agostini.

- Você sabe que as coisas não são tão simples assim, Isadora.

Passada a surpresa inicial, Romeo recuperou a voz e escolheu bem as palavras, como de costume.

- Você acha que seu papà aceitaria isso? Isadora, ele nos caçaria em cada canto do universo até nos encontrar. E nós dois pagaríamos muito caro por esta traição.

Antes que a garota contra argumentasse, Campanaro continuou seu discurso. Suas palavras soavam baixas, mas numa entonação séria.

- Eu estaria disposto a assumir este risco se tivesse a certeza de que apenas nós dois pagaríamos por este pecado. Mas não seria assim. Seu papà derramaria sangue inocente para nos encontrar. Ele iria atrás dos seus amigos, da minha família. Minha mãe, minha tia, meu velho avô... Seu papà não pensaria duas vezes antes de fazer mal a eles para me atingir. Eu não conseguiria viver com isso, Isadora. Nem mesmo as barreiras que construí na minha consciência me poupariam de enlouquecer com esta dor.

As mãos que continuavam no rosto de Isadora deslizaram suavemente até a nuca da garota, massageando-a por baixo dos fios castanhos.

- Eu não posso simplesmente fugir antes de garantir que eles ficarão seguros. Não estou pedindo que fiquemos para sempre nesta situação, eu só preciso de um tempo para organizar a minha vida e para poder tirá-los de cena, colocá-los longe do alcance dos Romazzini. Eles só tem a mim, Isadora.

Por mais que se esforçasse para não enganar Isadora ainda mais, Romeo via as mentiras se acumulando como uma bola de neve. Ele não podia contar quem era de verdade, e isso o obrigava a inventar uma vida que não existia para justificar as escolhas que Isadora não entendia.

O mais sensato era contar logo a verdade, mas Romeo sabia que era um péssimo momento para revelações. Isadora estava chocada com a própria família, é claro que enlouqueceria se soubesse que Romeo era um mafioso do grupo rival, filho de Antonella com um Agostini, infiltrado ali para espionar os Romazzini. Campanaro era tão sujo como os Romazzini, com o “acréscimo” de ser um espião traidor. Definitivamente, Isadora não ficaria grata e feliz por saber toda a verdade.

- Eu sei que seria um grande sacrifício para você, Isadora...

O coração de Romeo estava sinceramente comprimido com as lágrimas dela, mas o rapaz realmente achava que a verdade só pioraria a dor da garota. Com as pontas dos dedos, Campanaro limpou as lágrimas que manchavam o rosto delicado de Isadora e depois depositou um beijo nos lábios salgados.

- Mas eu preciso deste tempo para organizar a minha vida, para garantir que tudo ficará bem.

Os olhos azuis escuros se focaram nos dela com firmeza, mas a voz de Romeo falhou ao finalizar o discurso.

- Eu sei que estou pedindo demais e vou entender se você não puder suportar esta situação. São os seus princípios, afinal.

Sem piedade, Campanaro jogou aquela responsabilidade nos ombros da garota na esperança de que a personalidade de Isadora não fosse tão forte como ele imaginava.

- Você quer terminar comigo, Isadora?
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Dez 31, 2015 10:07 pm

O plano parecia tão lógico para Isadora que ela não esperava que Romeo demorasse tanto tempo para responder. As lágrimas ainda escorriam em abundancia pelo rosto dela e, eventualmente, ela também soluçava um pouco. Mas os olhos continuavam atentos no rosto de Romeo.

- Romeo...?

Ela o chamou num sussurro.

A verdade era que ela já sabia que a resposta dele seria negativa, por conta do silencio, da demora em dar uma resposta.

Sentiu-se ainda mais vulnerável por conta disso. Ele não queria ir embora com ela, sacrificar-se por ela, mas pedia para que ela se sacrificasse por ele. Fechou os olhos lentamente, tombando um pouco a cabeça para o lado. Apenas abriu os olhos de novo ao ouvir a voz dele.

- É simples, Romeo. Se você quiser, será simples...

Focou-se nele, mas logo o discurso sempre tão envolvente e eloquente a envolveu naquela rede de culpa e impotência.

Mal sabia ela que se tratava de uma rede de mentiras. Mais uma. Onde o centro da mesma era reservado apenas à Isadora, tendo seu nome trançado.

Isa tombou o corpo para a frente, escondendo o rosto com as duas mãos e deu um longo suspiro, meneando negativamente. Como podia ser tão egoísta? Pensando apenas no que seria melhor para eles - mas principalmente para ela - Isadora nem havia considerado os inocentes que seriam atingidos por aquilo.

Realmente, o amor deles beirava o impossível.

Romeo falava em sacrificios, de tempo.

Quanto tempo?

A vida inteira?

E se seu pai arranjasse um casamento para ela? Sim, porque recentemente ela também descobrira que seu pai fizera um acordo com a noiva de Enzo. Que seus próprios pais eram um acordo - que a história de amor só veio depois, quando se encontraram pela primeira vez. Mas eles se casariam mesmo se eles se odiassem.

Romeo queria esperar até que ela fosse vendida?

Isadora apenas meneava negativamente, soluçando por conta do choro.

Não era justo que Romeo jogasse o peso nas costas dela.

- É óbvio que não, Romeo! - Soluçou - Obvio que não desejo isso! Você é o amor da minha vida! Só eu sei o quanto sofri sem você nas últimas semanas.

Ela o encarou fixamente. Romeo a tocava e beijava há algum tempo, mas Isadora estava tão entregue à dor, que nem tinha percebido até então. Tocou o rosto dele, acariciando a barba por fazer, deslizando os dedos por aquele contorno tão perfeito que ela adorava.

- Mas eu não sei lidar com isso. É como se eu estivesse morrendo aos poucos, todos os dias. Meu coração está despedaçado...Como eu vou conseguir lidar com eles? Não consigo vê-los como antes. Não depois de tudo. Meu pai... - Engoliu em seco. - O Don De Lucca ergueu a mão pra mim, bateu no meu rosto porque eu desrespeitei na de frente de seus associados. Meu pai nunca tinha batido em mim, mas ele o fez. Eu não consigo respeitá-lo, eu não consigo amá-lo de novo.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Dez 31, 2015 10:46 pm

Numa tentativa desesperada de ignorar a própria culpa por tantas mentiras, Romeo tocou o rosto de Isadora e estendeu as carícias para a nuca e para os ombros dela. A garota ainda desabafava quando os lábios do segurança começaram a traçar uma trilha de beijos pelo pescoço delicado.

- Eu vou te ajudar a lidar com isso, Isadora. Eu estou bem aqui com você...

A voz de Campanaro soou num sussurro rouco enquanto ele deslizava a pontinha do nariz pela pele da menina, inebriado com o perfume suave que vinha de Isadora.

Embora estivesse totalmente envolvido pelo momento, Romeo foi arremessado de volta à realidade e arregalou os olhos diante daquela última confissão da morena. Os olhos arregalados foram se estreitando gradativamente até se tornarem dois riscos ameaçadores.

- Ele bateu em você? Ele ousou encostar em você, Isadora???

O sangue naturalmente quente de Romeo ferveu ao imaginar a cena. A mão pesada de Lorenzo no rosto delicado de Isadora era uma imagem capaz de enlouquecer o segurança. Romeo chegou a fazer menção de se levantar, mas a garota o agarrou firmemente pela camisa para evitar mais uma desgraça naquela casa.

- O que pensa que vai fazer, Romeo? Ficou louco!?

- Ele não tinha este direito!

- Está feito! E a última coisa que preciso é ver você levando mais um tiro! Eu preciso de você aqui, Romeo! Ao meu lado. Vivo!

O segurança ainda lutava contra o desejo de esganar Lorenzo, mas permitiu que as palavras racionais de Isadora o trouxessem de volta à sanidade.

A melhor maneira de solucionar o problema no momento era estar ali, realmente. Isadora precisava de consolo e seria uma afronta para Lorenzo tão grande quanto um soco que aquilo acontecesse mais uma vez sob o teto dele, há poucos metros de distância do quarto do mafioso.

Desta vez, Romeo seguiu o roteiro esperado para ele. Os olhos azuis encararam Isadora com intensidade antes que o segurança se inclinasse na direção dela. As pálpebras dos dois se fecharam exatamente no mesmo instante, milímetros antes dos lábios se unirem num beijo apaixonado, cheio de saudades.

Os braços de Isadora enlaçaram o rapaz pelo pescoço, puxando-o suavemente. Romeo se deixou levar e em poucos segundos os dois dividiam o mesmo espaço na cama macia da caçula dos Romazzini.

Nos braços dela, Campanaro não parecia nem um pouco abatido. Ao contrário, ele estava sedento e cheio de saudades depois das últimas semanas sem conseguir aprofundar as carícias. Suas mãos ansiosas não tiveram nenhuma dificuldade em arrancar as roupas da menina e atirar as peças para fora da cama.

Em poucos minutos, os dois estavam envolvidos em um gostoso amasso, aquecendo os corpos nas preliminares do espetáculo que estava por vir. Isadora usava apenas um delicado conjunto de calcinha e sutiã enquanto Romeo vestia somente uma boxer preta.

Os beijos eram carinhosos, mas também provocantes. As mãos deslizavam livremente pelos corpos um do outro e era notável que os dois ficavam mais íntimos e mais soltos a cada vez que repetiam aquela dança proibida.

Quando Campanaro ousou deslizar a pontinha da língua pelo contorno do sutiã rendado de Isadora, a garota perdeu o controle e cravou as unhas com força nas costas do segurança, deixando ali as marcas de arranhões superficiais. Romeo soltou um gemidinho, mas parecia ainda mais excitado quando encarou Isadora.

- Isso não se faz...

Um brilho malicioso surgiu nas íris escuras antes que Romeo acertasse o quadril da garota com um tapinha. Foi um contato suave e certamente não deixaria nenhuma marca, mas foi o bastante para aumentar o grau de excitação do momento.

- Só eu posso tocar em você, Isadora. Você é minha. Só minha.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Sex Jan 01, 2016 4:06 pm

As carícias de Romeo conseguiam levar Isadora para um verdadeiro abrigo. Pouco a pouco, a intensidade do choro diminuía e a jovem conseguia relaxar nos braços de seu amado.

Apesar de ter se arrependido um pouco de contar sobre o tapa que levara de seu pai, no fundo ela tinha gostado da reação dele. Demonstrava que Romeo se importava com ela e a protegeria de todos, até mesmo de seu pai.

O beijo não tardou em acontecer. Era um beijo um pouco mais intenso, que demonstrava as segundas intenções deles. Isadora recuou e começou a puxá-lo para a cama, para cima dela. Eles podiam se livrar das roupas ficando juntinhos. Isso nunca foi um problema para eles e, felizmente, a roupa de Isadora era bastante simples: apenas um vestido jeans de botão.

As carícias mais quentes começaram a tomar conta do momento. Isadora já estava completamente entregue ao segurança, mas não conseguiu se conter quando cravou as unhas nas costas dele.

Na verdade, os dois estavam completamente loucos.

A primeira vez deles foi uma questão de oportunidade e a casa estava completamente vazia! A segunda tinha sido na sala de Pietro e eles também tiveram certa privacidade.

Mas agora?!

A casa estava cheia e os dois simplesmente não se importavam. Eles se beijavam e rolavam de leve pela cama, gemiam baixo e não pensavam nas consequencias.

Sem controle nenhum sobre seus pensamentos, Isadora cravou as unhas nas costas de Romeo e recebeu aquele tapinha ardido. Ela abriu os lábios, numa expressão queera incrédula, mas também divertida.

O olhar dela tornou-se mais desafiador e ela fechou as pernas ao redor dele para virá-lo. Colocou-se bem em cima do quadril de Romeo, incitando e provocando. Mordeu o lábio inferior e curvou-se, beijando-o novamente.

As últimas peças saíram com a mesma facilidade que as primeiras. Os dois começaram a se amar de modo intenso, mas com sussurros e gemidos contidos. Isadora gastou generosos minutos beijando as cicatrizes dele e Romeo também apreciou as curvas dela.

Eles não tiveram nenhuma noção do tempo, mas também não foram incomodados.

O destino tinha sido bom com eles.

Isadora não foi perturbada por conta do humor dela e Romeo, pela recuperação.

Depois de fazerem amor e se esgotarem na cama dela, os dois ainda tiveram alguns instantes para ficarem abraçadinhos. As pernas estavam entrelaçadas, mas os dois estavam se encarando, um de frente para o outro.

O silêncio já dizia tudo para eles.

Não demorou para que Romeo a arrastasse mais para perto de si e encostasse a testa na dela.

- Você vai pensar no que eu disse, Isadora?

Perguntou baixinho, com a voz meio rouca.

- Vou...- Ela murmurou a resposta e o encarou bem de perto. Logo completou- Não quero me separar de você, Romeo. Nunca. Eu te amo...

Romeo sorriu, pegando a mão dela e beijando. Levou a mão até o rosto dela, encaixando com perfeição e trocou um longo beijo com ela. Um beijo para tirar o pouco fôlego que eles tinham.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Sab Jan 02, 2016 12:32 pm

Por mais que tentasse se convencer de que tudo continuava sob controle, Romeo sabia que, pela primeira vez na vida, havia perdido o comando de uma missão. O bastardo dos Agostini se orgulhava da própria racionalidade, mas havia perdido esta qualidade tão importante no momento em que aceitara a missão Romazzini.

Campanaro sempre fora inconsequente, mas as suas atitudes debaixo do nariz do pior inimigo dos Agostini beiravam a loucura. Ainda mais agora que Romeo se via incapaz de raciocinar, envolto numa rede de emoções que misturavam sua fidelidade a Benito ao amor que nutria por Isadora, à amizade sincera por Pietro, à mágoa por Antonella...

Mas já era tarde demais para voltar atrás. Havia muito em jogo e Romeo não pretendia recuar, não agora que já fora tão longe. O fato de Isadora desprezar as recentes descobertas sobre a família talvez fosse a salvação para o segurança. Tudo o que ele queria era que a garota não se sentisse pessoalmente ferida quando tudo aquilo acabasse.

Foi com este pensamento que Campanaro retornou ao trabalho, uma semana após a alta hospitalar. A ideia do segurança era apressar o fim daquela missão, dar a Benito alguma arma valiosa naquela guerra contra os Romazzini e abrir o jogo com Isadora.

Mas Romeo se esquecia de que ele não era a única peça que se movimentava naquele complexo jogo de xadrez. E, naquela tarde, uma jogada do adversário poderia atrapalhar em muito os planos de Campanaro para o futuro.

Era um sábado tranquilo e todos os Romazzini estavam em casa naquela tarde. Lorenzo estava no escritório, mas os demais membros da família estavam na sala. Enzo e a noiva tinham reunido a família para mostrar o convite do casamento, que havia sido entregue pela gráfica no dia anterior.

Embora Isadora ainda estivesse arredia com a família, a cunhada foi pessoalmente no quarto da garota para pedir que Isa também participasse daquele momento importante. Apenas para não estragar a felicidade da noiva, Isadora ocupou um dos assentos da sala.

- Ficou perfeito. – os olhos de Antonella brilhavam de emoção quando ela deslizou os dedos sobre o convite, sentindo o relevo das letras douradas – Eu não conseguiria apontar nenhum defeito, queridos. Está lindo, de um bom gosto incomparável.

- Se a tia Ella não consegue apontar defeitos é porque realmente está muito bom. – Pietro implicou, recebendo um olhar fulminante da loira – Mas nós amamos o seu perfeccionismo, tia!

- Eu não acredito que o Enzo vai mesmo se casar. – Antonella fungou – Parece que foi ontem que eu o carreguei no colo!

- Tia Ella? Oi? – Pietro riu e abraçou a tia, depositando um beijo no rosto dela – Enzo já tem trinta anos. E está enrolando a coitada da Giulia há quase dez!

- Eu fugi o quanto pude.

Enzo era sempre muito sério, mas se permitiu brincar naquela tarde. Giulia fingiu uma expressão indignada e acertou o braço dele com um tapa, mas os dois logo se desmancharam em sorrisos e trocaram um beijinho apaixonado.

- E o papà? – Pietro olhou a porta do escritório fechada – Ele não vem?

- Ele está resolvendo uma pendência. – Enzo voltou a ficar mais sério – Mas ele foi o primeiro a ver o convite e aprovou.

- Eu vou falar com ele. – Pietro se levantou do sofá.

- Pietro. Ele não está num bom dia.

- Relaxa, Enzo. Eu não posso mais conversar com o papà?

Embora achasse que aquela não era uma boa ideia, Enzo não teve argumentos para impedir que Pietro seguisse até o escritório. Lorenzo realmente estava com um humor péssimo por causa de alguns problemas nos negócios, mas sem dúvida era o comportamento de Isadora nos últimos dias que deixava o mafioso irritado e magoado.

Tentando ignorar os riscos, Enzo se esforçou para continuar comentando as novidades sobre o casamento. Giulia estava visivelmente feliz e ele não pretendia estragar o dia dela deixando-a de lado para se meter em mais uma briga de Pietro e Lorenzo.

Enquanto a noiva tagarelava sobre a decoração da igreja, os detalhes da festa e da viagem de lua-de-mel, Salvatore entrou na casa dos Romazzini acompanhado por Romeo. Os dois cumprimentaram formalmente a família, mas Campanaro foi além e arriscou uma piscadela para Isadora, que por sorte mais ninguém além da garota notou.

- Don Lorenzo não está sozinho? – Salvatore parou no meio do caminho ao escutar vozes no escritório – Ele nos chamou há alguns minutos...

- Pietro. – Enzo explicou, parecendo cansado – Espere só mais dois minutos, Salvatore. Papà vai se livrar rápido dele, eu aposto.

Os dois seguranças concordaram e esperavam do lado de fora do escritório quando as vozes no interior do cômodo começaram a ficar exaltadas. Inicialmente, parecia apenas mais uma das tantas brigas de Lorenzo com Pietro, mas logo os gritos começaram a ecoar por toda a casa.

- ...VERGONHA! VOCÊ NUNCA ME DEU ORGULHO! SUA MÃE TEVE SORTE DE PARTIR ANTES DE VER O TIPO DE HOMEM QUE VOCÊ SE TORNOU!

- O SENHOR NUNCA TEVE OLHOS PARA MIM! ENZO SEMPRE FOI O FILHO PERFEITO E ISADORA A SUA PRINCESA INTOCÁVEL! EU SEMPRE FUI UMA SOMBRA DISPENSÁVEL NESTA FAMÍLIA!

Ao perceber que a briga caminhava numa direção perigosa, Enzo se colocou de pé. A intenção do primogênito era colocar um fim naqueles desabafos antes que os dois dissessem algo que não poderiam consertar.

- SEUS IRMÃOS NUNCA ME DERAM MOTIVOS PARA ME ENVERGONHAR. JÁ VOCÊ, PIETRO! VOCÊ NÃO PARECE TER OUTRO OBJETIVO NESTA SUA MERDA DE VIDA!

- Tudo bem. – Enzo dispensou os seguranças com um gesto quando Salvatore fez menção de acompanhá-lo – Eu consigo lidar com isso, não se preocupe.

O primogênito dos Romazzini estava há poucos metros da porta do escritório quando a briga atingiu o seu auge.

- POIS EU PREFIRO SER A SUA VERGONHA DO QUE ME COMPORTAR COMO OS SEUS FILHOS PERFEITOS. ENZO É UM TOLO QUE SEGUE OS SEUS PASSOS SEM RACIOCINAR, UMA MARIONETE, UM FANTOCHE DAS SUAS VONTADES! E ISADORA... SE O SENHOR SOUBESSE METADE DO QUE A SUA FILHINHA FAZ POR BAIXO DA MÁSCARA DE BOA MENINA!

Os olhos de Romeo se arregalaram e ele lançou um olhar tenso para Isadora. Pietro estava há um passo de revelar o segredo da irmã quando Enzo abriu subitamente a porta do escritório. A entrada do primogênito coincidiu com o exato momento em que Lorenzo acertou uma cadeira com um chute e avançou na direção de Pietro.

Antonella saltou do sofá e correu na direção do escritório, mas não a tempo de evitar que Lorenzo acertasse o filho com um soco potente. Pietro, pego de surpresa, cambaleou para trás vários passos e levou uma das mãos ao rosto, que latejava pela pancada.

Cego pela raiva, Lorenzo avançou novamente na direção do filho e teria acertado Pietro novamente, mas o rapaz o surpreendeu quando arrancou uma arma do bolso e a apontou na direção do peito do mafioso. Antonella berrou horrorizada com aquela cena, mas por sorte a desgraça não caiu novamente sobre a casa dos Romazzini.

Enzo se meteu na frente do pai, Salvatore e Romeo invadiram o escritório e o chefe dos seguranças desarmou Pietro com facilidade. Romeo agarrou os braços do rapaz para trás e o arrastou para fora do cômodo.

O segurança só falou quando os dois já estavam na área externa da casa. Romeo jogou Pietro contra uma das paredes e o manteve preso a ela com as mãos firmemente apoiadas nos ombros de Romazzini.

- Você ficou louco? Você ficou COMPLETAMENTE louco? O que achou que estava fazendo quando apontou uma arma para seu papà???

- EU NÃO AGUENTO MAIS! EU CHEGUEI AO MEU LIMITE, ROMEO! ESTOU FARTO DE NUNCA TER NENHUM CRÉDITO NESTA FAMÍLIA!

Ao escutar passos, Romeo já esperava ver o rosto de Isadora. O segurança estava sério quando apontou a porta por onde a garota havia saído.

- Volte já para casa, Isadora! – Romeo soou anormalmente autoritário, embora sua intenção fosse apenas preservar Isadora de mais aquela tragédia.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Sab Jan 02, 2016 4:54 pm

Isadora tinha mudado um pouco seu comportamento, após a tarde que tinha passado com Romeo. Definitivamente, ela não queria ficar longe de seu amado e passaria por cima até mesmo de seu orgulho para isso. Não era uma tarefa fácil, até porque seus principios também estavam em xeque, mas ela não queria ir para longe da Sicilia.

E Romeo valia a pena.

Por mais torturante que fosse tentar passar um tempo maior com sua família, os momentos de intimidade com Romeo faziam qualquer esforço valer a pena. Eles tinham uma agenda bastante recheada: Isadora ia para a faculdade de manhã, almoçava em casa com quem estivesse disponivel, depois seguia para o centro comunitário - Romeo sabia que ela participava de três, intercalando os dias. Após os proprios compromissos, ela treinava por uma ou duas horas com Romeo no stand de tiro ou a defesa pessoal. Eles faziam progressos substanciais nas tarefas e óbvio que nas aulas de defesa pessoal, eles tiravam uma casquinha um do outro. Pelo menos era assim, antes que ele tirasse essa folga.

Como Romeo estava de "folga", Isadora estava por conta própria e decidiu burlar a segurança.

No meio da semana, ela mudou uma das tarefas. Com a desculpa de que ficaria na casa de Nina, ela dispensou o segurança e seguiu para o apartamento de Romeo. Naquela tarde, eles tiveram duas horas para aproveitarem o melhor de si. E foi mais do que eles teriam gastado num treino. Romeo levou Isadora até a casa de Nina de novo e todo o plano seguiu muito bem.

Obviamente que eles não podiam fazer isso sempre, mas foi uma escapadinha memorável.

Isa estava com as energias renovadas para encarar a família de novo. O comportamento dela respeitando a família e sendo mais sociável, afastou a ideia de Lorenzo, por um tempo.

Apesar de ser péssimo não ter a sua bambina de volta, já era reconfortante poder dialogar um pouco com Isadora. Além disso, ela não traiu a famiglia, nem contou os segredos a ninguém. Estava tendo uma rotina quase que militar e aos poucos parecia voltar para o seio da familia.

Ele sabia que apenas parecia.

Isadora tinha o mesmo temperamento dificil de Chiara, mas estava se esforçando.

Romeo podia ficar aliviado ao saber que seu cargo permanecia o mesmo. Aparentemente, seus esforços tinham rendido frutos.

A tarde parecia bastante agradável enquanto Giulia mostrava toda sorridente seu convite de casamento. Isadora estava verdadeiramente feliz por ela e Enzo. Eles namoravam há anos, desde pequenos. Giulia merecia um casamento dos sonhos e o dinheiro Romazzini e de sua propria familia poderiam proporcionar isso.

Não comentou nada quando Pietro saiu de cena para conversar com o pai, apenas observou, achando que era uma pessima ideia.

Na verdade, ela até se ajeitou, chegando a se levantar do sofá para servir uma bebida para si. Romeo chegou com Salvatore, deu uma piscadinha e ela apenas abaixou o olhar, dando aquele sorriso que ele tanto gostava.

O sorriso não durou nem meio segundo, porque os gritos começaram.

Ao contrário de Enzo, que parecia bastante calmo com aquilo, Isadora ficou um pouco assustada. Porque reconhecia na fúria de Pietro a mesma fúria que ela carregava dentro de si. Não pensou duas vezes antes de correr com o irmão até o escritório e ver o que estava acontecendo.

Ela chegou com Enzo, vendo o exato instante que ele apontava uma arma para o pai deles.

- PIETRO, NÃO!!!!!!!!!!

Ela berrou de uma só vez, mais alto do que o grito de horror de Antonella.

A confusão estava formada e Lorenzo parecia tão atordoado quanto os outros. Ele viu de relance quando Isadora seguiu Romeo e Pietro. Enzo tentava acalmá-lo, mas ele logo se soltou. Salvatore também tentou segurar o Don, mas ele se livrou do segurança até com certa facilidade - Ele não era o Don à toa. Tinha uma força intensa dentro de si.

- Lorenzo, o que você vai fazer?!

Antonella perguntou em desespero.

- O que tem de ser feito.

O Don respondeu com a voz rasgando. Não estava agindo como o pai amoroso e zeloso. Isadora tinha acabado de recuar e quando se deparou com aquele olhar, ela saiu da frente.

Lorenzo chegou até o jardim, depois que Romeo tinha conseguido controlar Pietro. Os olhos dele estavam em fúria.

- Salvatore, segure o Lorenzo!!!

Antonella gritou do lado de dentro. Todos pararam do lado de fora de novo, inclusive Isadora que parecia ver tudo em câmera lenta.

Lorenzo não estava se importando com as testemunhas, não podia deixar aquilo passar. Romeo ficou surpreso quando viu o Don ali. Pior ainda, quando o viu sacando a arma de dentro do elegante terno que ele usava.

- Pietro Romazzini.

Antonella estava em choque, mas os seguranças obedeciam apenas ao Don.

- Você ousou apontar a arma para o líder de sua famiglia, para o seu próprio pai.

Ele destravou a arma.

- Você é um traidor. E sabe qual é a consequencia disso.

A voz nem parecia de Lorenzo. Isadora começou a respirar com dificuldade.

- Não... - Ela sussurrou. - Ele não vai fazer isso...vai? - Falou baixo.

Mas ninguém respondeu e Pietro ergueu a cabeça, para morrer de modo digno. Isadora arregalou os olhos e antes que alguém a segurasse, ela correu até Lorenzo e se meteu na frente da arma, antes que ele puxasse o gatilho.

- PAPÀ!!!!!

Ela berrou para que ele a encarasse.

- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO!? PELO AMOR DE DEUS!!! É O SEU BAMBINO!!!

Lorenzo trincou o maxilar e olhou para Isadora. A garota estava com os olhos cheios de lágrimas. A sua garotinha estava chorando copiosamente.

- COMO O SENHOR É CAPAZ? É O PIETRO!!! MEU IRMÃO!!! POR FAVOR, NÃO SEJA O DON, PENSE COMO O MEU PAI!!! EU IMPLORO!!!

Levou as mãos trêmulas até a mão do pai, para que a abaixasse. Lorenzo ainda a encarava fixamente, a arma tão perto dela dava aflição. E estava destravada! Mas era a primeira vez em um mês que Isadora o chamava de pai de novo e demonstrava que amava a familia.

- Salvatore.

Salvatore deu um passo à frente, encarando-o.

- Eu quero esse indigente fora da minha casa. Diga a todos que Pietro e o empreendimento dele, qualquer que seja, não tem mais o apoio "De Lucca" e que ele não é mais um Romazzini. Você, garoto, arranje outro sobrenome. Se eu souber que está usando o nome da sua mãe, eu vou cumprir minha promessa e vou matá-lo. Você é ninguém, Pietro. E duvido que sobreviva muito tempo sem a minha proteção. Você tem dez minutos pra catar suas coisas e sair daqui.

Isadora continuava a frente do pai quando ele tocou o rosto dela para que ela o encarasse.

- E você, Isadora... - Ele a encarou fixamente. - Nunca mais ouse se meter na frente de uma arma destravada. Não ensinou nada a ela, Campanaro?

Olhou para Romeo.

E para Isadora de novo.

- Eu sinto muito, Don...Mas é o meu irmão... - Os olhos dela estavam voltados para baixo.

- Era. Você só tem um irmão, Isadora. O nome dele é Enzo.

Lorenzo se afastou da familia e retornou para casa.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Sab Jan 02, 2016 7:05 pm

- Ele vai reconsiderar. Ele só precisa de um tempo para esfriar a cabeça e...

- Ele não vai reconsiderar. – Pietro interrompeu o discurso de Enzo – E, mesmo que por um milagre ele reconsidere, agora sou eu que não quero mais fazer parte desta famiglia.

Pietro se afastou alguns passos, olhando para os rostos que se aglomeravam na varanda da casa. Com exceção de Lorenzo, o resto da família continuava ali. E foi na direção deles que Pietro virou o canhão daquela guerra. Agora que a bomba havia estourado, o rapaz não iria embora sem dizer tudo o que estava entalado em sua garganta há anos.

- Assim como ele, vocês nunca me deram valor. Eu nunca me senti apoiado nesta casa, nesta famiglia. Sempre fui encarado como alguém que não deve ser levado a sério.

Os olhos do rapaz pousaram em Antonella.

- Você nunca olhou para mim com o orgulho com que olha para o Enzo, com o carinho que demonstra pela Isadora. Você sempre me encarou como uma bomba que precisava ser desarmada para que a sua família não fosse atingida pelos meus erros. Eu nunca ouvi nenhum elogio da sua boca, Antonella. Sempre foram só críticas, conselhos, reprovações.

Aproveitando-se que a tia ficara sem reação diante da inédita frieza demonstrada por Pietro, o rapaz voltou os olhos para Enzo.

- Você sempre esteve muito confortável na sua posição de filho preferido para se preocupar comigo. Nunca se perguntou o quanto eu sofria com a maneira como o seu pai me tratava. Você nunca ofereceu ajuda quando eu comecei o meu próprio negócio. Talvez eu não tivesse fracassado tantas vezes se tivesse recebido conselhos de alguém com mais experiência comercial.

Por fim, o olhar gelado de Pietro pousou sobre a irmã caçula. Mesmo Isadora, que sempre fora a sua preferida, não escaparia do desabafo do irmão naquela tarde.

- Eu sempre te tratei como uma boneca, sempre fiz todas as suas vontades. Fui seu irmão, mas também fui seu amigo. Fui mais fiel a você do que à famiglia quando guardei seus segredos, quando te ajudei pensando unicamente em ver você feliz. Porque, no fim das contas, era só isso que me importava. Eu só queria ver você sorrindo. Mas você passou a me tratar como um vilão e ignorou todo o amor que eu sempre tive por você quando descobriu a verdade. Você pode não concordar com a maneira como nós ganhamos a vida, mas não tinha o direito de desprezar o amor que eu sentia por você, Isadora.

“Sentia”. Pietro usou o verbo no passado, como se realmente não amasse mais a irmã agora que fora expulso da famiglia.

- Diga ao seu pai que não quero nada dele. – Pietro se voltou novamente para Enzo – Não preciso de dez minutos porque não pretendo levar NADA desta casa.

O “nada” foi dito em uma entonação tão firme que deixava claro que Pietro não se referia apenas aos bens materiais. Quando deu as costas aos Romazzini e começou a marchar na direção dos portões, o rapaz pretendia deixar para trás todo o amor, o respeito e a fidelidade que sempre sentira por aquelas pessoas.

- Só por curiosidade...

A voz de Romeo soou às costas de Pietro no instante em que o rapaz alcançou o portão principal.

- Como você pretende sobreviver?

Antes que Pietro tivesse a chance de responder, Campanaro argumentou com uma entonação tranquila.

- A sua boate já afundou na lama. Nenhum parente vai te dar abrigo quando souber que Don Lorenzo te cortou da famiglia. E você vai descobrir que não tem amigos de verdade no instante em que todos perceberem que você está pobre e que não goza mais dos privilégios do sobrenome Romazzini.

- Isso não é da sua conta. Vá comer a vadia da minha irmã, é disso que você gosta, babaca.

Os olhos de Campanaro se estreitaram, mas o segurança se esforçou para não entrar na pilha de Pietro. Estava claro que o rapaz estava infeliz demais para controlar a própria língua.

- Você tem um amigo, é isso que eu quero que você enxergue, idiota. Você não merece, seu imbecil, mas eu gosto de você.

Com a desculpa de garantir que Pietro sairia da propriedade, o segurança atravessou o portão e seguiu os passos do rapaz pela calçada.

Apenas quando se afastaram da entrada da casa, Romeo retirou discretamente do bolso do paletó uma chave e a empurrou para as mãos de Pietro.

- Av. Massaglia, número 1240. Apartamento 702. – Romeo fez uma pausa antes de acrescentar – E se você se referir à Isadora assim novamente, não vou precisar de uma arma para desfigurar a sua cara.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Sab Jan 02, 2016 8:01 pm

O discurso de ódio de Pietro já era algo previsível, mas eles não imaginavam que ele fosse carregar tanta fúria e mágoa da família. Todos foram atingidos em cheio, feridos mortalmente pela forma como ele falou e a ingratidão que havia ali.

Todos os três tinham um ponto de vista completamente diferente e não imaginava que o rapaz via as cosias dessa forma.

No fim, restaram apenas as lágrimas:

De Antonella porque, pela terceira vez, era deixada de lado por um de seus "filhos."

De Isadora porque via certa razão no que ele dizia e se sentia amargamente arrependida pela forma com que tratara seu irmão.

De Giulia, por ver a família que amava e em breve faria parte, completamente destruída e desampara.

No entanto, as lágrimas mais surpreendentes eram as de Lorenzo. Ele morreria negando, mas, no fundo, se arrependeu da sentença no instante em que a prolatou. Era seu filho, seu inconsequente, imaturo, moleque e amado Pietro. Mas como ele podia perdoar tamanha audácia do rapaz?

Como ele pôde apontar uma arma para ele?

Lorenzo nem teve coragem de olhar para a imagem de Chiara. Os dez minutos que ele tinha dado para Pietro sair, também serviram para que ele fizesse suas malas. Precisava colocar a cabeça em ordem.

A família estava reunida na sala quando ouviram os passos de Lorenzo pela escada.

Coube à Antonella perguntar o óbvio.

- Para onde você está indo, Lorenzo?! - Os olhos dela estavam vermelhos e inchados por conta das lágrimas.

Os de Lorenzo estavam vermelhos pela raiva.

- Vou passar o fim de semana no interior. Enzo, não precisa se preocupar, ainda estou no comando e assumirei tudo de lá. Cuida da vinicola.

Disse rapidamente e logo saiu. Antonella seguiu o irmão, descendo rapidamente as escadas que o levavam até o estacionamento.

- Você está fugindo, Lorenzo!!

- Estou, Antonella. Estou porque acabei de enterrar um filho. Respeite o meu luto.

- Lorenzo, você não sabe o que está dizendo!! - Ela ficou extremamente ofendida. - Você não sabe o que é enterrar um filho!

- Você não sabe o que é ter um filho apontando uma arma pra você.

- É claro que sei!!!

Antonella respondeu no impulso, mas Lorenzo achou aquilo bastante estranho. Ela fechou os olhos, massageando a têmpora.

- Você acha que Isadora e Pietro também não partiram meu coração? Eles apontaram armas invisiveis para mim.

- Ele queria me matar, Antonella.

- Você também quis.

Lorenzo umedeceu os lábios e meneou negativamente.

- Vou para a casa de campo. Eu também tenho o direito de me isolar. E eu PRECISO colocar a cabeça em ordem para encontrar a associação que quer dizimar minha familia.

- Você está fazendo isso sozinho, Lorenzo.

- Você não sabe o que diz.

- Você não sabe o que faz.

Os dois se encararam por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade, mas logo Lorenzo cumpriu sua ameaça. Entrou no carro e partiu. Antonella fungou e secou as lágrimas.

Retornou para a casa, mas logo se deparou com Romeo.

- Romeo.

Ela o chamou baixo, mas como estava sem nenhuma paciencia, ela o chamou num tom autoritário.

- Campanaro. - Aproximou-se com os passos firmes e a cabeça erguida. - Para onde o Pietro foi? Eu vi que você foi atrás dele. Para onde?

E era a primeira vez que Romeo via a própria mãe olhá-lo daquela forma tão fria, distante e profissional.

Ela só estava dando o tratamento que ele queria, afinal.

Estava melhor assim?
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Sab Jan 02, 2016 8:36 pm

Uma das sobrancelhas de Romeo se ergueu quando Antonella o tratou daquela maneira tão impessoal. Por mais que aquele fosse o desejo do rapaz, Campanaro se sentiu incomodado com a mudança. Mas seu orgulho era grande demais para que Romeo desse o braço a torcer.

- Eu apenas acompanhei o rapaz para garantir que ele sairia da propriedade, conforme a ordem de Don Lorenzo.

Embora mentisse muito bem, Romeo não conseguia mais enganar a mãe. Antonella tinha uma vasta experiência com as expressões de Benito e sabia reconhecer os traços do pai em cada um dos detalhes do rosto do filho.

- Para onde o Pietro foi? – a pergunta foi repetida com firmeza.

O segurança manteve o olhar em Antonella por mais alguns segundos antes de simplesmente dar as costas e deixá-la falando sozinha. A loira rosnou de ódio, mas não tinha o que fazer. Não havia mais nem a possibilidade de reclamar com Lorenzo sobre o comportamento pouco polido do segurança.

Os dias seguintes passaram sem qualquer notícia sobre o paradeiro de Pietro. Ou melhor, apenas Enzo e Lorenzo não sabiam nada sobre o rapaz. Romeo obviamente contara a verdade para Isadora que, com piedade da tia, contou para Antonella que Pietro estava no apartamento de Romeo.

Aquele segredo deixou Antonella aliviada por um lado, mas preocupada pelo outro. Se Isadora sabia aquela informação, era porque ouvira dos lábios de Romeo. Estava ali a prova de que a loucura entre os dois ainda não tinha chegado ao fim.

- Isadora. Vocês não podem ficar juntos.

- Porque ele é um simples segurança? – a menina enfrentou a tia – Eu não me sinto especial por ter nascido numa família rica. Ainda mais sabendo a origem deste dinheiro.

- Isadora. – Antonella sentia vontade de gritar a verdade, mas limitou-se a encarar a sobrinha com firmeza – Eu amo você e quero o seu bem. Eu seria a primeira a te apoiar se você estivesse apaixonada por um rapaz bom e humilde. Mas não é este o caso.

Antes que a garota pudesse fugir daquela conversa – Antonella estava virando uma especialista em “filhos” que fugiam dela – a loira segurou o braço de Isadora e completou com uma entonação sombria.

- O Romeo está te usando, deixe de ser idiota! Ele não te ama, está só brincando com você! Quando tudo isso acabar, ele vai continuar com a vida dele e vai te deixar para trás, completamente devastada!

Doía falar aquilo do próprio filho, mas era uma verdade da qual Antonella não conseguia fugir. Seu bebê havia se transformado em um mafioso. Romeo era bom o bastante naquele jogo para vestir uma máscara de espião e enganar os Romazzini. Era fácil demais para um homem como ele seduzir e enganar uma garota inocente como Isadora.

Antonella não tinha coragem de denunciá-lo porque sabia que Lorenzo o mataria, e esta era uma culpa que a loira não suportaria carregar. Mas, nem por isso, Ella admirava o comportamento do filho. Aos olhos dela, Isadora era uma marionete que Romeo estava usando para atingir o seu objetivo de destruir aquela família.

- O Romeo não presta, Isadora. Se você não me der ouvidos agora, você vai sofrer DEMAIS! Escute-me enquanto ainda é tempo! Pare com isso antes que ele arrase com o seu coração! – Antonella segurou o rosto da sobrinha e obrigou Isadora a encará-la – O Romeo não te ama. Você está sendo ingênua se acredita no contrário! Ele não ama você!
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Dom Jan 03, 2016 9:52 am

- Por que a senhora está dizendo isso?

Isadora perguntou num tom baixo e ligeiramente rouco. Os olhos dela começaram a ficar marejados, mas não de tristeza. Romeo nunca lhe dera motivos para duvidar de seu amor e o discurso de Antonella dava a impressão que Isadora era uma garota ingenua e tola.

- A senhora acha que Romeo nunca seria capaz de me amar? Por que?

A morena deu um sorriso meio debochado e recuou, saindo do alcance de sua tia.

- Eu não quis dizer isso. Você é adorável, a criatura mais pura e doce que eu conheço, mas o Romeo...

- Chega, tia! - Isadora meneou negativamente. - A senhora não conhece o Romeo. E mesmo que eu lhe desse ouvidos, é tarde demais.

- Como assim, Isadora?

- Eu o amo. E não vou deixar de amá-lo apenas porque a senhora acha que ele não presta. O que aconteceu entre vocês? Você o adorava até bem pouco tempo, ia todos os dias ao hospital para ver como ele estava. Deu seu sangue por ele! O que ele te fez de tão mal?

Antonella engoliu em seco, levando a mão até o pescoço. Abaixou um pouco o olhar e meneou negativamente.

- Ele não é o que parece ser, Isadora. E você também não. Imaginei que você fosse dar mais crédito ao que sua tia diz ao invés de ouvir as burrices de um coração cego.

Isadora abriu o mais belo dos sorrisos e meneou negativamente.

- A minha família mentiu durante minha vida inteira. O meu coração foi cego por vocês. Mas por Romeo? Eu consigo ver exatamente quem ele é. Ele não mentiria pra mim. Não como vocês.

Antonella fechou os olhos e mordeu o lábio internamente.

- Isadora, você tem até o retorno do seu pai para terminar com isso.

- Ou...?

- Ou eu vou contar para ele sobre o envolvimento de vocês dois. E você já viu que seu pai não é o homem mais misericordioso do mundo.

Isadora parou, encarando a tia.

- A senhora está me ameaçando?

- É para o seu bem...

A jovem umedeceu os lábios e respirou fundo.

- Então não me restará alternativas além de contar sobre seu romance também, tia.

Antonella ficou sem reação. Quando foi que aquela garotinha tão pura tinha passado a pensar como alguém tão sórdido?

- Eu não quero fazer isso, tia. Mas você não me dá escolhas.

- Eu estou te dando uma, Isadora. Fique longe dele.

- Não. Não existem motivos para isso.

- Is...

- Não, tia. Não vou me afastar dele. Com licença.

Deu as costas e saiu do alcance de Antonella. A loira olhou para o próprio celular e não queria ter que usar daquele artificio, mas talvez Romeo ainda escutasse o próprio pai. Ligou para Benito.

- Precisamos conversar.

--

Isadora não demorou a encontrar - ou ser encontrada por - Romeo. Eles se encararam no jardim da mansão e não demorou para que ele a puxasse até a sauna feminina, que estava desligada.

Os dois começaram a se beijar e, aparentemente, tiveram a mesma ideia sobre o lugar.

Romeo começou a retirar o paletó, mas a conversa com Antonella ainda estava muito recente e ela precisava saber. Quando Romeo avançou sobre ela, beijando seu pescoço, ela o empurrou de leve.

- Não, Romeo...Romeo! - Ela o segurou pelo rosto. - Precisamos conversar...

A expressão séria dela era, no minimo, preocupante.

- O que está acontecendo entre você e tia Ella? Por que vocês estão se tratando desse jeito? Eu não entendo...Ela até deu o sangue dela para te salvar, ia todos os dias ao hospital para te ver, mas ao invés disso estreitar os laços de vocês, separou. O que houve e você não me contou?
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Dom Jan 03, 2016 10:24 am

- Nada.

Pela primeira vez, Romeo fraquejou e ficou evidente que ele estava mentindo para Isadora. Mas, no fim das contas, até isso contou um ponto a seu favor porque passou para a garota a falsa ideia de que ele não era bom com mentiras.

Ao notar que daquela vez a caçula dos Romazzini não engoliria tão facilmente a mentira, Romeo respirou fundo e recuou alguns passos. Tudo o que ele queria era aproveitar aqueles raros minutos de paz para beijar e tocar Isadora, mas estava claro que a menina não abriria mão daquela conversa séria.

- Não cabe a mim te contar nada, Isadora. É um segredo da sua tia, não meu. Aliás, eu já te conto muito mais do que deveria.

Não havia para onde fugir. Romeo não poderia contar a verdade, mas também sabia que Isadora ficaria chateada em saber que ele escondia um segredo dela. Simplesmente não havia uma forma de sair daquela situação delicada sem dizer nada à garota.

- Eu vou te contar. Mas vou confiar em você, Isadora. Você não pode contar isso para ninguém. Se esta informação chegar aos ouvidos do seu pai, ele não vai poupar a sua tia. E eu também serei castigado por saber disso e por ter ocultado esta importante verdade.

Definitivamente, Romeo era muito bom naquele jogo. Por mais arriscada que fosse aquela jogada, o segurança não precisou pensar demais numa maneira de reverter a situação ao seu favor.

- A sua tia tem um amante.

- Romeo! – as bochechas de Isadora coraram – Não diga isso. Ela é viúva e está livre para ter um relacionamento. Eu sei que ela tem um namorado.

- Um amante. – Romeo corrigiu a garota – É este o nome que se dá quando uma mulher tem um envolvimento com um homem casado.

Campanaro permitiu que a garota digerisse aquela informação antes de acrescentar.

- Eu descobri acidentalmente a identidade dele e fiquei chocado com o tamanho da traição da sua tia. Tentei conversar com ela para abrir seus olhos e para que ela colocasse um fim nesta loucura. Eu não queria ser a língua que levaria esta fofoca ao seu papà porque, como você mencionou, sua tia foi muito boa comigo durante a internação. Eu queria retribuir ao favor e poupá-la da fúria de Don Lorenzo.

O segurança se encostou numa das paredes da sauna e fechou os botões do paletó, algo desapontado por saber que Isadora preferia desperdiçar aquela oportunidade única em uma conversa séria.

- Mas a sua tia não quis me ouvir. Ao contrário, ela me ameaçou. Ela disse que, se eu ousasse falar qualquer coisa para o seu papà, ela contaria tudo sobre nós dois. Foi por isso que me calei e que perdi a admiração que sentia por ela. Mas eu me sinto péssimo porque, no fundo, estou traindo a famiglia ao esconder este grande segredo.

Uma pausa antecedeu a revelação bombástica. Aliás, nos últimos dias, Isadora estava colecionando revelações daquele nível.

- Sua tia Ella é amante de Benito Agostini.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Dom Jan 03, 2016 11:21 am

A porta da sauna foi aberta com uma certa agressividade. Isadora simplesmente saiu de lá, completamente sem fôlego e sem se importar se alguém veria aquilo ou não. Romeo saiu logo depois, muito mais precavido do que ela. Segurou a jovem pela mão, mas Isadora se soltou, por reflexo.

Virou-se para Romeo, com os olhos ainda arregalados e mais pálida do que antes.

- Não pode ser, Romeo. Você deve estar enganado. Não...pode...

Isadora puxou o ar com mais força e fechou os olhos. Romeo a amparou suavemente.

- Isadora! Acalme-se, por favor.

Ele começou a guiá-la até a parte da varanda, para que ela se sentasse num dos sofás. Sentou-se perto dela e os dois continuaram se encarando com bastante apreensão.

- Ela me disse que... - A voz de Isadora embargou. - Que era um namorado da juventude e ela o reencontrou recentemente. Pediu para que não contasse a meu pai, porque ele realmente é controlador, mas...

Engoliu em seco, coçando os olhos.

- É por isso? Mas...Isso quer dizer que eles já se conheciam antes.

Romeo fechou os olhos.

- Eles se reencontraram recentemente, Isadora...

Nem precisou instigar muito a memoria dela. Isadora logo arregalou os olhos.

- Naquele jantar. Meu Deus, Romeo! A minha familia...A minha família não cansa de me decepcionar! Como podem mentir tanto? E ainda me condenam por amar você. Eu me sentia culpada por mentir para eles, mas eles merecem! Eles merecem cada instante que eu passo com você!

Romeo ficou em silêncio, a observando.

- Eu só posso confiar em você, Romeo. Eu SÓ confio em você. Porque você nunca mentiria pra mim, não é? Ela pediu para que eu me afastasse de você, porque não podemos ficar juntos. Porque você vai magoar meu coração, mas eu sei que você não vai. Eu te conheço...

Acariciou o rosto dele, passando o polegar pelos lábios dele.

- Eu sei que você não mentiria pra mim...

Tombou na direção dele e o abraçou.

Era naqueles braços que ela se sentia segura e, acima de tudo, amada.
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Dom Jan 03, 2016 11:59 am

“Você nunca mentiria para mim.”

As palavras de Isadora ecoaram várias vezes na cabeça de Romeo, fazendo com que uma mão invisível apertasse sua garganta. O gosto amargo da culpa estava misturado à saliva do rapaz quando Romeo engoliu em seco.

Mentir era a especialidade de Campanaro, e infelizmente Isadora não estava livre daquele veneno. Romeo mentia para a garota sobre praticamente tudo. Isadora não sabia a verdade sobre quem ele era, sobre seus objetivos naquela casa, sobre seus pais, sobre os planos que Romeo traçava para o futuro. A única verdade completa de todo aquele relacionamento era o sentimento que o rapaz nutria por ela.

No começo, era apenas uma arrebatadora atração física. Isadora deixava Romeo louco com seu jeito de menina, suas curvas de mulher, sua inocência misturada ao gênio difícil dos Romazzini. E o fato de ser uma aproximação proibida só tornava tudo mais interessante. Romeo gostava de desafios e encarou Isadora como um obstáculo a ser vencido. Ele a queria para provar a si mesmo que era capaz de conquistá-la, que era capaz de arrastar para a cama a ingênua filha de Lorenzo Romazzini.

Mas em algum ponto daquele desafio, Romeo perdera por completo as rédeas da situação. O segurança conseguiu fazer com que Isadora se rendesse ao seu charme, mas em compensação também caiu de quatro pela garota. Isadora Romazzini deixara de ser apenas uma aventura para se tornar a primeira mulher capaz de fazer o coração de Campanaro se acelerar com um simples sorriso.

Era amor. Começou como uma brincadeira, como uma atração puramente física, como um desafio a ser cumprido. Mas o jeito adorável de Isadora e a forma pura como ela o amava despertou em Romeo aquele sentimento que, até então, ele imaginava não possuir.

- Eu amo você.

A declaração soou num sussurro firme e Romeo ousou segurar o rosto delicado de Isadora entre as duas mãos.

Era tarde demais para voltar atrás e consertar todas as mentiras. Ainda não era hora de jogar todas aquelas bombas sobre Isadora porque ela simplesmente não estava preparada para ouvir que Campanaro, que se tornara o seu porto seguro, era tão sujo e mentiroso como as outras pessoas que a decepcionaram.

Mas Isadora precisava saber que, pelo menos, o amor de Romeo era sincero. Ela precisava ter certeza de que, no meio daquela imundície de mentiras, brotara um sentimento puro e verdadeiro.

- Nunca duvide disso, Isadora. Você foi o melhor presente que a vida já me deu. Nunca duvide do quanto eu amo você.

Como era arriscado demais que os dois continuassem com aquela troca de carícias e declarações de amor na área externa da casa, Romeo manteve o abraço só por mais alguns segundos antes de se afastar de Isadora.

Os dois perceberam que o destino estava ao lado deles quando, poucos segundos depois, Salvatore apareceu na varanda chamando por Romeo. O segurança usou uma entonação formal para pedir licença para Isadora, mas se arriscou a lançar uma piscadela para a garota antes de seguir os passos de Salvatore.

Como sabia que Isadora ficaria péssima depois daquela revelação sobre a traição da tia, Romeo planejou mais uma escapada para o quarto da garota naquela noite. Tinha tudo para ser um encontro seguro, visto que Lorenzo estava viajando, Antonella dormiria fora da mansão, Pietro fora expulso de casa e Enzo andava ocupado demais com o trabalho e com os últimos detalhes do casamento.

Como de costume, Romeo escalou silenciosamente a janela e saltou para dentro do quarto da menina. Um sorriso malicioso iluminou os lábios do rapaz ao encontrar Isadora adormecida em meio à penumbra do quarto, firmemente abraçada à Margherita.

Isadora fez uma careta quando alguma coisa roçou seu nariz, mas continuou dormindo. Os olhos azuis só se abriram quando o toque se repetiu. Tão logo a visão da menina entrou em foco, Isadora viu a cabeça da sua girafinha de pelúcia tomando conta de todo o seu campo de visão.

- Acorde, mamãe. Você dorme muito, sabia? É o papai que te deixa assim, tão exausta?

A vozinha aguda que Romeo forçava enquanto sacudia a girafinha era bizarramente adorável.

- O papai é mesmo o máximo.

- Idiota ao máximo! – Isadora brincou antes de soltar uma gargalhada.

Romeo riu de forma mais contida e tentou calar Isadora com um beijo, mas já era tarde demais. O segurança se arrepiou e perdeu todas as cores quando alguém esmurrou a porta.

- Isadora! – era a voz de Enzo já girando a maçaneta, mas por sorte a porta estava trancada – Isadora, abra a porta! Um dos seguranças viu uma sombra na varanda, tem alguém na casa!
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Isadora Romazzini em Dom Jan 03, 2016 5:05 pm

Os dois trocaram uma risada e estavam aproximando os lábios quando Enzo quase os matou do coração. Isadora caiu de bruços na cama, mas logo se sentou. Olhou para a porta com o pânico crescente dentro de si.

- Dio Mio...E agora?

Falou baixinho para Romeo, quase que num sussurro.

- Isadora!!! ABRA ESSA PORTA!!!

Enzo estava desesperado do outro lado. Isadora teve que sair da cama, quase caindo no processo porque o lençol ficou enrolado em seu pé.

- Banheiro ou closet, você escolhe.

Murmurou, apontando as duas saídas. Romeo sentia o coração batendo na garganta. O barulho continuou, a tranca não ia aguentar por muito tempo.

- CALMA, ENZO!! VOCÊ QUER ME MATAR DO CORAÇÃO?

Destrancou a porta, demorando propositalmente, como se estivesse cheia de sono, mas era o tempo de Romeo se esconder. Ela viu que ele tinha ido para o closet. Quando abriu a porta, o irmão a encarou de modo intenso.

Era a cópia do pai. Sendo mais moderado do que Lorenzo. Segurou a irmã pelos ombros e a sacudiu.

- Você está bem?? Está ferida??

- Não, não! Eu to com dor de cabeça e assustada!!! O que está acontecendo?

- Um dos seguranças viu um vulto na sua varanda. Revistem tudo.

Indicou para que fizessem a limpeza.

- Mas eu posso garantir que não havia ninguém aqui! Isso é completamente desnecessário, Enzo!

Salvatore apareceu também, olhando meio tenso.

- Romeo não está nos aposentos dele.

- Como assim??

Enzo o encarou seriamente.

- Eu o liberei esta noite. - Isadora disse de modo apressado. - Eu não pretendia sair e ele quis aproveitar que um primo dele estava na cidade.

- Mande que ele volte, Salvatore.

- Não é necessário!! Eu o liberei!!!

Isadora se apressou em dizer. Enzo a encarou seriamente.

- Isso não está em discussão, Isadora. Quero o Romeo de volta para fazer guarda. Você ainda não entendeu os riscos que estamos correndo?

Ela cerrou os olhos.

- Eu entendo todos os riscos que estamos correndo, só quero saber porque tenho minha privacidade invadida por vocês, mesmo depois de dizer que NINGUÉM ENTROU AQUI!! Pode ter sido impressão do segurança. Quem foi?

- Foi o Matteo.

Salvatore respondeu de modo pensativo.

- Matteo?! Ele esqueceu a lente de novo? - Isadora perguntou num tom de deboche. - Francamente! Saiam do meu quarto!

- Não até terminarmos.

Enzo entrou no quarto também e seguiu até o closet. Isadora seguiu o irmão.

- NÃO! EU NÃO QUERO NINGUÉM VENDO MINHAS CALCINHAS!!! SAIAM DAQUI AGOORAA!!! Vão caçar o Romeo ou qualquer coisa do tipo, mas do meu quarto, CUIDO EU!
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Re: Capítulo 5 - Alianças improváveis

Mensagem por Romeo Campanaro em Dom Jan 03, 2016 6:53 pm

É claro que um segurança tão bem treinado quanto Salvatore não deixaria de fazer o seu trabalho porque Isadora estava com vergonha de mostrar as calcinhas. Ignorando por completo as reclamações da menina, Salvatore acendeu as luzes e começou a vasculhar o cômodo.

O segurança foi inicialmente até a varanda, depois abriu a porta do banheiro e também acendeu as luzes de lá, não encontrando nada anormal. Enquanto Enzo e Isadora discutiam, Salvatore se agachou para espiar debaixo da cama da menina e, por fim, começou a dar passos decididos na direção do closet.

- AS MINHAS CALCINHAS NÃO!

- Isadora, por favor! – Enzo já estava constrangido com o comportamento da irmã – Deixa o Salvatore fazer o trabalho dele! Ninguém aqui dá a mínima para as suas calcinhas!

O maior problema era que a única pessoa daquela casa que ligava para as calcinhas de Isadora estava exatamente dentro do armário.

Salvatore estava há um passo do closet e Romeo já esperava pela pior surra de toda a sua vida quando um grito agudo ecoou no corredor. Enzo e Salvatore trocaram um olhar tenso e o segurança chegou a sacar a arma, mas foi Antonella quem invadiu o quarto da sobrinha, correndo com um olhar desesperado.

- Tia! – Enzo a agarrou pelos ombros, aflito – O que houve!?

- Eu acabei de chegar! – Antonella apontou o corredor, trêmula – Um homem encapuzado passou por mim! Desceu as escadas, acho que foi na direção da cozinha!!!

- Fiquem aqui, tranquem as portas!

Salvatore destravou a arma enquanto corria para fora do quarto, seguido de perto por Enzo. O chefe usou o rádio para passar a informação para os demais seguranças enquanto Antonella obedecia às ordens dele e trancava a porta do quarto de Isadora. Com passos apressados, a loira também correu até a varanda e trancou a porta de vidro, depois fechou as cortinas.

Por um momento de insanidade – e talvez confuso devido ao baixo teor de oxigênio dentro do closet – Romeo chegou a acreditar que realmente havia um mascarado na casa.

Mas o olhar gelado que Antonella lançou à sobrinha daria à Isadora a certeza de que aquela era mais uma mentira. Desta vez, com o objetivo de salvar a pele dela e a de Romeo.

- Eu deveria ter deixado eles descobrirem, sabia!? Nenhum de vocês dois tem merecido esta ajuda! SAIA JÁ DESTE ARMÁRIO, ROMEO CAMPANARO!

Antes mesmo que o rapaz pudesse se mexer, Antonella abriu subitamente as portas do closet e o puxou para fora.

- DESDE. QUANDO. VOCÊ. INVADE. O. QUARTO. DELA? – cada palavra da loira era pontuada por um tapa nos braços, nas costas e no peito do filho – NÃO É A PRIMEIRA VEZ, NÃO É? É CLARO QUE NÃO!

- Se continuar gritando como uma louca, eles vão te escutar! – Romeo sussurrou e fuzilou a loira com o olhar.

- QUE ESCUTEM!

Antonella respirou fundo algumas vezes antes de se voltar para Isadora. A voz da tia soou aflita, mais aguda que o normal.

- Isa, por Dio! Me diga que você ainda é virgem! – antes mesmo que a garota respondesse, Antonella começou a chorar – Eu sou mesmo uma idiota por perguntar isso, é CLARO que você não é mais virgem! Que tragédia, Dios mio, que tragédia! O que o seu papà diria!?

Enquanto a loira protagonizava mais um de seus dramas italianos, Romeo afastou a cortina e espiou o jardim lá fora.

- O que vai fazer, Romeo??? – Antonella guinchou ao ver o rapaz abrindo a porta da varanda.

- Vou escapar enquanto a área está limpa. Depois você me conta o final desta cena, Antonella. Particularmente, eu nunca gostei muito deste tipo de novela. Ti amo, Isa.

O segurança piscou para Isadora antes de deslizar para a varanda. Em dois segundos, Romeo já estava no jardim e começou a caminhar tranquilamente, como se tivesse acabado de chegar do tal passeio que fizera naquela noite de folga. Antonella lançou um olhar indignado à Isadora antes de apontar para a varanda vazia.

- Está vendo? Está vendo como ele é ingrato comigo? Vocês dois partem o meu coração, Isadora!
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