Capítulo Um - Nightfall

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Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Ter Fev 21, 2017 7:13 pm

Pinheiros e mata dos dois lados.

O caminho no meio, feito de asfalto colocando o toque humano onde antes era só natureza. Os riscos amarelos marcam o percurso. O quanto se correu – ou não correu.  

O sol sempre escondido por nuvens mais escuras, meio carregadas, mas que raramente tem se convertido em chuvas por aqui. Pelo menos para essa época do ano. É apenas a noite tomando posse antes da hora.  

Tudo o que tenho é o caminho, a música do Slikpnot no volume máximo, mas que não escapam graças à acústica dos fones caros do ebay.

E os olhos.

Sempre tem olhos.  

Eles trazem interpretações diferentes. Alguns parecem famintos, sedentos enquanto outros parecem necessitado de atenção, aceitação. Difícil explicar quando é apenas uma sensação. Eles me olham, mas eu nunca consigo vê-los.

Quase como se pudesse entender o que digo, Corey Taylor sussurra


"I push my fingers into my eyes..."




E meu sorriso é inevitável enquanto vou acelerando meus passos. É impossivel não reagir à essa música, mesmo que ela já tenha treze anos. Para alguém que viveu uma juventude gótica suave e rockeira como a minha, poucas são as lembranças que não envolvem "Duality".  

Verdade que foi uma fase e, com muitas aspas, ela """"passou"""". Mas eis aqui a prova que é impossível se conter.  

Infelizmente, não tem como aumentar o volume, apenas meus passos que vão acompanhando o ritmo da música. É o movimento que me desfoca dos olhares que cercam a a trilha de pinheiros e me lembra que, ao contrário do que às vezes pareça, estou viva. O meu peito está estufado com a quantidade de ar que preciso inspirar para que minhas pernas obedeçam aos comandos.
 
Em dado ponto, fica até a dúvida se corro pela musica ou se corro dos olhos.

É quase como se minha vida dependesse disso.

Da velocidade.

Da distância.  

De um escape da realidade...

Mas a realidade sempre puxa de volta e a música é bruscamente interrompida com o toque do celular. O som está tão alto que a música fofa que coloquei para o número dela me faz gritar de susto e pular no mesmo lugar.

E eu me esqueço que estava na esteira e capoto lindamente no chão, batendo na parede da sala de treinos da polícia...

Bela realidade...


- Merda!  

O xingamento sai entre os dentes quando a Detetive Swan toca no fone wifi e a música se transforma na voz de sua irmã, Sam.

- Alô, Sam? Hey...


Enquanto escuta as palavras da irmã, ela começa a massagear o lombo e as costas, regiões que tinha batido depois de cair da esteira. Felizmente a sala estava vazia àquela altura do campeonato. Já estava um pouco tarde para exercícios e os policiais que ficavam de plantão eram mais adeptos às rosquinhas e cafés do que esteiras e saco de pancadas.

Ou talvez não fosse tão bom assim, já que ela podia ter pedido um gelo ou coisa do tipo.

- Como assim eu esqueci? É claro que eu não esqueci!

Sam reivindicava seus direitos do 21º aniversário. Agora podia beber legalmente e queria uma noite histórica, para registrar no livro de sua vida! Porque agora ela era uma adulta de verdade, com responsabilidade. E como os céus a abençoavam, ainda era sexta-feira.

A vida noturna a chamava para festejar.

- É claro que não esqueci, eu estou me arrumando!  

Claro que tinha esquecido.

Não do aniversário de sua irmã, tanto que tinha preparado um café da manhã de rainha para a princesa da casa. Mas da festa...

Também, depois do que tinha encarado ao longo do dia, era dificil pensar em musicas modernas e bebidas. Ainda podia sentir o cheiro de sangue.

- Eu tô em casa. Minha casa. Você interrompeu meu banho.

Usava toda sua persuasão e força de vontade para se levantar. Desligou a esteira e pegou a toalha de rosto com o emblema da Policia de Eugene, no ombro.  

- Daqui a uma hora estarei aí. Sim, preciso de arrumar. Eu podia mentir e dizer que estaria em 20 minutos. A noite é uma criança, criança. Logo você perceberá isso...Tá bem. Eu te amo, aniversariante. Até...

Um longo suspiro foi dado seguido de outro berro porque a música voltou e ela não estava preparada para o grito - não mais sussurro – de Corey

"ALL I'VE GOT! ALL I'VE GOT IS INSANE"



- PORRA!!!

Uma hora e vinte minutos depois...


Eugene é a segunda maior cidade de Oregon. Não é enorme como Portland, mas ainda ganha da capital, Salem. Apesar de ser grande, é menos conhecida do que as duas citadas, mas tem seu charme.  

As noites podem não ser insanas como as de uma grande metrópole, mas sabe oferecer entretenimento o suficiente para seus habitantes. Jamais poderia ser considerada uma cidade do interior.  

Emily gostava de percorrer a cidade com sua moto. Era um modo individual de correr e muito mais divertido do que carros. Podia ter problemas, por conta das chuvas, mas ei! Não anda chovendo muito, não é mesmo?

A moto parou em frente à boate que Samantha havia reservado com antecedência para receber todos os seus convidados. Eram meia-irmãs, tinham pais diferentes, mas isso nunca importou. Emily sempre amou sua irmãzinha de modo incondicional, principalmente porque as duas simplesmente se aceitavam.

Havia um abismo de diferenças entre as duas, mas qualquer alegria, tristeza, problema ou sucesso era compartilhado com um pote de sorvete, panela de brigadeiro brasileiro ou pipoca com nutella. Pelo menos era assim enquanto as duas moravam na mesma casa. Há um ano, Emily tinha se mudado para um estúdio mais no centro e não se viam mais os 7 dias da semana. Talvez três, no máximo.  

Emily não deixou que ninguem tocasse em sua moto, procurando uma vaga, ela mesma. Depois de travá-la e tudo mais, seguiu com seu modelo que tentava se encaixar com a faixa etária de sua irmã, mas ainda tinha sua personalidade: calça comprida preta, botas de cano médio com detalhes em prata, blusa sobreposta e meio transparente e uma jaqueta vermelha. A maquiagem era um pouco escura e o cabelo tingido batia um pouco desfiado abaixo dos ombros.

Deixou o capacete no porta-volumes e entrou na festa.

Mandou uma mensagem pelo whatsapp da irmã informando que estava ali.

- É...cheguei...


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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Ter Fev 21, 2017 8:33 pm

A música alta dificultava qualquer tentativa de conversa, mas a grande verdade é que os jovens que se espremiam na boate lotada não tinham muito a dizer. Conversar era uma tolice quando havia tantas bandejas cheias de drinques circulando pelo salão, ou quando os corpos se expressavam muito melhor na pista de dança iluminada por luzes coloridas.

Aquela diversão era ainda melhor para um grupinho seleto de jovens. Todos os gastos dos convidados de Samantha Grimstone seriam pagos pelo Sr. Grimstone. Mais um dos tantos mimos que o maior empresário do ramo automotivo da região dava à única filha. A conta recheada de zeros poderia ser o terror de qualquer pai, mas para Grimstone era somente um trocado que ele ganhava com a venda de um ou dois carros.

Aquela festinha era só a ponta de um gigantesco iceberg de mimos. Embora nunca tivesse assumido nenhum relacionamento com a mãe de Samantha, o Sr. Grimstone recebera a filha em sua vida com os braços e o coração aberto. Sam sempre foi tratada como uma princesinha, estava acostumada a ter todos os seus desejos atendidos e a não precisar se preocupar com dinheiro. A garota tinha o nome dos melhores colégios em seu histórico, colecionava viagens nas férias, raramente repetia uma roupa de festa e agora, como presente de vinte e um anos, ganhara um apartamento na zona sul da cidade.

O fato do imóvel ainda não estar decorado e mobiliado era uma desculpa para atrasar a mudança, mas a verdade por trás desta decisão era que Samantha não sabia se estava pronta para morar sozinha. O pai sempre a mimara de forma exagerada, mas a mãe também havia contribuído para que Sam se tornasse uma menina dependente. Mas a caçula pretendia resolver aquele impasse de forma simples. A solução perfeita seria convencer Emily a morar com ela no novo apartamento, e Samantha estava disposta a insistir até que a primogênita fosse vencida pelo cansaço.

A festa era a oportunidade perfeita para aquela jogada e foi com um enorme sorriso de satisfação que Samantha encontrou a mensagem da irmã depois de sentir o celular vibrando em sua bolsa. Embora estivesse cercada por várias amigas e colegas da faculdade, a herdeira dos Grimstone sabia que sua festa não estaria completa enquanto a irmã não se juntasse a ela.

Dois drinques tinham sido o suficiente para que Samantha se sentisse mais solta e alegre, um pequeno inconveniente típico de uma menina que não estava habituada a beber demais. O riso meio ébrio foi exagerado, assim como a maneira súbita com que Sam se ergueu da mesa que dividia com alguns de seus convidados.


- Heeey? Onde vai, Sammy?

A pergunta veio de Dan Clarkson, um colega da faculdade que costumava rondar Samantha como um felino enjaulado diante de um bom pedaço de carne fresca. Dan tinha todas as qualidades necessárias para ganhar uma chance naquela noite, ainda mais levando-se em consideração o efeito que a bebida causava na aniversariante. Mas qualquer um que conhecesse Samantha de verdade notaria que ela não compartilhava o mesmo interesse do colega e, se rolasse alguma coisa, seria por exclusivamente por insistência dele.

- Já volto. Minha irmã chegou!

Como conhecia Emily o suficiente para saber que aquele ambiente poderia intimidá-la, Samantha fez questão de ir até a porta para impedir que a irmã mais velha fugisse. Tão logo avistou os cabelos loiros, o sorriso de Sam se alargou ainda mais e ela se atirou no pescoço de Emily, puxando-a para um abraço quase sufocante.

- Você é uma mentirosa! Aposto os meus vinte e um anos que você não estava em casa quando te liguei. Ninguém demora mais de uma hora para se enfiar numa calça. Mas eu te amo mesmo assim, Emy.

Naquele ponto do salão, a música não estava tão absurdamente alta e a distância da pista de dança era grande o bastante para permitir que aquela conversa acontecesse. Depois do abraço apertado, Samantha deu um passo para trás e girou o corpo em torno do próprio eixo para que a primogênita tivesse uma visão completa do visual escolhido para aquela noite especial.

- O que achou?


Não era preciso ser um especialista em moda para saber que Samantha não havia encontrado aquele macacão em uma loja de departamento. O caimento era perfeito, assim como a qualidade do tecido negro. O decote tornava a peça mais ousada, assim como as faixas de pele expostas na cintura delicada. A maquiagem leve não escondia os traços de menina, tampouco os cabelos longos que Samantha havia alisado para a festa. O sapato era cor de vinho e quebrava um pouco a seriedade do preto. Mas os saltos altos definitivamente não eram uma boa escolha para alguém que pretendia beber mais que o normal naquela noite.

- Ooooops!

A menina teve que se segurar nos ombros da irmã para se manter de pé depois daquela voltinha que fez a boate girar ao seu redor. Uma nova risadinha ébria escapou dos lábios da caçula e ela piscou um dos olhos castanhos para Emily enquanto sussurrava.

- Vinte e um anos, Emy! Agora eu posso parar de fingir que não bebo, a policial Swan não pode mais colocar as algemas em mim!

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Ter Fev 21, 2017 9:24 pm

O espelho refletiu a imagem de um homem jovem quando Maximilian Krauss parou diante da pia, o corpo coberto somente por uma toalha branca amarrada ao redor de sua cintura. Os cabelos castanhos eram levemente avermelhados, mas depois do banho adquiriam um tom mais escuro e pareciam mais lisos do que realmente eram, mas os cachos fatalmente começariam a surgir quando a umidade dos fios evaporasse.

Apesar do vapor espalhado por todo o banheiro, era possível notar que Krauss era um homem atraente. Qualquer um diria que seus músculos bem definidos e a barriga reta eram fruto de muito esforço em uma academia, mas a verdade era que aquele fora um presente “gratuito” de sua outra identidade.

Com uma das mãos, Max limpou o espelho embaçado e perdeu alguns poucos segundos olhando para o reflexo do próprio rosto. Os traços bonitos combinavam com seu porte atlético, com os ombros largos e a fisionomia jovem. Mas havia um detalhe de sua aparência que não combinava com a imagem perfeita que o espelho refletia. Seus olhos tinham um formato amendoado bonito e eram estreitos. Mas as íris profundamente vermelhas marcadas por pupilas em forma de fenda davam a Max um ar ameaçador e bizarro que não combinava com seus belos traços.

As íris tão vermelhas quanto sangue fresco fitaram Krauss pelo espelho até que o rapaz desviou o rosto e abriu uma das gavetas. Seus longos dedos tatearam o interior da gaveta ligeiramente bagunçada até encontrar o que desejavam. A embalagem onde Maximilian guardava as lentes de contato foi aberta e, em menos de dez segundos, o espelho do banheiro refletia um par de inocentes olhos azuis.

Embora morasse sozinho naquele pequeno apartamento localizado num bairro periférico de Eugene, Krauss só retirava as lentes para tomar banho ou para dormir. Era difícil prever quando um vizinho apareceria para pedir um favor, ou quando o porteiro subiria com alguma carta ou encomenda. O mais sensato era garantir a segurança daquele segredo, só assim Max continuaria tendo a paz tão necessária para lidar com aquela transformação e com as responsabilidades advindas dela.

A aparência de Krauss mostrava um homem jovem, certamente ninguém lhe daria mais que trinta anos, mesmo com a barba por fazer que lhe conferia um ar mais maduro. Mas sua postura firme e o olhar intenso refletiam uma segurança que não costumava existir nos outros rapazes desta idade. Era como se ele já tivesse nascido para ser um líder. Sua expressão madura refletia a longa experiência de vida que muitos anciãos morriam antes de experimentar. Quem olhava para ele, jamais imaginaria tudo o que Maximilian já tinha visto, todas as dores que havia sofrido, quantas pessoas tinha perdido, quão longo fora o caminho que ele percorrera até chegar a aquele apartamento e à vida “normal” que agora possuía.

Quando alguém bateu à porta do apartamento, Max já havia se vestido. A calça jeans surrada era confortável, assim como o casaco de moleton necessário para aquele clima sempre fechado de Eugene. Alguns cachos começavam a se enrolar nos cabelos ainda úmidos e os pés estavam descalços, mas o rapaz não parecia ligar para este detalhe quando abriu a porta. Graças aos seus instintos, ele já sabia quem estava do outro lado e não havia necessidade de formalidades com um velho amigo.

- Tem pizza?

- Oi pra você também, Jack. É sempre um prazer revê-lo.

Os dois amigos trocaram um riso cúmplice enquanto Jack entrava no apartamento com as mãos enfiadas no bolso do seu casaco. Como líder de uma pequena alcateia, Maximilian podia dizer que tinha bons amigos a quem confiaria a própria vida. Mas Jack era muito mais que um simples lobo que compunha o seu grupo. Eles eram como irmãos.

- Estou com fome, cara.

- Você sempre está com fome. – Max indicou a geladeira com um movimento de cabeça – Tem lasanha no congelador e um resto de torta de carne na geladeira.

- Valeu!

A cozinha era o primeiro cômodo do pequeno apartamento de Krauss. Somente uma bancada separava aquele espaço de uma sala, onde havia duas poltronas reclináveis diante de uma enorme televisão anexada à parede. Um rack abaixo da TV tinha uma invejável coleção de DVD’s de filmes e seriados. Na parede no fundo da sala havia duas portas. Atrás de uma delas ficava o quarto de Max e a outra dava acesso ao banheiro.

Era um apartamento muito pequeno, mas parecia ideal para um homem que morava sozinho. Maximilian levava uma vida discreta, não recebia muitas visitas e nunca recebera nenhum tipo de reclamação dos vizinhos. Nenhum dos moradores daquele prédio jamais imaginaria o perigo que existia por trás das falsas íris azuladas.

- E então...? – Krauss se encostou na bancada enquanto via o amigo enfiando um generoso pedaço de torta de carne no micro-ondas – Descobriu mais alguma coisa?

O assunto sério foi o bastante para fazer com que Jack se concentrasse naquela conversa e afastasse um pouco a atenção da comida. Mesmo com o cheiro gostoso que vinha do micro-ondas e se espalhava pelo apartamento, Jack não se dispersou.

- O Ted achou o solitário. – Jack sentou-se na pia antes de completar – Ele disse que o cara estava assustado, que atacou por sentir-se acuado e que prometeu que sairia da cidade e que isso nunca mais aconteceria. – o rapaz deu de ombros – O Ted disse que não temos que nos preocupar com ele, que é só um recém transformado que fez cagada. Nada demais.

- Infelizmente eu terei que discordar, Jack. Não enxergo o que aconteceu como “só” uma cagada de um lobo jovem. Ele atacou uma pessoa na nossa área. Quero que fiquem de olho para garantir que o tal solitário vai mesmo se mandar daqui.

Apesar daquela ser uma ordem clara, Max não soava autoritário. Ele era um líder nato que sabia que a fidelidade de sua alcateia deveria ser conquistada com respeito e não com ameaças e terror. A forma como Jack concordou prontamente com as palavras de Krauss indicava que para ele aquela posição de subordinado não era um problema. Era o seu papel naquela sociedade, afinal.

- E quanto à vítima? – Maximilian assumiu um semblante mais preocupado – Já identificaram?

- Não. Ele desapareceu, Max. Já vasculhamos todos os registros dos hospitais e não há nenhum sinal dele. Também não encontramos nenhum óbito suspeito. O Ted tentou arrancar alguma coisa do solitário, mas o cara disse que estava escuro, que tudo aconteceu muito rápido. Ele só soube dizer que era um homem jovem e que carregava uma mochila. Um estudante, talvez...

- Não é uma cidade tão grande... – uma ruguinha de preocupação surgiu entre os olhos falsamente azuis – Um cara não pode simplesmente desaparecer depois de ser atacado por um lobisomem. É o tipo de coisa que deixa rastros, Jack. E nós temos que encontrá-lo antes que mais alguma tragédia aconteça. Ele deve estar ferido e assustado. Isso vai torná-lo ainda mais perigoso durante a transformação.

Eugene não era uma metrópole, mas era uma cidade grande o bastante para dificultar a busca pela tal vítima. A única coisa que a alcateia sabia era que se tratava de um rapaz, provavelmente um estudante. Mas a grande quantidade de colégios espalhados pela cidade e a presença do campus de uma universidade não facilitava em nada o trabalho dos lobos. Era como procurar por uma agulha em um palheiro.

- Se ele tiver sobrevivido, logo saberemos. – o tom de Max se tornou mais sombrio e ele completou no exato instante em que o micro-ondas apitava – Só espero que a primeira notícia dele não venha associada a mais um ataque. Não é fácil limpar a sujeira de recém-transformados. Se mais alguma merda acontecer aqui, os caçadores vão surgir como pragas e teremos que partir. De novo.

Krauss sabia o quanto era difícil conter os instintos de um lobo transformado há pouco tempo. As habilidades surgiam rápido demais e de forma descontrolada. Era comum que os instintos mais selvagens aflorassem acima do controle racional do lobisomem. Não era raro que os recém-transformados machucassem seriamente seus amigos ou familiares ou até os matassem sem intenção.

Exatamente por isso, Max havia colocado toda a sua alcateia no rastro da vítima que fora atacada no beco sombrio. O objetivo dele era localizar o rapaz antes que a transformação se concretizasse para oferecer a ele apoio e um lugar na matilha.

Muitos lobisomens optavam por uma vida solitária e viviam como nômades – assim como aquele que protagonizara o ataque há alguns dias. Mas aqueles que tinham família, amigos e que queriam continuar vivendo em sociedade sabiam que precisavam do apoio e da proteção que só um verdadeiro Alpha como Max Krauss podia oferecer a sua alcateia.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Qua Fev 22, 2017 8:51 pm

- Você tem certeza disso?

Uma voz um pouco mais vacilante perguntou depois de estacionar o carro num estacionamento anexo à badalada boate de Eugene.

- Por que eu teria duvidas?

Um tom completamente oposto respondeu à pergunta com outra pergunta. Era uma mania um tanto quanto irritante de Cooper – o rapaz dos "Por que?"s, mas naquela noite, o melhor amigo parecia disposto a relevar essas atitudes dele.

Antes ele fosse o questionador de sempre do que aquela pessoa que estava diante dele. Parecia quase um estranho, parando pra pensar.

- Talvez porque você tenha sofrido uma série de lesões graves há cinco dias? E eu tive que varar uma madrugada inteira tentando te costurar, sendo que eu faço ENGENHARIA, MAS VOCE NÃO QUERIA IR PRO HOSPITAL?!

- Shhh, por que você está se exaltando? Eu já disse que estou ótimo. Para um engenheiro, você daria um excelente médico. Fora que você é asiático, ganha pontos por isso.

- Isso é o mais bizarro, Cooper. Os meus pontos nem devem ter sido certos e você vem me dizer que está curado? Como você está conseguindo andar, cara?

- Suplementos e vitaminas.

- Desde quando você toma isso?! Você nem visita a academia do campus! Olha esse braço! Como você conseguiu? Por que você não está entrevado numa cama?!

- Falando desse jeito, até parece que meu melhor amigo queria que eu estivesse morto. Que vergonha, Shen. Por que eu confio em você? Tsc...

Cooper abriu a porta do carro e saiu. O carro de Shen não chegava nem perto das máquinas que estavam estacionadas ali. Era um carro bastante popular, de 2015 e que estava no processo para ficar tunado como o rapaz gostaria. Porém, era estiloso.

Pelo menos, ele achava.

Tão logo Cooper saiu, Shen também saiu do carro, atropelando as pernas.

- Não é que eu não esteja feliz com isso. Mas caara, isso é muito bizarro. Por que você não quis ir para o hospital?

- Instinto. - Respondeu. - Não sei dizer, na verdade. Eu já estava me sentindo bem mesmo enquanto você me ajudava com os curativos.

- O mais bizarro foi você não ter desmaiado e ajudado no proprio procedimento. Sério que você está bem?

- Eu nunca estive melhor.

Cooper comentou enquanto tirava o óculos e analisava a lente e a vista sem os óculos. Franziu um pouco as sobrancelhas e jogou o óculos dentro do carro do amigo, andando tranquilamente sem o acessório.

Shen arregalou os olhos.

Como isso era possivel?

Cooper só podia estar de brincadeira! Ele tinha uma miopia alta, brincavam que ele era quase cego. E, mesmo assim, ele andava com a confiança de alguém que possuía visão de águia.

- Olha, eu sei que você ficou feliz com o convite que recebeu, mas você sabe que não foi só pra você, né? A Grimstone colocou o evento como público porque poderia pagar uma festa para o campus inteiro, se quisesse.

Shen continuava insistindo que não era uma boa ideia irem até lá, mas Cooper continuava sua caminhada em direção à entrada da boate.

- Uau. Você é mesmo um péssimo amigo. Primeiro fica questionando porque estou vivo e agora quer acabar com o meu ego. Eu sei que ela nem olha pra mim, mas me deixa aproveitar a noite, sim? Quase morri há cinco dias.

Cooper revirou os olhos e continuou sua caminhada. Shen sentiu o peso da culpa enquanto observava seu amigo. Respirou fundo, soltando o ar pela boca e continuou o caminho até alcançar Cooper.

Os dois eram amigos desde o primeiro semestre na Universidade. Eles dividiam o alojamento do campus, mesmo fazendo cursos diferentes e a amizade entre dois nerds e geeks aconteceu naturalmente. Três anos tinham se passado e eles continuavam mais unidos do que nunca.

Quando Cooper sofreu o acidente, Shen sentiu como se estivesse perdendo um irmão. Talvez isso tenha dado toda a força e a coragem necessária para que fizesse seu melhor e salvasse a vida de seu amigo.

Mas...

A verdade é que Cooper estava diferente.



Com exceção dos gostos e interesses, ele estava completamente diferente de antes. Parecia maior, mais forte, mais confiante e, bom, mesmo sendo heterossexual e tendo olhos puxados, Shen podia dizer que ele estava mais atraente. Por onde passava, ele parecia deixar um rastro que fazia meninas e meninos virarem a cabeça para encará-lo.

O que diabos tinha acontecido com ele depois daquela mordida?

Ele tinha sido mordido por um animal do sexo?

E por que diabos ele não tinha essa sorte?

O mundo era muito injusto!

Contudo, Cooper era quem melhor sabia o que estava acontecendo. A grande verdade é que ele estava ciente das mudanças. O problema é que tinha gostado delas. Sendo bem honesto, tinha gostado até da agressividade que veio depois da mordida. Ele não estava levando desaforos, estava se impondo, estava sendo visto, ouvido e obedecido.

O que podia ser errado nisso?

Só porque ele parecia ansioso por uma briga de verdade?

Que rapaz de 23 anos não passava por isso?

E que lugar melhor do que uma boate para experimentar essas coisas?

Quando parou na entrada do lugar, apresentou sua carteira de identidade e logo adentrou. A música tinha acabado de mudar. Cooper seguiu o caminho e as luzes ficaram um pouco azuladas enquanto o pessoal parecia se animar com a batida.


- Tudo bem...O que eu faço agora?

Resmungou para si e pigarreou.

- Cade o Shen?

Olhou ao redor e não enxergou o amigo. Respirou fundo e começou a andar na direção do bar. O caminho pareceu se abrir. Quase como se ele fosse um rei ou quiçá, um deus. Ele arqueou uma das sobrancelhas, mas manteve a postura.

Via uma ou outra menina resmungando e, pior, OUVIA mesmo com a musica alta.

" Quem é ele?"
"Eu nunca o vi antes. Deve ser novo na cidade e eu COM certeza quero conhecê-lo"
"Que gostoso"
"Lindo..."

Cooper abriu um sorriso no canto dos lábios e conseguiu alcançar o bar. Virou-se um pouco, observando o bar e viu quando Samantha foi correndo até a entrada para falar com uma mulher. Ao mesmo tempo, Shen entrava também um pouco atrasado. Era a desculpa perfeita.

No meio da pirueta de Samantha, Cooper passou por elas.


A luz vinha atrás dele, o iluminando. Ele olhou bem para os olhos de Samantha e deu um sorriso pretensioso enquanto ignorava a princesa e seguia até o amigo. Se chamasse a atenção dela, já era o bastante.


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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Qua Fev 22, 2017 9:12 pm

Emily estava completamente fora da sua zona de conforto, mas sempre tentava fazer o seu melhor pela irmã. Ensaiava sorrisos e expressões um pouco mais normais enquanto esperava por Samantha. Conhecendo a irmã, imaginava que só tivesse dez segundos.

Samantha tinha um faro quase de perito para encontrá-la, por maior que fosse a multidão.

Talvez fosse algum tipo de vantagem da conexão que elas tinham. Fato era que Emily queria ver sua Sammy feliz, mesmo que fosse dormir com uma tremenda enxaqueca e tivesse um plantão para fazer.

Ah, como mimava sua irmã!

- Heee...y?

Tombou um pouco a cabeça para o lado, deixando a animação de lado quando ouviu um "mentirosa!". Quase caiu com o puxão que recebeu, mas também a abraçou firmemente. Assim conseguia aplacar um pouco a braveza da irmãzinha.

- Não menti. Eu também moro no meu trabalho. Tenho até uma cama por lá, então, tecnicamente, eu estava na minha casa. Tomei banho lá e me arrumei. Você não deveria criticar meu look trevoso só porque agora é maior de idade. Posso prende-la por desacato!

Disse seriamente, mas logo deu uma boa risada com a irmã.


A risada foi farta e ela recuou um passo para analisar a irmã. Ela dava uma boa pirueta. O mundo pareceu ficar um pouco mais lento porque, neste instante, Emily sentiu um arrepio na nuca e não era dos bons. Um rapaz muito atraente passou pelas duas, mas ele não gerou nenhuma reação positiva por parte de Em.

Ela sentiu...medo?

Não tinha porque temer aquele menino, mas algo nele dizia que era perigoso!

E ele ainda ousou sorrir para sua irmã.

Emily cerrou as sobrancelhas, tomando uma postura um pouco mais séria e protetora, mas segurou a irmã antes mesmo que ela anunciasse o leve escorregão.

Reflexos, dizem.

- Ops

Repetiu e deu um meio sorriso para Sam.

- Você está maravilhosa, como sempre. Mas espero que aprenda logo que sempre é bom trazer um chinelo ou vir com um sapato confortável. Se bem que voce pode pagar por um massagista. Seus pés vão precisar disso amanhã.

Ajeitou o cabelo da irmã e ouviu as loucuras dela.

O problema foi que, por algum motivo, a voz dela saiu alta DEMAIS. E algumas pessoas mais proximas encararam as duas com olhares de reprovação e "hmmm lesbicas! Eu gosto". Emily arqueou uma das sobrancelhas.

- Olha, eu realmente pensei que você gostasse disso, sabe?

Colocou o cabelo dela atrás da orelha, de modo sedutor.

- E eu sei que você prefere a policial má...

Dizia quase sem conseguir segurar mais o riso. Até que converteu a cara sensual numa boa gargalhada.

- Você é terrível. Cade minha bebida? A musica é ruim, mas espero que a bebida seja boa!

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Qui Fev 23, 2017 10:46 am

Sua mente estava girando, lutando bravamente para encontrar novamente o foco, como se estivesse solta no universo e tentando se fixar em algum ponto sólido. Enquanto sua consciência aos poucos se recobrava, Maximilian Krauss se esforçava para lembrar o que havia acontecido. Ou melhor, o que estava acontecendo.

Um barulho constante de água foi a primeira coisa que seu cérebro foi capaz de processar. Estava chovendo lá fora, mas o ruído também vinha de dentro da casa. Estava tudo escuro, mas logo ele compreendeu que estava apenas de olhos fechados. Então, meio segundo antes de erguer as pálpebras, ele se lembrou.

Em uma avalanche de memórias, ele se lembrou de ter acordado no meio da noite por causa de um ruído estranho no quintal. Os traumas da guerra ainda não estavam cicatrizados e mil possibilidades sombrias fizeram Max sair do conforto de sua cama quente para averiguar o que estava havendo do lado de fora da pequena casa onde ele morava com a família. Depois disso tudo aconteceu muito rápido. Uma sombra, um uivo animalesco, um empurrão que o jogou violentamente no gramado e a mordida. No instante em que a lembrança da mordida voltou para sua mente lenta, a dor veio junto e ele arregalou os olhos. As íris, antes profundamente azuis, agora estavam tão amarelas quanto os olhos da criatura que o atacara naquela madrugada.

Com os olhos abertos, Max Krauss finalmente percebeu de onde vinha o ruído incessante da água. Ele não se lembrava de como havia chegado ali, mas se encontrava agora sentado na banheira, que estava tão cheia que a água transbordava para fora, fazendo uma bagunça no chão do banheiro. Todo o caminho de volta até a casa era um grande enigma para sua mente confusa, sua única certeza era que ele havia se arrastado até o banho gelado porque sentia sua pele queimar.

A temperatura do corpo de Maximilian ainda estava elevada e ele sentia um grande calor mesmo em contato com a água gelada da banheira, como se labaredas de fogo estivessem correndo junto com seu sangue nas veias.

O pijama manchado de sangue estava jogado no chão do banheiro. Os chinelos haviam sido retirados já dentro da banheira e estavam encharcados, boiando sobre a superfície da água manchada de vermelho.

Com o corpo trêmulo e dolorido, Max se arrastou até se colocar de pé e desligou o registro da torneira. Sem se importar se estava molhando o banheiro inteiro, ele cambaleou para fora e encarou o próprio reflexo no espelho. Estava extremamente pálido e claramente aterrorizado. Os olhos amarelos pareciam obra de um pesadelo bizarro, mas a dor era real demais para ser creditada a um sonho. Inclinando-se para o lado, Krauss deslizou os olhos pelo próprio tronco até encontrar a ferida pouco acima de sua cintura.

A aparência estava ainda mais assustadora. Grandes buracos se enfileiravam na marca perfeita de uma enorme boca. O sangue vermelho-escuro ainda estava vazando, se diluindo com a água de seu corpo. Qualquer um que olhasse aquele ferimento lhe mandaria direto ao hospital. Nem mesmo as lesões que Max sofrera durante a guerra tinham sido tão preocupantes. Mas o que ele diria quando os médicos fossem lhe examinar? Nem ele sabia o que havia acontecido. Havia sido atacado por uma sombra? Uma criatura selvagem de olhos amarelos.

Um flash surgiu em sua mente com o rosto perfeito da criatura. Estava escuro, mas por um segundo ele havia enxergado com perfeição. O rosto parecia de um homem, mas haviam costeletas que iam até seu maxilar. Os olhos definitivamente não eram humanos, de um amarelo quase cintilante. Mas o mais assustador era a lembrança dos dentes grandes e ameaçadores do predador. Ninguém jamais acreditaria naquela história. Nem ele acreditava.

Ainda sentindo o corpo queimar, Maximilian se arrastou para fora do banheiro. A ideia inicial era tomar um chá, fazer um curativo para que o ferimento parasse de sangrar e se render ao mal estar causado pela febre com algumas longas horas de sono. Mas a adrenalina não permitiu que Max colocasse aqueles planos em prática.

Quando chegou à sala e encontrou a porta escancarada, o coração de Krauss falhou uma batida. Ele estava tão imerso no próprio drama que não havia pensado na possibilidade de não ter sido a única vítima daquela madrugada. Mas o cheiro forte de sangue espalhado por toda a casa lhe deu a certeza que uma tragédia havia acontecido ali enquanto sua mente estava imersa em dor e alucinações.

Nem se vivesse um milhão de anos, Max se esqueceria da cena que ele encontrou quando empurrou a porta do quarto. Sua mente ainda guardava cada pequeno detalhe daquela desgraça como se o ataque tivesse acontecido no dia anterior. O cheiro de sangue era tão forte que ficara impregnado para sempre no olfato aguçado de Krauss. Mas nada era pior que a lembrança do olhar dela.

Mesmo fatiada por garras e dentes, ela ainda estava viva quando Maximilian entrou no quarto. Lágrimas grossas se misturavam ao sangue que manchava seu rosto desfigurado, mas ela ainda teve forças para erguer uma das mãos na direção da barriga. Seus dedos frágeis mergulharam no sangue quente e um soluço escapou pela garganta dela quando finalmente percebeu que tudo estava perdido. Os sapatinhos que ela havia tricotado com tanto amor não seriam mais necessários. Seu único consolo era saber que ela também não ficaria mais no mundo para lidar com aquela dor.

O olhar dela se encontrou com os olhos amarelos do marido por poucos segundos, mas Maximilian ainda se lembrava com perfeição da expressão de choque que iluminou o rosto dela antes que seu coração finalmente parasse de bater. A dor de perder a família foi tão lancinante que desencadeou a primeira transformação daquele novo lobo.

Como todo recém transformado, Max se viu dominado pela fúria e pela selvageria quando saiu da casa. Seus sentidos amplamente aflorados o guiaram no rastro da criatura que causara toda aquela tragédia e, naquela noite, Krauss voltou a matar. Desta vez sem usar armas, sem a desculpa de uma guerra. Naquela madrugada sem fim, Maximilian sentiu pela primeira vez um enorme prazer em tirar uma vida com suas próprias unhas e dentes afiados.


------

Muitas décadas tinham se passado, mas aquele mesmo sonho se repetia com uma dolorosa riqueza de detalhes. Max Krauss revivia num pesadelo a pior tragédia de sua vida quando aquelas cenas de horror foram interrompidas com o bizarro som de Heat of the moment, do Asia.


Os olhos se abriram lentamente e a mente de Max continuou meio sonolenta e atordoada por alguns segundos. Como havia pegado no sono com as lentes de contato, as íris do homem estavam azuis – diferente do tom amarelo que ele vira no sonho e do vermelho bizarro que ele veria se retirasse as lentes.


A música já entrava no auge do refrão quando Krauss rolou pelo colchão até pegar o celular sobre o seu criado-mudo. A tela acusava o horário totalmente inadequado – 1:44 AM – mas o número conhecido fez com que Maximilian não pensasse duas vezes antes de aceitar a chamada. Nenhum dos amigos ligaria àquela hora da madrugada se não fosse realmente importante.

- Fala, Ted.

A voz naturalmente grave do Alpha estava mais lenta e rouca que o normal, o que denunciava que Max não estava acordado quando o celular tocou. Apesar disso, não houve sequer um pedido de desculpas por parte do amigo.

- Você precisa vir pra cá agora, Max.

A voz de Ted soou abafada por uma música eletrônica alta, mas ainda assim era possível notar a entonação séria do rapaz. Como sabia que o amigo trabalhava como segurança em uma das boates mais badaladas de Eugene, Krauss não precisou fazer perguntas para entender de onde Ted estava falando.

- Ted, eu não tenho mais idade pra baladas. Trabalhei o dia todo naquele problema e estou exausto. Mas ligue pro Jack, ele está sempre disposto a testar os limites do próprio corpo com elevadas doses de álcool.

A confusão de Max era justificada pelo fato dos amigos se esforçarem para que ele se divertisse mais. Não era raro que Jack tentasse arrastá-lo para festas ou viagens. O Alpha já havia perdido as contas de quantas vezes o melhor amigo lhe dissera que ele não podia passar o resto daquela longa existência mergulhado em solidão e melancolia. As responsabilidades de um líder não permitiam que Krauss se esbaldasse em lazer, mas a grande verdade era que ele usava aquela liderança como uma desculpa para se não se divertir.

- Você não entendeu, Max. – Ted insistiu com ainda mais seriedade – Você TEM que vir para cá. Eu encontrei o garoto. Ele está aqui.

A urgência na entonação do amigo fez com que Max se colocasse sentado no colchão com um pulo. Mais uma vez, não foi necessário fazer perguntas para compreender a que Ted se referia. Toda a alcateia estava concentrada nas buscas da vítima do ataque ocorrido há alguns dias, então era óbvio que Ted estava se referindo a isso quando mencionou “o garoto”.

- Tem certeza, Ted?

Mesmo com a boate escura e com os flashes de luzes coloridas confundindo os sentidos, o segurança pendurado no celular não teve dificuldade para deslizar seu olhar até os dois rapazes que conversavam num ponto mais isolado do salão. O asiático foi ignorado e toda a atenção de Ted se prendeu no garoto mais alto.

Depois de tantos anos convivendo com aquela maldição, Ted não tinha dificuldade para reconhecer os sinais. Os seus instintos aflorados já reconheciam um semelhante há metros de distância e o recém transformado não era nada discreto. Pelo contrário, o rapaz parecia encantado com suas novas qualidades e com a reação que provocava nas pessoas ao seu redor.

De fato, os reflexos aguçados de um lobisomem e o poder que ele exercia sobre suas “vítimas” era um grande presente na vida de um simples universitário nerd que convivera com o status de perdedor durante a maior parte da adolescência. Mas, ao contrário do novato, Ted conhecia o lado mais sombrio daquela transformação e temia pelo estrago que um recém-transformado poderia causar em uma boate lotada de jovens embriagados.

- Positivo, Max.

- Não tire os olhos dele! – Maximilian saltou para fora da cama já totalmente desperto – Não o perca de vista, Ted! Não o deixe fazer nenhuma merda! Eu estou indo praí! Ligue pro Jack também!

- Um moleque recém transformado numa boate com música alta, rodeado por caras bêbados e por meninas entupidas de hormônios. – Ted soltou um grunhido antes de concluir – Cara, só um Alpha é capaz de impedir uma tragédia aqui. Venha rápido!

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Qui Fev 23, 2017 3:37 pm

Como se estivessem sendo puxados pelo poder invisível de um gigantesco ímã, os olhos castanhos de Samantha Grimstone acompanharam os passos do recém-chegado que passava por elas. O olhar intenso dele provocou um arrepio que percorreu toda a espinha da aniversariante e aquele sorrisinho pretencioso foi capaz de acelerar as batidas do seu coração.

Nenhuma garota daquela boate discordaria do quanto ele era bonito. Mas Samantha sabia que não era só isso. Embora fosse um pouco mimada, a herdeira dos Grimstone nunca fora aquele tipo de menina tola e alienada que se derretia por um rosto bonito e por um corpo atraente. Aquele rapaz, contudo, só precisou de um olhar mais demorado e de um sorrisinho para fazer com que Sammy experimentasse sensações inéditas.

Os traços dele não eram totalmente estranhos e, vasculhando a própria memória, Grimstone encontrou um dos veteranos que rondavam o prédio de Ciências Biológicas. Samantha não se lembrava de já ter conversado com ele antes e, portanto, não fazia ideia de qual seria o nome do garoto, muito menos qual era seu curso. Mas a sua festinha de aniversário tinha se tornado um evento público no campus e aquele certamente não seria o único convidado “desconhecido” que apareceria na boate naquela madrugada.

Depois de alguns segundos parecendo hipnotizada por aquela visão, Samantha finalmente aterrissou de volta na realidade. A garota tentou pigarrear para disfarçar o motivo de sua distração e abriu um sorrisinho mais forçado para a irmã, finalmente dando atenção às brincadeiras e provocações de Emily.

- O bar fica bem ali... – Sammy usou o polegar para apontar a bancada onde vários jovens se enfileiravam em busca dos drinques – Já deixei a minha lista de convidados com o pessoal, então você só precisa dizer o seu nome e vão liberar qualquer coisa que você queira, mana.

Por mais que quisesse passar todo o tempo da festa ao lado da irmã, Samantha logo se viu obrigada a encarar as “responsabilidades” de aniversariante da noite. Era impossível manter uma conversa com qualquer pessoa sem que um novo convidado chegasse para cumprimentá-la. A boate estava mais lotada a cada minuto e praticamente todos os rostos que circulavam por ali pertenciam ao campus da Universidade de Eugene.

Mesmo sendo tão disputada naquela noite, Samantha ainda encontrou tempo para vasculhar o salão algumas vezes em busca de um rosto específico. Para seu desgosto, Sammy logo percebeu que não era a única garota que insistia em olhar para Cooper. Sem a menor dúvida, ele era um dos rapazes mais cobiçados daquela festa e poderia sair dali com a companhia que quisesse.

Como não pretendia entrar naquela disputa e encenar o lamentável papel de uma menina tola se desdobrando para chamar a atenção de um cara atraente, Samantha mergulhou de cabeça na diversão da festa. Mesmo sendo interrompida várias vezes para dar atenção aos convidados, a aniversariante conseguiu se divertir na pista de dança, deu várias gargalhadas enquanto conversava com os amigos e experimentou vários tons dos drinques coloridos oferecidos pelo bar naquela madrugada.

A festa ainda estava lotada e animada quando Samantha fugiu discretamente do tumulto da pista de dança para tomar um pouco de ar fresco em uma das varandas anexas ao salão. O álcool deixava a aniversariante mais lenta e obrigava Sammy a andar mais próxima às paredes, mas por sorte ela não precisou se escorar e conseguiu chegar à varanda nem protagonizar nenhum tropeço.

O vento fresco soprou os cabelos castanhos para trás, aliviando um pouco o calor do interior da boate. Grimstone respirou fundo e fechou os olhos por um momento, aproveitando aquele momento gostoso longe da bagunça da festa. As mãos delicadas foram apoiadas na mureta que rodeava a varanda arredondada e Samantha só queria aproveitar mais um minutinho daquela privacidade, mas seus planos foram estragados por um par de mãos firmes se deslizando em sua cintura. Graças ao modelo da roupa escolhida para aquela noite, os dedos atrevidos do rapaz entraram em contato direto com a pele da garota, arrancando de Samantha um arrepio desagradável.

- O que veio fazer aqui fora, gatinha?

Samantha estava meio encurralada junto a mureta, mas ainda assim conseguiu virar o corpo de frente para Dan Clarkson. O sorrisinho torto denunciava que o colega também já havia bebido demais, mas isso não era desculpa para aquele comportamento atrevido. Como não queria fazer um escândalo na própria festa, Sammy forçou um sorriso enquanto afastava delicadamente as mãos pousadas em sua cintura.

- Precisava de um pouco de ar fresco. Mas já estou voltando... – uma das sobrancelhas de Sam se arqueou quando Dan continuou parado na frente dela, criando um obstáculo para seus passos – Assim que você sair do meu caminho...

- Eu acho que a gente poderia aproveitar melhor esse tempinho longe daquela bagunça, hm? Eu sei que você também quer, Sammy.

Como se realmente não tivesse notado o desconforto da colega, Clarkson levou as mãos à cintura da aniversariante mais uma vez, puxando o corpo de Samantha para mais perto. A garota apoiou as mãos no peito dele e tentou empurrá-lo, mas Dan era ridiculamente maior e mais forte do que ela.

- Dan, não! – Samantha estava séria quando encarou o colega – A única coisa que eu quero neste momento é que você me solte!

Assim como Grimstone, Clarkson vinha de uma família rica e era o tipo de jovem que não estava acostumado a ouvir um “não”. Como todos os seus desejos eram sempre atendidos pelo dinheiro dos pais, Dan simplesmente não aceitou a negativa de Samantha naquela madrugada. Na mente deturpada e embriagada dele, aquilo era só charme de uma menina mimada e Sam se derreteria no instante em que os lábios dos dois se unissem. Por isso, o rapaz não hesitou enquanto inclinava o tronco na direção da aniversariante para forçar um beijo.

Os punhos fechados de Grimstone acertaram o peito do rapaz com socos e ela chegou a quebrar uma das unhas enquanto lutava para empurrá-lo para longe. A música alta da festa impediria que qualquer pessoa notasse a cena da varanda, então Samantha sabia que teria que lutar sozinha.

Como Dan era muito mais forte, a única coisa que Sammy pôde fazer para fugir do beijo foi virar a cabeça para o lado. Ainda assim, os lábios de Clarkson deslizaram pelo pescoço dela e buscaram insistentemente pela boca da aniversariante enquanto suas mãos traçavam trajetos nada discretos pelo corpo da garota. Samantha ainda berrava uma sequência de “nãos” naquela batalha perdida quando um milagre bizarro aconteceu.

Clarkson era um rapaz alto e ninguém que o olhasse teria dúvida que seus músculos fortes eram fruto de muitas e muitas horas na academia. Contudo, o corpo dele parecia tão leve quanto uma pluma quando Dan foi puxado brutalmente para trás e arremessado na direção da parede oposta. O som das costas de Clarkson se chocando violentamente contra a parede fez com que o rosto de Samantha se contorcesse em uma careta de dor. Apesar da música alta que ecoava até a varanda, Sam poderia jurar que escutara algumas costelas se partindo.

Por mais que estivesse enojada com o comportamento do colega, Samantha não queria que uma pancadaria colocasse um fim precoce em sua festa. A garota chegou a dar um passo na direção dos dois rapazes para pedir que eles parassem com a briga, mas suas pernas congelaram quando o olhar de Samantha se cruzou com o do rapaz que a salvara. Por uma fração de segundo, Grimstone teve a impressão de ver um brilho amarelado nas íris de Cooper.

A respiração dela se tornou mais pesada, mas aquela foi a única reação que o corpo de Samantha conseguiu ter. Como se estivesse hipnotizada, a aniversariante ficou congelada naquele ponto da varanda, totalmente incapaz de impedir a tragédia que estava por vir.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Qui Fev 23, 2017 8:00 pm

O olhar ameaçador que Cooper lançou para Samantha não chegava nem aos pés da expressão tenebrosa e violenta que Dan teve diante de si. Apesar de ter certeza que tinha sido jogado contra a parede, o rapaz se surpreendeu quando viu a forte mão de Cooper agarrando sua blusa e o sufocando.

- Qual é?! Quem você pensa que....!!!

Os olhos do universitário se arregalaram quando os olhos amarelados brilharam de modo intenso para ele. Sangue começou a escorrer do supercílio de Dan e o nariz de Cooper fremiu antes de farejar aquele cheiro de ferro que dominava o ambiente.

Um cheiro apetitoso, que nublava a mente de Cooper.

Um pequeno ponto vermelho surgiu nos olhos amarelados, mas parecia que estava a ponto de se espalhar por toda íris. Cooper fechou os olhos, recuando um passo. Os punhos se fecharam e a confusão o atingiu como um soco.

Nunca antes em sua vida, ele desejou matar tanto alguém.

Pelo menos não com tanta intensidade.

Em sua mente, ele se recordava do dia de sua mordida, mas agora era ele quem estava com a boca cheia de sangue e carne humana. Passou a lingua pelos lábios, tentando entender o que estava acontecendo.

E foi aí que o soco veio.

Apesar do som da festa estar alto, algumas pessoas tinham parado quando ouviram o som de algo batendo de modo violento numa parede - até porque, a parede estava rachada, graças à intensidade. Isso somado ao fato que universitários adoravam uma boa briga, apenas ajudou a chamar a atenção para o evento. A cavalaria logo chegou, à favor de Dan.

Enquanto Cooper tentava se recuperar daquela fome, um dos amigos de Dan deu um soco no rapaz. A cabeça dele virou apenas para acompanhar o movimento. O gesto, infelizmente, apenas estava atiçando a vontade dele...

Matar...

Matar...

O soco veio acompanhado de um chute na boca do estomago. Cooper caiu sobre um dos joelhos, repousando o punho fechado sobre o chão. O grupo que tinha uns seis elementos se juntou ainda mais para conseguir bater o máximo antes que os seguranças chegassem. Do jeito que eles eram fortes e resistentes – verdadeiros atletas, o agressor do lider do bando certamente ficaria inconsciente e noutro momento, poderiam terminar o serviço.

Eles só não estavam preparados para o que aconteceu.

O corpo de Cooper pareceu crescer. Não como uma besta ou coisa do tipo. Era sua estrutura que pareceu mais forte, mais resistente. Os musculos estavam tensos e a força dele foi capaz de fazer com que ele se erguesse e jogasse todos para trás e para os lados, como uma verdadeira performance de filme.

- Isso é o melhor que podem fazer?!

Sua voz saiu num rosnado quase gutural de tão grudados que os dentes estavam.

Antes que eles pudessem se levantar, ele começou a socar e chutar, nocauteando todos os atletas universitários como se fossem feitos de papel. E Cooper parecia crescer, trazendo aquela onda de medo, aquele choque quando se esta na frente de uma autoridade, um superior.

Ou melhor, diante de um predador.

A Detetive Swan já estava se aproximando da confusão, puxando por seu distintivo e usaria a arma que ficava na bota, caso fosse necessário.

Porém, aos olhos dela e de todos aqueles presentes, a cena começou a ficar mais...lenta.

Lá estavam todos parados, como estatuas.

Cooper tinha acabado de erguer mais um para o alto enquanto um rapaz asiatico estava a meio passo de correr até seu amigo. Samantha estava na sacada, encolhida e com uma expressão assustada. Três rapazes estavam sangrando enquanto Dan ainda tentava se mover.

Até as luzes tinham parado junto com o DJ em meio a um drop.

Cooper rosnou e Emily pôde ouvir isso, mas ainda bem lento. Percebeu, contudo, que era diferente dos outros, porque todos estavam paralisados enquanto ela só estava em câmera lenta, por assim dizer.

Eis que alguns passos começam a ecoar. Quatro elementos tinham entrado em cena e caminhavam na direção de toda a confusão. Um dos seguranças da boate pareceu se juntar ao grupo que era composto por três homens e uma mulher.

Emily cravou os olhos neles, mas seus instintos estavam gritando que ela não podia chamar a atenção.

Algo sinistro estava acontecendo...

Mas o que poderia ser?

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Qui Fev 23, 2017 8:55 pm

Ao contrário dos amigos bombados de Dan Clarkson, Cooper não encontraria tanta facilidade em se livrar do grupo que agora se aproximava da confusão. A única mulher presente na equipe – uma moça de cabelos profundamente vermelhos – manteve-se alguns passos afastada da fúria de Cooper, mas dois rapazes não hesitaram antes de tentarem conter o rapaz.

Nenhum dos dois era absurdamente musculoso, mas logo Cooper perceberia que estava lidando com homens tão fortes quanto ele. O segurança da boate puxou os braços de Cooper para trás com violência enquanto o outro homem se posicionou à frente dele, lançando um olhar preocupado para o brilho amarelo que começava a cintilar nos olhos negros.

- Controle-se! – a voz de Jack saiu num sussurro, meio rosnada entre os dentes trincados – Nós podemos te ajudar, mas você precisa ficar calmo, carinha!

Como já era de se esperar, um recém transformado não acataria tão pacificamente aquele conselho. Ted soltou um grunhido de dor quando Cooper acertou seu estômago com uma cotovelada, mas Jack reagiu rápido e enlaçou o rapaz antes que uma fuga pudesse acontecer.

Todos ao redor estavam paralisados. Não todos, exatamente, mas os lobos estavam concentrados demais em Cooper para notar que havia uma loira que acompanhava cada cena que ocorria naquela sacada. Havia muitas testemunhas ao redor e o estrago poderia ser gigante, mas era esta a utilidade de Rosie Walker para a alcateia. Os lobos tinham que tirar Cooper de cena antes que ele se transformasse e a bruxa ficaria encarregada de limpar aquelas cenas das memórias dos espectadores.

Nenhum membro da alcateia havia notado que Emily Swan não sucumbira ao feitiço, então toda a energia do grupo se concentrou no jovem lobo. Enquanto Cooper se debatia, rosnava e tentava se desvencilhar dos braços de Ted e Jack, Rosie mantinha os demais paralisados em seus lugares, com as memórias ocas para que não se lembrassem daquele momento.

Portanto, somente a detetive foi testemunha da cena absurda que aconteceu a seguir. Cooper estava completamente ensandecido e há um passo de sua primeira transformação quando passos apressados ecoaram pela varanda da boate. Jack e Ted não iriam conseguir conter o rapaz por muito mais tempo, mas aquela luta chegou ao fim quando a voz grave do Alpha ecoou na madrugada.

- Já chega.

O homem que surgiu entre os convidados paralisados era jovem e tinha aquele mesmo ar absurdamente atraente que Cooper exibia na boate. Ao contrário do rapaz, porém, o Alpha não estava vestido para uma festa. A calça de moletom preta estava amassada e a blusa de algodão não combinava com o vento frio daquela noite, mas Max não parecia nem meramente incomodado com a temperatura quando se aproximou dos três rapazes.

Jack e Ted obedeceram imediatamente às ordens do Alpha, mas o mais impressionante era ver que Cooper também possuía aquele instinto, mesmo sem conhecer a verdadeira identidade de Maximilian Krauss. O rapaz que antes se debatia e tentava ferir todos ao seu redor como um louco ficou quieto enquanto era encarado com firmeza pelo recém-chegado.

- Podem soltá-lo.

Ted e Jack trocaram um olhar tenso, mas novamente obedeceram às ordens do Alpha sem questionamentos. Mesmo livre dos braços dos dois homens, Cooper ficou imóvel. O coração acelerado, a respiração descompassada e o brilho amarelado no olhar denunciavam que o rapaz precisava se transformar para liberar toda aquela selvageria, mas agora que o Alpha estava presente, aquilo poderia acontecer sem tantos riscos para os demais.

- Você vem comigo. – Max se dirigiu a Cooper antes de voltar o olhar para os outros dois amigos – E vocês dois fiquem com a Rosie. Ela vai precisar de ajuda pra limpar esta bagunça. Está tudo sob controle, Rosie?

- Acho que sim. – a ruiva olhou brevemente ao redor, ainda sem notar que havia um par de olhos que não estavam vidrados naquela multidão de curiosos – Mas tire ele daqui, Max. Não temos muito tempo.

Não foi preciso que Maximilian encostasse nem mesmo um dedo em Cooper. O Alpha apenas indicou a direção que deveriam seguir com um movimento de cabeça. Como um atleta de elite, Krauss saltou sobre a mureta da sacada e aterrissou com perfeição no jardim que contornava o prédio, sendo prontamente seguido pelo outro rapaz. Em poucos segundos, os dois sumiram na escuridão da madrugada.

Toda a concentração de Max estava voltada para o recém transformado, mas os seus instintos aguçados lhe deixavam inquieto. O Alpha experimentava a incômoda sensação de que havia deixado passar algum detalhe daquela cena, mas infelizmente não podia retornar para a boate e deixar Cooper sozinho naquelas condições.

O rapaz já parecia à beira da loucura quando os dois chegaram a um parque florestal que se localizava nas imediações da boate. Protegidos por enormes árvores e pela penumbra da mata, Max deslizou os polegares sobre os olhos, retirando as lentes e exibindo para Cooper os olhos profundamente vermelhos.

- Teremos muito tempo para conversar mais tarde. Agora você precisa se aliviar. – Max respirou fundo antes de sussurrar para Cooper – Liberte-se. Eu estou aqui e não vou permitir que você machuque ninguém, nem que ninguém te veja. Mas você precisa se transformar.

Seria a primeira transformação de Cooper, mas a verdade é que um lobo não precisava de muitas instruções para saber o que fazer naquele momento. Era um instinto primitivo da espécie, o rapaz só precisava deixar que a fera viesse à tona.

- Tudo o que você precisa fazer é parar de se conter. Confie em mim, isso vai te fazer bem, é disso que você precisa para se sentir melhor. É como estar morto de sede e finalmente tomar um copo com água. Transforme-se.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Ter Fev 28, 2017 9:56 am

Cooper já não respondia mais de modo racional. Toda sua predisposição para um diálogo tinha evaporado quando seus punhos encontraram o rosto de um dos atletas de elite e o nocauteara. Sua mente estava vagando, presa numa densa névoa enquanto seu corpo respondia apenas aos instintos mais primitivos.

Não houve respeito para com os membros mais antigos da Alcateia. Eles eram estranhos que estavam tentando pará-lo. Eram, portanto, inimigos a serem dizimados.

Porém, quando uma figura mais imponente e de respeito de fez presente, a atenção focou-se toda nele. O rapaz nunca o vira antes em sua vida, mas havia algo naquela presença, naquela voz que lhe fazia recuar por um segundo. Era a presença de um superior, de um verdadeiro alfa. Os olhos completamente amarelados começavam a ficar negros. As mandíbulas já tinham projetado dentes mais afiados e bestiais, o rosto já acompanhava aquela mudança.

Só faltava crescer.

Mas nem isso faltou quando os dois correram em direção a um bosque florestal da cidade.

A corrida foi intensa, mas não pareceu cansá-lo.

Cooper podia se encontrar num local além de sua mente, mas a dor jamais seria esquecida.

Há cinco dias, ele experimentava as maravilhas que aquele acidente tinham provocado. Estava com os reflexos mais afiados, mais atraente, forte, disposto, saudável. Era quase como o nirvana, o verdadeiro paraíso.

Porém...

Ele estava prestes a descobrir que aquela benção, na verdade, era uma maldição.

A lua cheia surgiu entre as nuvens escuras da noite de Eugene.

Duas causas podiam motivar a transformação de um Lobo: um trauma muito grande ou a lua cheia. Dependendo da intensidade do trauma ou do descontrole do lobo – geralmente dos jovens – as consequencias da transformação eram desastrosas.

Para Cooper, o principal problema era a lua cheia. Os hormonios à flor da pele e a recente briga apenas alimentavam aquele demonio que habitava dentro de si.

Os ossos dele começaram a estalar e a pele a rasgar. Seus órgãos cresciam e os ossos precisavam realocar para comportar todo seu interior. A dor o consumia e servia como combustivel para aquele incendio infernal que ocorria dentro de si.

Diante de Max, Cooper deixava de ser um jovem adulto e se transformava numa besta de quase 2 metros. Nem lobo, nem homem, mas um misto dos dois. Completamente sem controle e, agora, disposto a matar até mesmo o alfa, visto que já não identificava mais o que era certo ou errado.

O Lobo estava pronto para atacar, sob a luz marcante da Lua Cheia.

**

O som alto das batidas eletrônicas foi substituído pelo cortante som das sirenes. Duas ambulâncias tinha sido solicitada porque três jovens estavam gravemente feridos no chão da boate. O motivo tinha sido uma briga e, aparentemente, os ferimentos foram causados por garrafas e cadeiras.

Todas as testemunhas afirmavam a mesma coisa.

Tinha sido uma briga generalizada e agora o Policial Jones colhia os depoimentos.

Todos diziam a mesma coisa, com exceção de uma pessoa.

Emily estava sentada ao lado de sua irmã, nas escadas da boate. Abraçava Samantha com um dos braços enquanto a consolava por conta do incidente. O aniversário dela tinha chegado ao fim de um modo precoce e bastante trágico. Eram jovens que ela convivia diariamente na universidade e agora estavam entre a vida e a morte.

Apesar de estar fisicamente presente, a mente de Emily estava muito longe.

A mulher cabelos vermelhos tomou conta da situação enquanto alguém imponente e poderoso tirava o causador do problema dali.

Com a ajuda dos outros homens, inclusive do segurança, eles montaram uma nova cena e inseriram até mesmo inocentes.

Colocaram de modo que fizesse parecer que foi uma briga entre os presentes. Estavam bebados e alguns também tinham sido drogados – a mulher afirmou isso e mostrou que havia, de fato, algumas "balas" com um dos que foi inserido na cena.

Quando acordassem, não se lembrariam de Cooper.

Mesmo sendo uma Detetive, Emily não pôde fazer nada. E sua angustia aumentou quando percebeu que apenas ela saberia da verdade. As impressões daquelas criaturas, provavelmente nem estariam nos corpos. Não haveria indicios e a história ficaria como eles disseram.

Os olhos dela marejaram num misto de raiva e impotência.

Um jovem asiático passou por elas e parecia procurar por alguém.

Aparentemente, o amigo dele tinha sumido na confusão.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Ter Fev 28, 2017 1:31 pm

Nem mesmo uma lágrima escorreu pelo rosto pálido de Samantha, mas a irmã mais velha não teria dificuldade para reconhecer o esforço que a caçula fazia para segurar o choro. Mesmo agora que já se tornara uma mulher, Sammy ainda conservava a mania infantil de apertar os lábios e abaixar os olhos para evitar o rosto de Emily. Era grande a certeza de que ela começaria a soluçar se fosse encarada por mais de três segundos.

Assim como os demais convidados, a aniversariante descreveu uma briga confusa quando os policiais coletaram seu depoimento. Grimstone se lembrava com perfeição da maneira como Dan Clarkson a acuara na sacada da boate, mas depois disso as lembranças se tornavam mais nebulosas. Samantha acabou concluindo que tudo acontecera rápido demais durante a briga e que, somado às doses de bebida consumidas naquela noite, era por isso que ela não se lembrava de todos os detalhes e dos rostos dos demais envolvidos.

- Você está bem?

A voz doce fez com que Samantha finalmente erguesse os olhos para encarar a moça ruiva a sua frente. Ainda nos braços da irmã mais velha, a caçula tentou resgatar qualquer lembrança de Rosie na memória, mas por fim se convenceu de que nunca havia visto aquela garota nem mesmo de relance no campus. Seria difícil não reparar em um cabelo tão incomum.

Contrariando a imagem típica de uma bruxa dos contos de fadas, Rosie Walker era uma garota jovem, linda e doce. Os cabelos ruivos lhe proporcionavam um ar mais alegre e juvenil, seus traços eram delicados e combinavam com a baixa estatura. O vestido branco era feito de um tecido leve, bem diferente dos tons escuros esperados para uma bruxa.

- Eu não me machuquei. Só quero ir para casa.

Era tudo o que Samantha podia dizer naquele momento. Apesar da briga generalizada reproduzida pela memória dela, a aniversariante havia saído da confusão sem nenhum arranhão. Mas nem por isso Grimstone poderia dizer que estava bem. É claro que Sammy estava arrasada pela maneira como a comemoração terminara, mas seu mal estar ia muito além disso. Samantha se sentia tensa e angustiada, como se intimamente soubesse que tudo aquilo fora algo muito mais grave que uma simples briga de jovens bêbados.

- Os policiais já estão dispensando todo mundo. Vá para casa descansar, sim? Foi uma noite muito agitada.

Depois de dirigir aquelas palavras meigas e compreensivas para Samantha, os olhos azuis de Rosie se ergueram para a irmã mais velha. Walker confiava o suficiente nos seus instintos para não deixar passar despercebido o olhar atordoado e calculista de Emily Swan. Rosie ainda não sabia o que havia de diferente na loira, mas não tinha a menor dúvida de que Emily possuía algum poder que a fizera ficar imune ao feitiço que atingira todos naquela madrugada.

Talvez ela fosse uma bruxa e estivesse usando algum amuleto. Rosie também não conseguia descartar a hipótese de estar diante de outra criatura sobrenatural. Dificilmente Emily seria uma vampira com aquele rosto tão rosado, e também não parecia ser uma loba a julgar pela expressão totalmente perdida naquele contexto. Aliás, o semblante confuso também descartava a hipótese da garota ser uma caçadora. Mas que havia algo diferente nela, disso Rosie não tinha dúvidas.

E foi por isso que a ruiva sustentou o olhar de Emily por longos segundos antes de retirar da bolsa pendurada em seu ombro um pequeno cartão de visita. O papel lilás era delicado, assim como as letras douradas que formavam o nome da loja: “Sopro de magia – Produtos Místicos e Religiosos”. Na última linha do cartão e com uma letra um pouco menor e mais formal, estava o endereço de uma lojinha localizada no centro comercial de Eugene.

- Eu me chamo Rosie. – a ruiva apontou a parte de trás do cartãozinho, onde estava escrito: “Rosie Walker” – Acho que você iria gostar de conhecer a minha loja. Passe lá esta semana, sim?

Com o seu típico sorriso simpático, Rosie lançou um último olhar amigável à Samantha antes de se afastar das duas irmãs. As íris castanhas acompanharam os passos daquela estranha e a aniversariante pareceu ainda mais intrigada quando viu Walker sair da boate de mãos dadas com um dos enormes seguranças que trabalhavam no estabelecimento.

- O que foi que aconteceu aqui, Emy? Ela realmente se aproveitou deste momento para fazer propaganda da tal loja? – mesmo em meio ao caos, Sam conseguiu encontrar um sorriso para provocar a irmã mais velha – Produtos místicos??? Sério que essa garota achou que você é do tipo que coleciona pedras coloridas, filtros dos sonhos, velas aromatizadas?

Ainda com um sorrisinho divertido, Sammy se inclinou e cheirou os cabelos da irmã.

- Se bem que esse seu shampoo tem um cheiro horrível de incenso. Pode ter sido isso que atraiu a bruxinha esquisita. Quando for na loja, compre algo para mim, sim? Depois desta noite, eu aceito qualquer tipo de amuleto pra ficar longe de caras problemáticos.

As provocações de Samantha deixavam muito claro que a caçula não havia notado que o convite de Rosie não fora casual, muito menos uma maneira esdrúxula de divulgar a própria loja. Walker havia dado a Emily a oportunidade de se encontrarem de novo para esclarecer para a loira os bizarros acontecimentos daquela madrugada.

---------

O semblante de Krauss não demonstrou nenhum receio e nenhuma surpresa quando ele viu diante de si a nova face de Cooper. Não era a primeira vez que Max via aquelas garras, ou os enormes dentes pontiagudos, os pêlos no rosto, os olhos amarelos e a expressão selvagem de um recém transformado. Maximilian também já esperava por aquilo quando Cooper viu nele uma ameaça e lhe lançou um rosnado hostil.

Tudo aconteceu rápido demais para olhos humanos, mas Max reagiu com a mesma agilidade de Cooper. Quando o jovem lobisomem atacou, Krauss firmou os pés no chão e, ao invés de fugir, agarrou a criatura pelos ombros. Os recém-transformados eram absurdamente fortes, mas não o bastante para derrubar um Alpha. Com facilidade, Maximilian se desviou dos dentes do lobisomem e o jogou contra uma das árvores do bosque. Ficou claro que Max possuía uma força ainda maior que a de Cooper quando as costas do lobisomem atingiram o tronco com força suficiente para quebrá-lo.

- Concentre-se! Eu estou aqui para te ajudar. Eu vim por você. – Max falava baixo, mas com firmeza – Somos iguais.

Um lobisomem mais maduro poderia ser controlado com aquelas explicações, mas Max sabia que os recém-transformados tinham uma imensa dificuldade em conter os instintos. Mesmo que suas palavras fizessem sentido na cabeça de Cooper, seu corpo continuaria reagindo de forma hostil ao macho com quem dividia aquele mesmo território.

E isso ficou provado quando o lobisomem saltou novamente na direção de Krauss. Sem outra escolha, os olhos de Max se estreitaram enquanto todo o seu corpo estremecia com a transformação. Garras semelhantes as de Cooper surgiram nas mãos do Alpha, mas logo ficou claro que os dois não eram exatamente iguais.

Enquanto Cooper tinha uma pelagem mais esparsa e castanha, grossos pêlos negros brotaram por todo o corpo de Maximilian. Ao invés dos olhos amarelos, no rosto dele brilhava o par de íris profundamente vermelhas. Dentes pontudos brotaram na boca do recém-transformado, mas o Alpha tinha uma transformação mais complexa. Seu rosto se alongou até que surgisse um focinho idêntico ao de um lobo feroz. Seus músculos cresceram e os ossos se alongaram, deixando-o ainda maior e mais forte que Cooper.

O recém-transformado reconheceria o uivo de um líder quando Max ergueu a cabeça e deixou o som escapar de sua garganta, ecoando por todo o bosque. Krauss não gastaria mais que um minuto para dizimar o inexperiente lobo a sua frente, mas a luta não aconteceu.

Mesmo um Alpha era dominado pelos instintos e pela selvageria durante uma transformação em plena lua-cheia. Mas a diferença entre os dois era que Maximilian ainda mantinha um pouco da racionalidade, mesmo na pele do lobo. Depois de tantas décadas de experiência, o Alpha era capaz de controlar os seus instintos primitivos em prol da alcateia. E, naquele momento, tudo o que o líder queria era que o recém transformado fizesse parte do seu bando. Para isso, era preciso que Cooper sobrevivesse à dolorosa experiência da primeira transformação.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Emily~Cooper em Sex Mar 03, 2017 12:36 pm

"Somos iguais"

Aquelas duas palavras continuaram ecoando na mente de Cooper mesmo depois do desmaio. O corpo do rapaz estava inerte numa mesa de cirurgia, mas que não possuía apenas equipamentos médicos. Nas pontas estavam correntes de metal – provavelmente prata – que era usada em momentos extremos.

Quando, por exemplo, o alpha entrava em frenesi e perdia completamente seu controle.

No momento, contudo, a mesa era usada apenas para que o recem transformado recuperasse de suas dolorosas feridas.

O embate tinha sido um pouco mais intenso do que o esperado. Obviamente existia uma gigante diferença entre Cooper e Max, mas o rapaz parecia ter nascido para aquilo. Havia tanta fúria contida que sua força acabava sendo muito além de um recem transformado comum. Se antes Max queria Cooper em seu bando para que não fosse um lobo solitário, agora ele desejaria porque estava diante de um "prodígio".

Apesar de ter sido completamente apagado e ter adquirido alguns ferimentos que virariam cicatrizes grosseiras no peito e abdômen, ele também tinha dado uma boa canseira no Alpha.

Sua racionalidade estava voltando, mas ele dormia há mais de 15 horas, completamente imóvel. O corpo estava exausto e a mente vagava por imagens que ele não sabia que se tratavam de lembranças. Sua ultima memoria de fato era ter visto Samantha em apuros.

Tudo o que ele pensou era que precisava defende-la.

E teria feito isso por qualquer pessoa em perigo. Achava abominável a simples ideia de uma mulher passar por uma experiencia daquelas.

Dan não era um homem.

Era um covarde que precisava ser detido.

Por isso ele tinha avançado, mas sofreu uma espécie de apagão depois disso.

Agora estava preso num sonho. Nele, Cooper sentia-se poderoso. Conseguia derrubar valentões com apenas um soco, além de causar uma espécie de destruição que só existia em filmes de ação ou de ficção. Era uma sensação ótima, tanto poder contido dentro de si! As coisas que ele podia fazer!

Contudo, a dor que sentiu logo em seguida era proporcional ao seu poder.

Flashes de uma besta saindo de si vieram à mente do rapaz e ele começou a se tremer todo, quase como se convulsionando. Foi preciso que Ted e Jack o segurassem na mesa para conte-lo. Ele não estava livre de uma transformação, mesmo dormindo. O alpha novamente precisou conte-lo. E Max ficaria ali até que não houvesse mais duvidas que o rapaz estava bem.

E que não traria perigo.

"Somos iguais"

- Iguais...ao que...?

Murmurou mexendo a cabeça.

Ainda estava sob efeito de alucinações.

Cooper nem imaginava que suas alucinações eram a sua nova realidade.

**

Toque de Magia

Dizia o cartão da loja de Rosie Walker.

Emily sabia que era uma pessoa curiosa, mas apenas agora diante daquela loja é que ela via que era um pouco burra também.

Por que estava ali?

Por que estava ali sozinha?

Sabia que o que tinha visto acontecer na boa era muito real e que aquela mulher, a tal da Rosie, tinha mexido nas memorias de todo mundo, alterando toda a cena. Sabia que ela tinha colocado a culpa em inocentes!

E simplesmente não podia provar nada. Porque esse tipo de coisa não acontecia no mundo real e tudo seria jogado como loucura de sua cabeça.

Massageou a própria têmpora depois de retirar o capacete de sua moto e respirou fundo.

A resposta para suas indagações veio naquele instante de reflexão. Ela sabia que procuraria por Rosie assim que a ruiva ousou dirigir a palavra à sua irmã. Mesmo que Samantha tenha levado todo o evento da aparição de Rosie numa brincadeira, Emily tinha visto como um risco.

Ela estava ali para manter a segurança de sua irmã caçula.

Não acreditava que fosse encontrar respostas para o que tinha acontecido, mas deixaria claro que queria aquela gente longe de Samantha. Porque ela não tinha nada a ver com toda aquela bagunça. Era inocente e tivera suas memorias apagadas.

Pelo menos era nisso que ela estava se agarrando naquele momento.

- Vamos lá, Em. Ela não pode fazer nada com você ontem. Não vai fazer agora.

Murmurou para si mesma e guardou o cartão no bolso da calça enquanto caminhava até a entrada.

A canção dos ventos anunciou sua entrada naquela loja.

Não parecia diferente das outras lojas esotéricas que existiam por ali, mas era fato que tinha seu charme. Os cheiros eram bastante intensos e as cores propicias para direcionar a atenção para o misticismo e produtos naturais - chás, biscoitos e afins.

Emily olhou entre as prateleiras e direcionou-se até o balcão.

A loja estava vazia para o horário.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

Mensagem por Sammy~Max em Sex Mar 10, 2017 7:03 pm

Poucas horas tinham se passado, mas o corpo de Maximilian estava moído como se o Alpha estivesse há dias sem nenhum momento de descanso. Lobisomens jovens realmente eram fortes e selvagens demais, mas aquele rapaz havia superado todas as expectativas do líder. Os efeitos físicos daquela primeira transformação já tinham passado, mas era evidente que a mente de Cooper continuava agitada quando o rapaz finalmente despertou daquele transe profundo.

Como não havia mais riscos, Cooper foi libertado das amarras que o mantinham preso à mesa. Jack e Ted trocaram um olhar inseguro quando o recém transformado desceu da mesa, mas o Alpha manteve a tranquilidade esperada de um líder que tinha tudo sob controle. Com um gesto, Max indicou um lugar vazio na poltrona e só iniciou aquela conversa complicada depois que Cooper já estava devidamente acomodado.

- Eu me chamo Max. – Krauss apontou para os outros dois rapazes presentes no local – E aqueles são Jack e Ted. Estamos aqui para te ajudar. Imagino que você ainda não tenha entendido muito bem tudo o que está havendo, não é, Cooper?

Antes que o rapaz pudesse questionar como aqueles estranhos sabiam o seu nome, Jack abriu um sorrisinho de desculpas enquanto indicava sobre a mesa os documentos que Cooper deixara cair no parque durante a transformação. Além da perda da carteira, Cooper notaria pelas roupas sujas e rasgadas que as imagens estranhas em sua mente não tinham sido somente um pesadelo sem noção.

- Eu não consigo fazer isso parar. – Max iniciou seu discurso com a resposta daquela que costumava ser a primeira pergunta de qualquer recém-transformado – Acredite, eu já teria feito isso comigo mesmo se existisse uma solução. Não sou capaz de fazer com que você volte a ser o que era, mas posso te ajudar a lidar com isso. Podemos te ajudar a enxergar os benefícios que acompanham esta maldição.

O uso do plural na última afirmação indicava que Krauss não era o único lobo da região disposto a ajudar Cooper naquele momento delicado. Jack e Ted não falaram nada, mas sacudiram as cabeças afirmativamente, concordando com as palavras de Max. O Alpha deixou que o novato digerisse essa nova ideia antes de continuar.

- Você foi atacado por um lobisomem, foi mordido e contaminado. Você sobreviveu ao ataque, mas não existe cura para a infecção. Eu sei que tudo parece terrível agora, mas com o tempo você aprende a controlar os instintos e a usar as habilidades ao seu favor.

Maximilian sentou-se no assento vazio e, enquanto falava, encarou com firmeza os olhos do rapaz sentado ao seu lado. As íris de Cooper já tinham perdido o tom amarelado selvagem e voltaram a assumir

- Você é livre para fazer as suas escolhas. Eu não estou aqui para te dar ordens ou para ditar os rumos da sua vida a partir de agora. Como eu disse, estou aqui para oferecer ajuda. Você pode escolher ser um lobo solitário, como a criatura que perdeu o controle e te atacou naquela noite. Ou pode escolher viver em sociedade, e neste caso vai precisar da proteção e do apoio de uma alcateia. – Max novamente indicou os amigos antes de completar – É isso que estamos te oferecendo hoje, Cooper.

------

A fachada de vidro não escondia as prateleiras lotadas da pequena loja de Rosie Walker. O letreiro voltado para a calçada exibia o nome “Sopro de Magia – Produtos Místicos e Religiosos” com letras coloridas, destacando a loja em uma calçada sóbria onde só existiam lojas de roupas e sapatos.

O cheiro das ervas acumuladas no estoque da loja era suavizado por vários incensos, que Rosie acendia várias vezes ao dia para não perder aquele clima esotérico que a maior parte dos clientes buscavam ao entrar ali.

Os produtos eram os mais diversos possíveis. Pedrinhas coloridas que prometiam vários tipos distintos de energia. Ervas para chás com promessas de curas para várias enfermidades. Duendes em miniatura para dar boa sorte. Livros das mais diversas crenças e religiões, assim como uma infinidade de revistas sobre signos do zodíaco. Anéis, cordões, amuletos, velas coloridas... Era uma loja completamente abarrotada de pequenas bobagens nas quais poucas pessoas acreditavam.

A própria Rosie não acreditavam nos produtos que vendia. Ela, melhor do que ninguém, sabia que uma erva era só uma planta com gosto ruim, que uma vela verde nada mais era do que parafina tingida, que signos do zodíaco era uma grande e lucrativa invenção. Walker sabia que seus produtos não tinham nenhuma utilidade nas mãos de humanos. Eram os seus poderes que tornavam tudo aquilo especial.

Mas se aquela era a vida dela, por que não lucrar com a única coisa que ela sabia fazer? Sempre que a culpa ameaçava atormentá-la, a ruiva se obrigava a comparar o seu trabalho com a loteria. As pessoas compravam bilhetes mesmo sabendo das chances praticamente nulas de vencerem. Assim como também compravam bobagens esotéricas mesmo sabendo que nada daquilo funcionaria.

Tudo o que Rosie precisava fazer era fingir que confiava nos poderes dos seus produtos para continuar pagando as contas em dia. E era impressionante como o número de clientes vinha aumentando gradativamente nos últimos tempos. Chegava a ser triste a ideia de que as pessoas estavam tão descrentes com a própria vida que depositavam a sua fé em bobagens.

- Acho que o meu marido está me traindo.

Uma das clientes confessou num sussurro chateado enquanto Rosie a ajudava a alcançar algumas velas no nível mais alto de uma prateleira. Os olhos da ruiva se ergueram para a mulher e o coração dela se apertou com a pergunta que veio a seguir.

- Você tem alguma coisa que vai fazer com que ele me ame de novo?

- Não.

Qualquer vendedora se aproveitaria daquela dor para empurrar promessas falsas e valiosas para aquele coração ferido. Mas Rosie simplesmente não tinha coragem de alcançar seus lucros em cima de sofrimento.

- Não existe nenhuma magia que restaure o amor. A senhora terá que fazer isso sozinha. – a moça encarou a mulher com mais firmeza – Se a senhora ainda acha que o seu casamento tem salvação, converse com o seu marido, abra o coração. Se ainda houver amor, ele brotará.

Walker entregou a sacola para a cliente enquanto abria um sorriso de encorajamento e indicava os produtos que a mulher já havia pagado.

- Aconselho a acender o incenso de rosas antes da conversa. O aroma acalma o coração e vai dar à senhora toda a inspiração que precisará para este momento tão importante.

Por estar tão concentrada na cliente, Rosie só notou a presença de Emily Swan quando a loira já estava diante do balcão. Depois de se despedir da cliente, Walker finalmente foi ao encontro da detetive, já sabendo que Emily não estava ali atrás de velas ou incensos. Ela queria respostas que explicassem o estranho acontecimento da noite da boate.

- Obrigada por vir. – como de costume, Rosie soou doce e gentil – Precisamos conversar, mas não podíamos fazer isso com a sua irmã por perto. Ela não é como nós. Ela é... normal.

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Re: Capítulo Um - Nightfall

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