Victorian Age

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Victorian Age

Mensagem por Jerome Krauss em Qui Mar 29, 2018 6:36 pm

Normalmente, o celular que tocava insistentemente costumava ser atendido no máximo ao segundo toque. Naquela tarde, contudo, o dono do aparelho já estava em outra ligação enquanto o celular vibrava em seu bolso e o toque – o famoso Sweet Child O’Mine – ecoava no elevador. Além do celular grudado em seu rosto e daquele que berrava em seu bolso, o empresário ainda possuía um terceiro aparelho dentro da pasta que carregava consigo naquele dia.

Aquela agitação era parte da rotina de Andrew Belmont. Embora ainda fosse muito jovem, o rapaz estava à frente de uma das empresas mais promissoras do país. A Belmont’s Motors havia nascido timidamente com o pai de Andrew, mas fora no “reinado” do filho que começara a receber investimentos e se tornara uma das maiores fornecedoras de motores de todo o Reino Unido. Nos últimos tempos, o nome da empresa já começava a ser citado até mesmo fora da Europa e, com a publicidade certa, era uma questão de tempo até que a Belmont’s se tornasse uma competidora de peso contra as principais rivais do ramo automobilístico.

Mas havia um árduo caminho de trabalho duro até que a empresa chegasse a aquele patamar. Depois da aposentadoria do pai, Andrew havia assumido integralmente a responsabilidade pelos negócios e a sua vida girava basicamente em torno de reuniões com os investidores e de negociações com os clientes.

Naquele fim de tarde, embora já estivesse trabalhando desde as primeiras horas da manhã, Andrew não tinha o seu apartamento como destino enquanto saía do prédio onde funcionava o escritório principal da empresa. Nas poucas horas que restavam para o fim daquele dia, na agenda do empresário ainda constava uma reunião com um fornecedor e um jantar com um importante cliente francês.

- Eu já disse que não quero mais aqueles cilindros. O último lote não passou nos nossos testes de qualidade, Max. Eu estou gastando uma grana com publicidade, mas será dinheiro jogado fora se colocarmos no mercado um produto de qualidade inferior. Não importa o valor, nós vamos reajustar os preços. Só não coloque aquelas porcarias nos meus motores! Preciso desligar, tenho outra chamada.

Com a agilidade de alguém que estava acostumado com aquela correria, Andrew enfiou o celular no bolso interno do paletó e puxou o segundo aparelho que vibrava no bolso da calça. Devido à insistência, Belmont já esperava ouvir aquela voz familiar no instante em que atendeu.

- Já são seis e meia, Andrew!

- É sério que eu te pago esta fortuna para você me dizer as horas, Rachel? Acho que ficaria mais barato te substituir por um relógio.

Enquanto resmungava com a secretária particular do outro lado da linha, Andrew saiu do prédio e alcançou a calçada. Naquele horário de pico, as ruas estavam abarrotadas e o empresário precisou se espremer entre os pedestres que circulavam de um lado para o outro.

- Até parece! Você não sobreviveria um dia sem mim! Você tem meia hora para atravessar a cidade. O Barrow não tolera atrasos.

- O trânsito está uma droga! – Andrew fez uma careta enquanto olhava os carros parados na principal avenida que dava acesso ao prédio – Vou correr até a rua lateral para fugir desta confusão e pegarei um táxi. Os documentos...?

- Já estão todos na sua pasta. – Rachel completou antes que o patrão terminasse a pergunta – Também carreguei seus celulares, liguei para o Derek para desmarcar o jogo de hoje, paguei os boletos e agendei a visita do encanador no seu apartamento para amanhã às sete.

- Eu não vivo sem você, Rach. – Andrew soltou uma risada gostosa enquanto se esgueirava entre os carros parados para atravessar a rua – Vou te dar um aumento.

- Hunf... eu escuto esta promessa há meses! Quando você finalmente... Andrew? O que foi isso? Andrew!!!

O discurso de Rachel foi interrompido por um ruído agudo de freada. Enquanto a secretária berrava do outro lado da linha, o celular estava caído no asfalto, há vários metros do corpo de Andrew Belmont.

Por estar tão concentrado no telefonema e em suas tarefas daquele dia, o empresário não notou que uma motocicleta se movimentava em alta velocidade em meio aos carros parados. O choque com o veículo atirou o corpo de Andrew vários metros adiante e a cabeça dele acertou a lataria de um dos veículos com violência. A última coisa de que Belmont se lembrava antes de perder a consciência foi de sentir a pior dor de toda a sua vida.

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A cabeça dele latejava insistentemente quando as pálpebras de Andrew se ergueram e os olhos castanhos arderam com a claridade. Os lábios do rapaz se contorceram em uma careta e ele se remexeu na cama, só então percebendo que o resto do seu corpo também estava dolorido.

As lembranças começaram a surgir aos poucos em meio àquela confusão. O atropelamento, o trauma grave na cabeça... Aquilo explicava as dores. Mas a confusão de Andrew se tornou ainda maior quando seus olhos finalmente se acostumaram com a claridade e ele percebeu que não estava exatamente onde imaginou que estaria.

Aquilo não parecia um hospital. Definitivamente não era um hospital. Não havia paredes brancas e o cheiro forte de medicamentos. Não havia um cateter de oxigênio em suas narinas, nem um acesso em suas veias. Não havia o “bip” dos monitores cardíacos e nem a movimentação de médicos e enfermeiros. Aquele era simplesmente um quarto comum.

Aliás, era um quarto simples demais para os padrões de um empresário de sucesso. O colchão sobre o qual Andrew estava deitado era molenga demais. Os travesseiros não pareciam tão novos e o lençol bordado era, no mínimo, muito ultrapassado. As paredes amareladas estavam decoradas com quadros antigos. Não havia um televisor, não havia aquecedor. E, para a enorme surpresa de Belmont, ele não encontrou sequer uma lâmpada quando olhou o teto.

- Mas o que...?

Enquanto ainda tentava entender o que estava havendo ali, Andrew deixou de ser a única pessoa naquele quarto. O queixo dele despencou quando a mulher empurrou a porta e abriu um largo sorriso ao ver os olhos dele abertos.

- Graças a Deus! FREEEEEEEEED! ELE ACORDOOOOU!

O grito ecoou dentro da mente de Andrew, fazendo o rapaz ter certeza de que estava totalmente desperto. A mulher, uma senhora de meia idade e com alguns quilinhos acima do peso ideal, aproximou-se dele com um semblante aliviado. A mãozinha enluvada tocou a testa de Belmont, empapada de suor, enquanto ela se sentava no canto da cama. O vestido dela, composto por uma saia volumosa de várias camadas, mais parecia uma fantasia saída de algum filme antigo. O penteado também era bizarro e ultrapassado, assim como os sapatos cobertos por cetim.

- Oh, querido! Você está bem?

- O que está acontecendo? – a voz de Andrew soou mais aguda, já beirando a histeria – Onde estou?

- Oh, meu Deus! FREEEEEEEEED! – a mulher novamente gritou na direção da porta aberta – FREEEEED, VENHA AQUI! ELE ESTÁ DELIRANDO!

Os gritos da mulher ainda ecoavam na cabeça de Belmont quando “Fred” entrou no quarto, cambaleando depois de subir as escadarias com passos rápidos. O homem tinha os cabelos grisalhos, vestia calças acinzentadas e suspensórios da mesma cor. A camisa branca amassada estava marcada pelo suor. O bigode era enorme, com as pontinhas encurvadas para cima e, assim como o resto da cena, parecia bizarro e retrógrado.

- Acalme-se, mulher! Não fique gritando assim! Ele bateu a cabeça com força, deve estar dolorido!

- Sim!!! – pela primeira vez, Andrew enxergou alguma lógica naquela situação – Eu bati a cabeça no acidente! Eu me lembro! O senhor estava lá?

- Eu estava logo atrás de você, meu filho! Vi quando o cavalo disparou e quando você caiu. Você desabou no chão e bateu a cabeça em uma pedra. Eu te carreguei de volta para casa e mandei o cocheiro buscar o Dr. Moore. Ele já deve estar chegando.

O fim do discurso do homem foi seguido por um silêncio prolongado. Andrew parecia em completo estado de choque enquanto olhava o casal a sua frente. Nada daquilo fazia sentido. Ele se lembrava perfeitamente de ter sido atropelado por uma motocicleta. O som da freada, a dor de bater a cabeça na lataria de um carro. Aquela história de cavalos não fazia o menor sentido, até porque Belmont detestava cavalgar. Ele fora atropelado e deveria estar num hospital e não ali, cercado por aquela gente esquisita.

Mas então a mente de Andrew finalmente digeriu o detalhe mais estranho de todo aquele discurso. O tal “Freeeeed” o chamara de “meu filho”. E, para terror de Belmont, ele realmente encontrou traços familiares naquele homem quando o encarou com mais atenção. Os dois tinham os olhos castanhos, naquele formato peculiar, com o olho esquerdo discretamente menor que o direito. O formato do nariz também era bem parecido, assim como o contorno dos lábios finos.

Ao olhar as próprias roupas, Belmont perdeu a voz. Ao invés do terno refinado que ele usava no dia do atropelamento, Andrew usava roupas parecidas com a do homem a sua frente. A calça escura era feita de tecido, mas tinha um corte diferente, completamente ultrapassado. A camisa branca de botões era parcialmente ocultada por um colete justo de cetim e nele havia um relógio de bolso pendurado por uma correntinha de ouro. A gola alta que quase o sufocava também destoava completamente de qualquer noção de moda.

- Que dia é hoje...? – Andrew temia pela resposta quando murmurou a pergunta.

A mulher e o homem trocaram um olhar preocupado antes de voltarem novamente a atenção para o rapaz. A resposta veio da mulher, que encarava Andrew com um semblante visivelmente angustiado.

- Domingo, querido. Você acabou de chegar de Londres e quis dar uma volta pela propriedade. Eu disse que era melhor descansar um pouco, mas você nunca foi muito obediente, não é? Está vendo, a sua mãe sabe das coisas! Você deveria me ouvir mais vezes, Jerome.

- Jerome...? O meu nome é Jerome???

- ALFREEED! FAÇA ALGUMA COISA, ELE NÃO ESTÁ BEM!

- Acalme-se, Adelaide! O Dr. Moore está a caminho, ele saberá o que fazer!

Embora não tivesse muita certeza de que o médico conseguiria reverter as consequências de um golpe tão forte na cabeça, Alfred tentou acalmar a mulher com um abraço enquanto Adelaide soluçava desesperadamente diante da “amnésia” do filho. O desespero de Andrew não permitiu que ele fosse solidário ao sofrimento daqueles pais, até porque ele ainda não entendia como aqueles dois haviam se “tornado” seus pais de uma hora para a outra.

- Escutem! Eu não sei o que está havendo, vocês estão me confundindo com alguém. Eu só quero ir para casa, ok? Liguem para a Rachel, minha secretária. Ela vai mandar um helicóptero me buscar aqui!

O casal fitou Andrew como se estivessem diante de uma pessoa completamente louca, como se nenhuma das palavras do rapaz fizesse sentido. Mais uma vez, então, Belmont fez aquela pergunta, desta vez de forma mais específica.

- Que dia é hoje? Em que ano estamos!?

- Dez de maio de 1844. – Alfred sacudiu a cabeça, extremamente angustiado – Filho, você precisa descansar. Você bateu a cabeça com muita força, é normal ficar confuso. Não fique assim tão agitado, querido. Logo o médico da família vai chegar e tudo vai se resolver.

Os olhos castanhos estavam cobertos por uma camada de lágrimas quando Andrew se afundou nos travesseiros. O quarto girava e o estômago dele se contorcia em meio ao desespero. Por mais que quisesse acreditar que tudo aquilo não passava de uma pegadinha de péssimo gosto, o cenário não fazia sentido. Ele realmente estava ferido, sua cabeça latejava e o sofrimento daquele casal parecia muito sincero. Ao que tudo indicava, ele realmente era o “Jerome” que caíra do cavalo naquela tarde, em 1844.
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