Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

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Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Rosebud em Ter Nov 17, 2015 12:25 pm

O escritório era um verdadeiro Santuário. Ninguém entrava ali sem ser convidado e quando a porta se fechava e a Ópera começava, era um sinal de que ele não desejava ser incomodado por ninguém.

Absolutamente ninguém.

E era justamente isso que acontecia naquele exato instante. A orquestra de Nessum Dorma começou a seduzir o ambiente. O local era imponente, opressor para quem não fosse o dono dali. Era maior do que muitas casas populares. Suas paredes eram de madeira, muito bem talhada em nogueira escura. Todos os móveis do local eram extremamente refinados, de excelente bom gosto.





Era uma perfeita mistura do clássico com o novo, visto que havia um belíssimo lustre de cristal acima de sua cabeça, mas também havia a iluminação por baixo do gesso para clarear ou escurecer o ambiente ao bel prazer. As enormes janelas à prova de balas estavam fechadas e o ar condicionado refrescava o local.

O dono de tal gosto refinado e dinheiro estava recostado numa alta poltrona de couro. Usava um terno alinhado, aberto para que ele pudesse manter a perna cruzada enquanto sentia a musica.

Apesar de existir uma vitrola clássica, o som estava vindo de um aparelho de som discreto, potente e visivelmente caro.


Quando a voz de Pavarotti começou a dominar o ambiente, um sorriso apareceu no canto dos lábios do homem. Ele já era um homem de meia idade, mas era bastante atraente. Talvez fosse o sangue italiano que sempre deixava os homens mais charmosos com o passar do tempo. Quase tão bom quanto os vinhos.

A bebida carmim estava ao alcance de sua mão, ornando a mesinha ao lado, formando uma linha perfeita na metade da taça de cristal.


Os olhos dele se abriram lentamente – eram azuis piscina – e logo focaram no belíssimo quadro que havia num local especial da sala, em frente à poltrona, naquele ambiente, dentro de um ambiente, onde ele encontra paz no meio da opressão. O quadro era a sua Monalisa, mas imensamente mais valiosa. Uma verdadeira obra de artes, tão perfeito quanto uma foto.

Se ele encarasse aquela imagem por mais tempo, podia jurar que aquele sorriso se ampliava de modo que ela mostrava a covinha que o encantou desde a primeira vez que eles se conheceram.

Chiara era o retrato da perfeição.

A mulher mais bonita e perfeita que Lorenzo já tinha conhecido em sua vida. Eternizada em um quadro, fotos e em suas memórias. 

Era uma italiana de corpo e alma, com incríveis olhos azuis, cabelos castanhos, pele alva e detalhes expressivos em seu rosto.
                                                                                  

  


Sua imagem ficava acima da lareira, mas havia um espaço para mais fotos.


Tinham fotos dos dois juntos quando mais jovens e fotos das crianças com ela. Chiara sorria abraçada aos três: Um menino idêntico ao pai, com 10 anos, abaixado ao lado da mãe e a olhando de forma encantada, um segundo um pouco menor, com cinco anos, com uma bola ao seu lado, mas cutucando a barriga de uma garotinha de pouco mais de um ano que sorria sem parar. A mãe também sorria, segurando a menina pela mãozinha enquanto a garotinha mostrava um sorriso quase sem dentes.

(Lorenzo e Chiara)


Lorenzo respirou fundo, inspirando-se com aquelas imagens ao mesmo tempo em que a musica clamava pela vitória e chegava ao seu fim.


Buongiorno, mio amore.
Brindou com a taça de vinho e finalmente deu um gole, apreciando o momento.


Dezoito anos tinham se passado desde aquela foto.


(Lorenzo, hoje em dia)


Mas há doze anos, Lorenzo seguia esse mesmo ritual.


E era respeitado. Como tudo o que ele fazia nessa vida.

Levantou-se, desligando o som e abotoando seu terno azul cinza-chumbo novamente. Abriu a porta de seu escritório e o mordomo  já estava à postos ali para começar o seu serviço.


- Buongiorno, Don Lorenzo...


- Buongiorno, Raoul. Atualize-me...


- Signora Antonella ligou informando que já embarcou no jatinho com signorina Isadora. Devem chegar em...40 minutos.


Lorenzo deu um sorriso ao ouvir os nomes.

- Eu vou busca-las.


- Mas Don Lorenzo...O senhor tem uma reunião com os investidores às 11:30.

- Remarque para amanhã. – Disse simplesmente.

Raoul conhecia o temperamento de seu patrão.


- Onde está Pietro?

- Ele chegou ainda há pouco e está no quarto dele.

- Hm. Quero Pietro acordado quando eu voltar. Se ele não se importa com os negócios, ele que comece a trabalhar por conta própria para as regalias dele. Confisque as chaves dos carros e das motos. Foi o meu último aviso.

- Sim, senhor.

- E chame o Salvatore, quero que ele me apresente o novo rapaz que chegou.


(...)

Salvatore era o chefe da Segurança do Don. Era, literalmente, alguém que servia às duas faces da lei e o homem de confiança de Lorenzo. A familia de Salvatore servia à familia de Lorenzo há, pelo menos, cinco gerações.
                                                                                


(Salvatore)

Ele cuidava daqueles que trabalhavam sabendo pouco e para aqueles que sabiam muito. Afinal, Lorenzo era o irmão gêmeo, mais velho, do Primeiro Ministro da Itália, Antelo Romazzini. Para o mundo, Lorenzo era um homem riquíssimo e famoso por ser o de uma das melhores marcas de vinho e viúvo de uma nobre. Mas, na verdade, ele era o líder de um grupo de mafiosos que dominava o sul da Italia e toda a Sicilia. Eles traficavam armas, incentivando as guerras civis africanas e grupos de extermínios, além de também controlarem as drogas pesadas que chegavam até a Italia.


Eles tinham inimigos políticos e mafiosos, mas a Famiglia sempre foi extremamente forte e coesa. Além da fama deles fazerem de seus membros a nobreza daquele ramo.

Era gratificante trabalhar para eles.


E honroso morrer por eles.

Salvatore conheceu Romeo há dois dias e não tinha gostado muito do rapaz. Ele tinha passado em todos os testes, é verdade, mas Salvatore era implicante com qualquer pessoa que conseguisse competir com suas habilidades técnicas.

Romeo não foi o único novo contratado.


No último mês, dois seguranças faleceram após um infeliz acidente.

Mas é como se diz...


É uma honra servir e morrer pelos Romazzini. 
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Ste em Ter Nov 17, 2015 1:47 pm

Do outro lado da cidade, uma cena muito parecida se desenrolava no luxuoso escritório de Benito Agostini. O mafioso, um dos maiores rivais e consequentemente um dos piores inimigos dos Romazzini, aproveitava a solidão do próprio escritório para relembrar o passado. Seus únicos companheiros naquele momento eram um charuto, já pela metade, e uma taça de vinho ainda intocada.


A maior diferença entre os dois italianos estava nos protagonistas de suas memórias. Enquanto Lorenzo revivia o sonho da presença da amada esposa, era num garotinho que a mente de Benito estava focada.

Romeo.

Um aperto comprimiu o peito de Don Benito Agostini quando ele se deu conta de que, pela primeira vez, não tinha o pequeno Romeo sob a sua proteção. Ao contrário, o garotinho estava cada vez mais envolvido pelas garras dos inimigos. Por mais que confiasse cegamente nele, Benito não conseguia ignorar o perigo. Um passo em falso e seu pequeno Romeo não voltaria vivo para casa.

A dor daquela angústia fez com que Agostini virasse na boca, de uma só vez, todo o conteúdo da taça de vinho tinto com a qual estivera brincando até então. Ele já havia errado muito com Romeo, mas nada se comparava ao cenário atual. Se algo acontecesse ao seu menino, Benito não se perdoaria jamais.

Romeo merecia mais que aquele destino. Muito mais. Mas a vida não costumava ser muito justa com crianças como ele. Por mais que fosse brilhante e encantador, o menino era uma consequência de um erro de Benito. Um tropeço num casamento de aparências que gerara um fruto. Um bebê que foi levado para a casa dos Agostini com poucos meses de idade, para ser criado como filho de um fiel casal de empregados. Inicialmente, Benito só queria garantir que a criança não passasse fome ou acabasse largada num orfanato, mas o destino tratou de fazer com que o bastardo se tornasse a luz dos olhos do mafioso.

O casamento oficial de Benito Agostini gerara três filhos. O primogênito, Cecilio, era uma miniatura do pai, mas herdara apenas os traços físicos do mafioso. Desde a mais tenra infância, Cecilio mostrou ao pai que não tinha vocação para os “negócios”. O passar dos anos somente reforçou as certezas de Benito, transformando seu primogênito em um rapaz tolo, facilmente influenciável, sem nenhum espírito de liderança. Seria uma catástrofe deixar aquele império nas mãos de Cecilio.


A filha do meio, Mariella, era uma exata cópia da mãe. Tornou-se uma jovem bela, vaidosa e inescrupulosa, mas totalmente vazia. Para Mariella, o mundo era uma grande festa na qual ela deveria ser a protagonista. Seu interesse nos negócios do pai eram nulos e sua única preocupação era o valor da mesada que, mesmo já sendo uma mulher feita, continuava a ganhar do mafioso.


Dentre os três filhos dos Agostini, o caçula se via como a salvação da família. O pai, contudo, encarava Vincenzo como a mais trágica opção de sucessão ao seu império. Ao contrário de Cecilio, Vincenzo era inteligente e se interessava pelos negócios da família. Mas o caçula simplesmente não conhecia nenhuma noção de limites, era facilmente cegado pelo poder e, exatamente por seu comportamento tirano, não inspirava a simpatia de ninguém. E Benito sabia melhor do que ninguém que nenhuma fidelidade era conquistada através do medo.


Como uma grande piada do destino, o pequeno Romeo crescera e se tornara tudo aquilo que Benito não encontrava em nenhum dos filhos “oficiais”. O filho bastardo era inteligente, discreto e desde sempre mostrou ter um grande potencial para os negócios da família. Romeo conquistava a confiança dos aliados com sua postura firme e era respeitado pelos “funcionários” do escalão mais baixo porque tratava a todos com simpatia.

Mas ele ainda era e seria eternamente um erro. E por isso estava arriscando o próprio pescoço enquanto os três filhos amplamente inadequados de Agostini permaneciam sob a proteção do teto do mafioso.

- Papá?

Benito foi arrancado de seus devaneios e trazido de volta à realidade pela voz de Cecilio. Os olhos do mafioso se estreitaram ao notar que os dois filhos tinham entrado em seu escritório sem a sua permissão. Ao notar o descontentamento de Agostini, o primogênito apressou-se em explicar.

- Nós batemos algumas vezes. Ficamos preocupados quando papá não respondeu.

- O que querem? – a voz de Benito soou áspera.

- Queremos lembrá-lo de que nós temos uma reunião com os franceses em vinte minutos. – Vincenzo ergueu uma das sobrancelhas – Esqueceu-se da reunião, papá?

- Eu me esqueci de tê-lo convidado para a reunião, Vincenzo. – os olhos do mafioso se estreitaram ainda mais – “Nós” não temos reunião alguma. “Eu” tenho.

- O senhor não planejou ir sozinho, pelo o que me lembro. – Vincenzo não desistiria tão fácil.

- Não. Romeo iria comigo. Mas graças a sua brilhante ideia, esta não é mais uma opção.

- Eu posso ir no lugar dele. – havia um tom de desafio na entonação de Vincenzo – O senhor só teria a lucrar com tal troca, papá. Estaria trocando a companhia de um reles empregado pelo seu filho.

Um sorriso irônico surgiu nos lábios de Benito e ele não poupou o caçula daquela incômoda verdade.

- Você não pode substituir o Romeo nesta missão. Temo que não possa substitui-lo em função alguma, Vincenzo.

Normalmente, Benito não costumava alimentar a enorme rivalidade entre Romeo e Vincenzo. Os dois, por terem a mesma idade, sempre foram vítimas de inevitáveis comparações. Quando crianças, os impasses eram resolvidos com tapas e pontapés. Mas o passar dos anos fez com que a língua de Vincenzo se tornasse mais afiada que qualquer golpe físico. Oficialmente, Romeo continuava sendo filho de um casal de empregados da mansão Agostini. E o caçula de Benito aprendeu que seu melhor ataque era tratar o bastardo com a superioridade que sua condição de filho legítimo lhe fornecia.

- O Romeo não merece um centésimo do apreço que tem por ele, papá. Esta missão só vai reforçar o quanto Romeo é incompetente fora da casca de proteção dos Agostini! Esta missão vai condená-lo!

- Ou vai consagrá-lo. – pela primeira vez, Cecilio despertou o orgulho do pai com aquelas palavras – Grandes desafios revelam grandes perdedores, mas também consagram grandes vitoriosos. Eu sinceramente espero que Romeo obtenha sucesso. Afinal, é a nossa família que está em jogo.

- Isso finaliza o assunto. – Benito apontou o primogênito – Hoje, você irá comigo à reunião, Cecilio. Quanto a você, Vincenzo, creio que sua presença seja mais útil no cassino. Há papeis demais nas gavetas, confio que você não gastará mais que uma tarde inteira para arquivar os documentos mais importantes.

-----

Como de costume, Salvatore estava muito sério quando sua entrada no escritório do patrão foi autorizada. O chefe da segurança entrou sozinho e saudou Lorenzo com um respeitoso menear de cabeça.

- O que me diz...? – Don Lorenzo fixou os olhos em seu homem de confiança.

Salvatore não precisou de mais palavras para entender o que o patrão desejava saber. Desde a última morte trágica de um dos seguranças pessoais do mafioso, Salvatore entrara numa busca incessante por alguém que pudesse assumir aquele cargo.

- Pareceu-me adequado, mas só o tempo dirá. Ele passou em todos os testes. É extremamente habilidoso com armas, já esteve uma temporada no exército. Não parece ter nenhuma ligação na cidade, menciona apenas uma mãe e uma tia que moram no norte do país. Eu o segui por alguns dias e a única falha que encontrei foi um péssimo desempenho em jogos de azar. – um sorriso maldoso surgiu nos lábios de Salvatore – Acho que será muito fácil tirar dinheiro dele nas cartas.

- Eu quero conhecê-lo.

O chefe da segurança acenou com a cabeça e recuou alguns passos até a porta do escritório. Com um olhar sério, Salvatore convidou o outro homem a entrar. Lorenzo se ajeitou melhor em sua poltrona enquanto analisava friamente o rapaz que surgia a sua frente, já trajando o terno usado pelos seguranças dos Romazzini.



Jovem. Mas o mafioso sabia bem que a pouca idade não era definidora da habilidade necessária para aquele trabalho. Traços bonitos, uma boa altura, um corpo saudável. Não havia medo no olhar do rapaz, talvez apenas uma indisfarçável curiosidade. E isso fez com que o candidato ganhasse vários pontos com o possível futuro patrão. Lorenzo preferia ser respeitado a ser temido.

- Seu nome? – a voz do mafioso ecoou pelo escritório.

- Campanaro.

Os olhos de Lorenzo se estreitaram e sua voz soou mais áspera.

- Se deseja fazer parte da minha família, será chamado pelo primeiro nome.

- Eu ainda não fui aceito como parte da família. Mas o nome que deseja é Romeo.

- Romeo. – Lorenzo repetiu, satisfeito por ver que não era fácil intimidar o rapaz – Se o que te falta é um comunicado oficial, eu lhe digo que agora fazes parte da minha família. Você e Salvatore sairão comigo agora. Tenho menos de meia hora de prazo antes do jatinho pousar, Salvatore, então não percamos mais tempo.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Ter Nov 17, 2015 7:09 pm

O confortável jatinho da família era silencioso e extremamente potente. O piloto e o copiloto eram os melhores da companhia área que a família havia adquirido, graças ao casamento de Antonella. Eles sabiam ser discretos e eram perfeitos. O jatinho não sofria nenhum abalo e mesmo quando, eventualmente, encontravam uma turbulência, não havia receio que nada de ruim acontecesse.


As duas passageiras do voo comercial se encontravam no mais absoluto silêncio. Não porque não gostassem da companhia uma da outra, pelo contrário, mas porque sempre que alcançavam as nuvens e se aproximavam mais do Divino, elas mergulhavam em seus próprios pensamentos.

Isadora não gostava de sentar perto da janela quando sabia que eles cruzariam o mar. Tão logo ela viu que o mar se aproximava, ela fechou a cortina de sua janela e virou a cabeça para o interior do lugar, observando sua tia.

Tia Antonella sempre foi mais do que uma tia. Era uma referência materna, uma figura de segurança e apoio incondicional. As pessoas se enganavam por conta da postura séria e autoritária que ela tinha. Ela geralmente se comportava assim para o mundo, mas para a sua famiglia, revelava sua verdadeira face de leoa protetora.

Isadora simplesmente a adorava e a achava a mulher mais linda do mundo.

Antonella tinha 46 anos. Assim como Isadora, ela era a caçula, mas não de três e sim cinco filhos. Lorenzo e Antelo eram os gêmeos mais velhos, mas depois deles também existiram dois irmãos que cedo demais partiram. Antonella era a única menina. Parecia existir um pacto na familia que eles deveriam parar de ter filhos quando a primeira menina nascesse. Pelo menos era a piadinha que Antonella fazia para Isadora.



As caçulas se entendiam.

E mesmo tendo quase meia idade, a mulher era belíssima. Seu cabelo mudava de cor constantemente, mas as fotos antigas revelavam que era loira, loiríssima. E tinha os olhos azuis celeste dos irmãos. A pele tinha as marcas de expressão, por conta da idade, mas ela sabia se maquiar como poucas, além de cuidar da alimentação e do exercício.

A única particularidade da mulher era que ela sempre se vestia de preto. Independente da ocasião, a sua roupa era preta. As roupas dela sempre eram elegantes e feitas sob medidas ou presente de amigos estilistas. Por um tempo, ela fez parte do mundo da moda, dos bastidores, desenhando sapatos, mas se aposentou na mesma época que passou a usar apenas preto.


Apesar da familia influente de seu irmão, ela vivia da renda de seu falecido marido: uma companhia aérea que fazia voos dentro e fora da Italia.

Isadora tombou um pouco a cabeça em sua almofada e Antonella virou o rosto na direção da sobrinha.

- Entediada, principessa?

Perguntou com certo humor enquanto fechava a revista em seu colo.

- Um pouco cansada, apenas.

Isadora respondeu num tom de voz ligeiramente rouco de sua voz.

- Hm. Estamos quase chegando, nem vale a pena tentar cochilar um pouco.

- Eu sei... – Isadora deu um sorrisinho.

- Está com saudades de casa?

- Sim, muitas. Será que o papai estará lá?

- Quem sabe?

Antonella desviou o olhar e Isadora suspirou. Era obvio que Lorenzo estaria lá para recepciona-las, isso era bastante típico dele. Mas sempre era bom ver a surpresa no rosto de Isadora.

(...)

Os três chegaram até o aeroporto da Sicilia e estavam esperando na própria pista do desembarque. Havia mais dois carros de segurança, cobrindo a área, mas tudo parecia sob controle.

Logo o jato pôde ser visto no céu até que pousou e fez aquele contorno pela pista.

Salvatore estava bastante sério e fazia sinal para que os funcionários cumprissem suas obrigações. Ele realmente parecia gostar de mandar e que tudo saísse conforme ele planejava. Era quase sistemático com isso.

A equipe estava interligada por discretos comunicadores.

Antonella foi o primeira a descer as escadas. O cabelo loiro estava preso num coque banana e ela usava um vestido tubinho preto e sapatos louboutin exclusivos para ela. O óculos escondia seu rosto, mas a expressão dela era de poucos amigos, como de costume.

Esperou por Isadora enquanto ajeitava suas luvas.

Isadora estava o oposto de sua tia. Era uma jovem que não chegava a vinte anos de idade. O cabelo estava preso com duas tranças laterais que se encontravam e prendiam numa presilha, dando mais delicadeza aos cachos de seu cabelo. O vestido era azul bebê, marcando sua cintura fina e com uma saia que tinha um suave balanço conforme ela andava. O vestido era sem mangas e o decote era coração. No pescoço, um pingente de um relicário de ouro branco. O sapato era nude, de salto.


Usava óculos escuros também, mas trazia um sorriso ao rosto, agradecendo aos funcionários pela viagem que fizeram.

Lorenzo deu um longo suspiro, cheio de orgulho pelas figuras que estava vendo. Antonella também agradecia de modo mais contido e logo indicou Lorenzo para Isadora.


Isadora abriu ainda mais o sorriso e acelerou os passos até os rapazes.

- Papa!!!!!

Ela o agarrou e Lorenzo chegou a tirá-la do chão. Ele também antecipou-se, aproximando-se dela, esperando que ela completasse o caminho.


Era uma cena bastante bonita e era inegável o quanto aquele homem, um dos mais temidos do submundo, adorava aquela garota que mais parecia um anjo. 

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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Ter Nov 17, 2015 7:41 pm

Por mais que conhecesse a caçula dos Romazzini por fotos, Romeo Campanaro perdeu a voz quando seus olhos capturaram a imagem da moça saindo do jatinho. Isadora era o retrato da delicadeza, parecia saída de um sonho. Era difícil acreditar que nas veias dela corria o sangue de um temido mafioso.

O encontro entre pai e filha também foi uma cena única. Era totalmente inesperado ver Don Lorenzo Romazzini completamente indefeso e derretido. Não havia dúvidas do quanto ele amava a caçula. Diante de Isadora, Lorenzo em nada parecia com o mafioso que controlava boa parte daquela cidade com mãos de ferro.

- Fizeram boa viagem? – Lorenzo dividiu a pergunta entre a filha e a irmã.

- Razoável. – Antonella ainda ajeitava as luvas, mas não negou um abraço ao irmão – Estou um pouco cansada, podemos ir? Como vai, Salvatore?

- Tudo bem, signora.

Antonella tinha uma postura séria e rígida, mas assim como Lorenzo conhecia a importância de tratar bem os subordinados. Os funcionários mais antigos eram sempre chamados pelo nome, como se realmente fizessem parte da família Romazzini.

- Este eu não conheço. – a mulher puxou os óculos escuros para baixo e encarou o novato com interesse por cima das lentes.

- Romeo. – Lorenzo tratou de fazer as apresentações – É o primeiro dia dele, então pegue leve com o rapaz...

- Seja bem-vindo à família, Romeo. – nem Antonella saberia explicar a simpatia gratuita que sentira pelo novato. – Pode cuidar da minha bagagem?

- Agradeço, signora. – Romeo se inclinou para pegar a bolsa da mulher – É claro. O carro está logo ali.

Guiados pelos dois seguranças, o grupo se encaminhou até o luxuoso carro parado na pista dos aviões. Aquela era uma rara cortesia, fornecida apenas a homens como Don Lorenzo Romazzini.

Indicando que realmente estava ansiosa para chegar em casa, Antonella foi a primeira a entrar no carro. Romeo se encarregou de guardar as bagagens no porta-malas enquanto Salvatore dispensava os outros carros através de um rádio comunicador. Agora que o jatinho havia pousado, não parecia haver grandes riscos. O caminho de volta até a mansão dos Romazzini era breve e tranquilo, dois seguranças bastariam para garantir o conforto da família.

Tudo aconteceu muito rápido, mas Romeo teve a nítida impressão que as cenas se sucediam numa angustiante câmera lenta.

Um tiro ecoou de longe, mas a arma era potente o bastante para fazer com que o projétil alcançasse o grupo de Romazzini. Antonella, a única que já estava dentro do veículo blindado, soltou um grito agudo quando a bala ricochetou no vidro, trincando-o, e puxou o braço do irmão para dentro do carro.

Lorenzo jamais se protegeria sem antes garantir a segurança da filha, mas seu novo segurança foi mais rápido que o mafioso. Antes que Don Lorenzo pudesse mover um músculo na direção de Isadora, Romeo já se colocava diante da jovem e a empurrava, sem muita delicadeza, pela porta traseira do carro.

A moça caiu violentamente no banco, mas a tia ajudou Isadora a se recompor. Lorenzo também se jogou rapidamente dentro do veículo e berrou a ordem para que os dois seguranças os tirassem logo dali.

Antes que Salvatore pudesse cumprir a ordem do patrão ou chamar ajuda pelo rádio, novos tiros ecoaram pelo local descampado onde o jatinho da família havia pousado. Antonella estava histérica no banco de trás do veículo quando os dois seguranças ocuparam os dois bancos dianteiros, Salvatore no volante e Romeo ao seu lado. O pânico da mulher se quadruplicou quando, junto com a entrada dos dois homens, o interior do carro recebeu também um forte cheiro de sangue.

- Saia já daí!

A ordem veio dos lábios do novato. Como não havia tempo a perder, Romeo puxou Salvatore bruscamente para o lado e ocupou o banco do motorista. Lorenzo achou que tudo estava acabado quando viu que o cheiro de sangue vinha de Salvatore. O chefe dos seguranças comprimia a barriga com uma das mãos, mas nem isso evitava que uma quantidade absurda de sangue escapasse por entre os seus dedos pálidos.

Os pneus do carro cantaram quando Romeo acelerou e iniciou uma fuga em alta velocidade. Alguns disparos ainda atingiram o carro blindado, mas sem causar maiores danos aos seus ocupantes. Aquela poderia ter sido a salvação do grupo se, pelo retrovisor, Salvatore não tivesse visto que uma moto os seguia na pista, ocupada por dois homens que cobriam o rosto com toucas pretas.

- Vão nos alcançar! – a voz do segurança soou fraca e, mesmo ferido, Salvatore teve forças para sacar uma arma. Se ele morreria naquele dia, seria lutando até o fim.

- Não vão. – Romeo afundou ainda mais o pé no acelerador, arrebentou uma cerca de proteção do aeroporto e fez o carro girar até atingir a estrada mais próxima.

No banco traseiro, Lorenzo também sacou uma pistola do bolso interno de seu paletó e a destravou. O mafioso também estava disposto a tudo para impedir que algo ruim acontecesse a Isadora e Antonella. Ele morreria feliz com a certeza de que sua família ficaria bem.

Um palavrão escapou dos lábios de Salvatore quando Romeo manteve o pé no acelerador durante uma curva mais fechada, fazendo com que dois dos pneus do carro perdessem o contato com o chão. Por muito pouco, não houve um capotamento.

- VAI NOS MATAR, SEU GRANDE IMBECIL!

O carro potente estava praticamente voando pela estrada vazia, mas sua velocidade não podia ser comparada à leveza da motocicleta, que estava cada vez mais próxima. Um tiro no vidro traseiro do veículo indicou que os Romazzini não conseguiriam ir longe demais. Naquela velocidade, um disparo num dos pneus poderia ser mortal.

- Segure o volante... – Romeo se virou para Salvatore, sério.

- QUEEE?

- AGORA!

Salvatore não teve muita alternativa quando viu o novato simplesmente soltar o volante. Um novo palavrão foi bradado dentro do carro em movimento quando o motorista se esticou e abriu o teto solar.

- O QUE VAI FAZER??? – Lorenzo berrou no banco traseiro, ensandecido – SALVATORE, O QUE ELE ESTÁ FAZENDO???

A resposta veio de Romeo. Num movimento habilidoso, o segurança tomou a pistola de Salvatore e a empunhou enquanto colocava o tronco para fora do veículo. Antes mesmo que os ocupantes da motocicleta pudessem mirar a cabeça do rapaz, Romeo fez um disparo certeiro no peito do piloto, que perdeu o controle da moto. Os dois perseguidores rolaram várias vezes pelo asfalto antes de se tornarem pontos pequenos que sumiam no horizonte.

- FICOU LOUCO? – Lorenzo estava rouco quando o motorista retornou ao banco e recuperou o controle do volante – O QUE PENSOU QUE ESTAVA FAZENDO?

- Eu estava salvando a sua pele, Don Lorenzo. Mas dispenso agradecimentos. Não fiz nada além do meu trabalho.

- Salvatore precisa de um hospital! – Antonella soluçava de desespero, a adrenalina ainda correndo em altas doses em suas veias.

- Deixe-os em casa primeiro. – a ordem de Salvatore foi dirigida ao novo segurança – Eu posso esperar mais alguns minutos.

- Tem certeza, Salvatore? – Romazzini soou sinceramente preocupado.

- Não se preocupe, signor. A segurança delas é a nossa prioridade aqui, não?

Por mais que se preocupasse com Salvatore, Lorenzo não foi capaz de contrariar a ordem do segurança. Se o mafioso estivesse sozinho no carro, sem dúvida a primeira parada deles seria no hospital mais próximo. Mas o bem estar de Antonella e Isadora estava acima de qualquer coisa. Somente na mansão Romazzini as duas estariam totalmente livres de um novo ataque.

- O que está achando do seu primeiro dia, novato? – Salvatore tentou brincar para suavizar o clima do carro.

- Preciso de um drinque. – Romeo entrou no clima da brincadeira – Ou talvez de uma garrafa inteira.

- Espere até que costurem a minha barriga e iremos juntos. Não quero desperdiçar nenhuma gota.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 10:31 am

Isadora estava agarrada ao pescoço do pai enquanto recebia aquele caloroso abraço. Eles não se viam há um mês. Era normal que Don Lorenzo estivesse tão saudoso de sua preciosa princesa. E ela também sentia muita falta de seu pai. Lorenzo afastou-se, segurando o rosto dela com as duas mãos e deu um longo beijo em sua testa.


A jovem meneou positivamente para a pergunta de seu pai e voltou o olhar para os outros.

Primeiro repousou em Salvatore, cuja figura era simplesmente impossível de não ser vista, alto e grande daquele jeito. Isadora sorriu de novo e sempre rompia aquelas formalidades quando o abraçava carinhosamente. Ela teria idade para ser filha dele – como ele provavelmente tinha por aí, de sua época jovem despreocupado.

- Salvatore!! Eu trouxe chocolate pra você!!

O homem corou um pouco, mas logo deu uma risada e acariciou a cabeça dela.

- A trufa?

- Essa mesma.

- Oh sim. Talvez eu pisque um olho quando você tentar fugir de casa...

- Oras!! Eu nunca faria isso!!

- Claro que não.  – Disse de modo divertido, mas logo ficou sério e a encarou fixamente. – Não mesmo.

A morena deu um sorrisinho e voltou o olhar para o novo segurança quase ao mesmo tempo em que sua tia falava dele. O sorriso de Isadora falhou por um segundo, deixando as bochechas levemente coradas. Deu para sentir quando o coração bombeou o sangue um pouco mais rápido e ela ficou um pouco sem graça, fora do prumo. Não era só a beleza dele, era...

Ela sorriu de novo.

- É um prazer...Seja bem-vindo.

Tia Antonella logo seguiu em frente. Lorenzo levou a mão até a cintura de sua filha e começou a conduzi-la na direção do carro. Salvatore fazia os ajustes pelo rádio e Romeo ficava encarregado da mala.

Isadora perguntava sobre seus irmãos e Lorenzo apenas dizia que estavam bem, mas Pietro estava encrencado. Ele estava abrindo a porta para que ela entrasse e parecia tudo bem, até que o cenário ficou lento e rápido demais ao mesmo tempo.

O vidro do carro trincou e Isadora apenas arregalou os olhos enquanto Lorenzo era engolido pelo carro, porque Antonella o puxava no impulso.

Isadora estava em estado de choque e virou a cabeça lentamente na direção dos tiros, mas antes que pudesse fazê-lo, houve outra visão em seu caminho. O novo segurança simplesmente a agarrou e enfiou de qualquer jeito no carro.

Apesar da adrenalina de todos estar no pico, assim que ela sentiu o cheiro de sangue dentro do carro, Isadora – que já estava num estado de choque – afundou ainda mais em seus traumas.

Literalmente.

Lorenzo a fez se abaixar, para que se protegesse, mas Isadora já estava encolhida, com as mãos nos ouvidos e prendendo a respiração com força, como se aquele fosse todo ar que ela teria por um tempo. Os olhos estavam fechados.

Os gritos ecoavam dentro do carro, bem como os tiros, mas eram outros sons que ela ouvia.

Era o som de gritos e a explosão. Sua mãe já tinha percebido que havia algo errado e tinha ido pegar o colete quando tudo explodiu e Isadora foi uma das crianças a serem lançadas no mar.

Morrer queimado ou afogado? Qual é a pior forma de morrer?

O desespero fazia com que ela não conseguisse nadar direito, querendo a mãe, querendo sair dali. Com medo da superfície vermelha.

Ela emergia e afundava de novo, com a visão cada vez mais embaçada.

E quando estava quase perdendo a consciência, ela sentiu outro corpo mergulhando e puxando para a superfície. Colocou as boias nela e depois de tossir um pouco, ela abriu os olhos e viu sua mãe. Ela tinha um ferimento no rosto, mas Isadora não conseguia ver o resto do corpo da mãe.

A mãe sorria com muito esforço enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Ela dizia que a amava muito. Amava todos os três.

Isadora não percebeu como a coloração da água foi ficando mais vermelha, pelo menos ao redor delas. Ela desmaiou pelo esforço e cansaço e aquela tinha sido a ultima vez que ela vira sua mãe viva.

Lorenzo só percebeu o estado de choque de Isadora depois que Salvatore fez a última brincadeira. Ele olhou aflito para a filha que tremia em seus braços. Somente então ele percebeu que Isadora não tinha dado nenhum grito ou se mostrado nervosa como era esperado. Ela entrava em choque.


O pai a puxou de novo e a colocou apoiada em seu peito.

- Respira, Isadora....Solte o ar....

As lágrimas escorriam pelo rosto dela e um soluçou a dominou.

Antonella encarava aquela cena bastante aflita e apenas encarou o irmão. Ele precisava contar a verdade a ela e ensiná-la a se defender.

- Ligue para o médico, Antonella. Quero que ele esteja nos esperando em casa para cuidar do Salvatore.

Antonella sacou o telefone, ainda encarando o irmão. Lorenzo desviou o olhar e focou-se em trazer sua filha de volta. A jovem continuou conseguiu se recompor, mas apagou. Quando eles chegaram até a mansão, o pai a carregou nos braços, protegendo com o seu blazer para que ela ficasse menos exposta possível.


O médico da família chegou poucos minutos depois, trazendo os equipamentos necessários, além de seguir para a “enfermaria” da casa. Quanto menos explicações eles davam, melhor. Hospitais eram usados apenas em casos extremos.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 11:01 am

Após a chegada agitada na mansão dos Romazzini, a propriedade mergulhou no mais profundo silêncio. Isadora foi levada para o quarto pelo pai e Antonella seguiu os passos do irmão, embora estivesse muito preocupada com Salvatore. O médico da família já estava a postos para prestar socorro ao chefe dos seguranças, mas a palidez exibida no rosto do homem quando Romeo o puxou para fora do carro mostrava que, talvez, o problema não poderia ser resolvido na “enfermaria” dos Romazzini.

Cerca de meia hora após a chegada do carro, o médico recebeu autorização para entrar no quarto de Isadora. A garota estava melhor, já acordada, mas ainda em estado de choque. Por mais que vivesse naquele meio, Isadora era muito protegida pelo pai. A violência não costumava chegar tão perto da garota.

- E Salvatore? – Lorenzo foi direto ao ponto, sem soltar a mão gelada de sua menina.

- Eu consegui estabilizar a situação, mas infelizmente não pude evitar uma transferência. A julgar pela lesão, ele vai precisar de uma cirurgia para controle da hemorragia. Já entrei em contato com a clínica particular de um velho amigo, que aceitou o caso sem fazer muitas perguntas.

- Ótimo. Faço questão que ele receba o melhor atendimento, sem restrições.

- Quanto ao outro rapaz, a bala o atingiu apenas de raspão. Só precisei dar três pontos e fazer um curativo...

- Romeo? – as sobrancelhas de Lorenzo se ergueram – Romeo também foi atingido?

- Sim. Um tiro de raspão no ombro esquerdo...

Lorenzo sentiu o estômago afundar quando se lembrou das cenas do aeroporto. A cabeça de Isadora estava há centímetros do ombro esquerdo do segurança quando Romeo empurrou a menina para dentro do carro. Se não fosse pela interferência do novato, aquela bala poderia ter atravessado a testa de sua princesa.

O olhar aflito de Antonella mostrava que pensamentos semelhantes povoavam a cabeça da mulher. Inconscientemente, ela abraçou a sobrinha com mais firmeza, como se quisesse ter certeza que Isadora estava com eles, inteira, viva.

- Quem...? – a mulher sussurrou a pergunta depois que o médico se retirou do quarto.

- Não sei.

A resposta de Lorenzo foi breve, mas sincera. Um homem poderoso como ele colecionava inimigos. Havia muitos candidatos a culpados por aquele ataque. Podia ser desde um cliente insatisfeito com alguma negociação até algum chefe de estado influente prejudicado por uma guerra civil financiada pelas armas do mafioso. Contudo, uma hipótese nunca podia ser descartada. Uma sombra cobriu os olhos de Lorenzo enquanto o mafioso completava.

- Realmente não sei, mas é a típica situação que leva a assinatura dos Agostini. Eu vou averiguar cada detalhe até chegar à resposta, Antonella. E eu juro que não vai ficar assim. Se foi um dos Agostini, eles logo entenderão que é um erro grandioso envolver a minha filha nos meus negócios.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 12:42 pm

Lorenzo estava espumando de raiva ao dizer aquelas palavras. Logo ele acariciou o rosto de Isadora, afastando um pouco o cabelo do rosto dela. Os olhos da jovem estavam abertos, mas o olhar ainda estava um pouco distante. Não estava ouvindo aquela conversa, pois estava em choque ainda. Atualmente, bastava um pouco de descanso para que ela voltasse ao normal, mas essas crises quando ela era apenas uma criança precisaram de longas sessões de tratamento.

Eles não gostavam nem de lembrar dessa época. Evitaram os remédios de toda forma possível, pois ela era muito pequena para tanta química, mas Lorenzo sempre adotou uma postura mais passiva em relação à menina.

Não era apenas por ser a caçula, mas por ser uma das poucas sobreviventes daquela tarde.

Havia uma certeza dentro deles que Isadora tinha visto mais do que já tinha explicado. No entanto, a garota se torturava tanto com aquelas imagens que o próprio Lorenzo desistiu de chegar a uma resposta definitiva. O que adiantaria ter vingança, se a sua menina poderia nunca mais retornar à sua sanidade?

Por isso que ele também preferiu afastá-la da violência que eles realmente viviam. Isadora não sabia os reais assuntos de sua familia, acreditando apenas na parte da lei. Diferente dos irmãos e de Antonella – que desde pequena sabia que o pai era um dos maiores criminosos do submundo – Isa não sabia mesmo.

Não era a primeira vez que Antonella o alertava sobre isso. Ela queria que Isadora aprendesse a atirar e a se defender. Uma garota como ela, não podia depender sempre de seguranças. Fora que também seria uma reação diferente dos bloqueios que vira e mexe ela tinha, Lorenzo empurrava aquilo, ainda preferindo que Isadora tivesse uma visão boa do mundo, mas ele precisava concordar que ela deveria ser “iniciada”.

Era a única forma dela conseguir ter uma vida normal, de verdade. Pois nesse caso, ignorância não era uma benção.

- Vou começar a averiguar isso imediatamente. Fique com ela, Antonella.

- Você nem precisava dizer...

Lorenzo levantou-se, abandonando o quarto. O mordomo Raoul já estava esperando por ele.

- Dados, Raoul...

- Sim, Don Lorenzo. Retiramos as balas que estavam no carro e ele já foi encaminhado para o conserto. Os peritos vão identificar que tipo de munição era aquela para chegar até a arma que usavam. Dependendo do modelo, poderemos triangular os principais pontos de venda para chegar até o comprador, nosso meliante.

- Ainda é muito pouco. E o sistema de segurança do aeroporto?

- Estão nos enviando.

- Eles se recusaram a isso?

- Enzo está tentando abafar o tiroteio, Senhor.

Lorenzo parou de andar, dando um longo suspiro.

- Num local que era para ser seguro, um local onde eu confio que o jato particular de minha irmã pouse, eu sou atacado por inimigos. Minha filha quase foi baleada na cabeça, mas foi salva pelo novo segurança. E você acha que eu estou preocupado em abafar o tiroteio?

Cerrou os olhos, encarando Raoul.

- Assim que eles me derem as imagens de segurança. E eles vão me dar, porque eu não estou pedindo, eu estou mandando, eu quero que assaltem as lojas de conveniência do aeroporto e destruam todos os produtos, faça parecer grandioso enquanto outro grupo rouba combustível dos aviões.

Lorenzo ponderou por mais um instante.

- Não...Deixa que façam. Eles vão encaminhar para a polícia e eu quero que caia nos policiais do Agostini. Se ele ousar embarreirar a minha investigação, saberei que foi ele e terá volta.

Um sorriso sádico apareceu nos lábios dele.

- Apenas roube o combustível dos aviões. Apesar de me ajudarem com essa demora, eu quero que eles entendam que não é pra pensar quando a vida da minha filha entra em risco. E chame Romeo para o meu escritório. Agora, por favor, Raoul.

- Providenciarei tudo, senhor.

(...)

O liquido âmbar fazia aquele gostoso som ao se encontrar com o gelo dentro dos dois copos quadriculares. O próprio Don estava servindo o novo empregado. Colocou em frente a Romeo e deu a volta até sua mesa.

Lorenzo deu um gole em sua bebida, olhando para a praia aparecendo entre as cortinas, mas logo sentou-se em sua confortável cadeira e encarou Romeo.

- Até onde você deseja chegar na vida, Romeo? Quão longe você quer chegar?
Parecia uma pergunta estranha, mas Lorenzo não tinha palavras para agradecer pelos pontos que ele tinha acabado de receber no ombro.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 2:56 pm

Em um ponto, Romeo Campanaro concordava plenamente com Don Lorenzo Romazzini. Aquele ataque parecia carregar a assinatura dos Agostini. O novo segurança do mafioso conhecia melhor do que ninguém os modos de atuação da outra família. Uma emboscada muito boa fora armada no aeroporto, sinal de que o mentor daquele ataque tinha influência. Armas potentes foram usadas no tiroteio. O inimigo sabia exatamente o dia e a hora do pouso do jatinho dos Romazzini...

Só um detalhe deixava Romeo inquieto. Ele não fora avisado sobre o ataque. Ao contrário, ele se viu no meio do tiroteio e foi atingido. Unicamente por sorte, não fora vítima de um disparo fatal. Benito jamais iria expor Romeo a isso. Cecilio nem teria capacidade para armar tal plano. Restava, portanto, o nome de Vincenzo. Era bem plausível que Vincenzo decidisse unir o útil ao agradável. Um ataque contra os Romazzini que, “acidentalmente”, culminaria com a morte do irmão bastardo a quem ele tanto odiava.

Romeo foi despertado daqueles devaneios quando Raoul se materializou a sua frente. O mordomo abriu um meio sorriso antes de tomar a palavra.

- Don Lorenzo solicitou a sua presença no escritório.

O novo segurança ainda estava sentado sobre uma das macas da enfermaria, sem a camisa, com uma faixa cobrindo o ombro esquerdo. Uma discreta mancha de sangue coloria o tecido branco, mas Romeo não fez mais que uma breve careta enquanto recolocava a camisa e fechava os botões com a mão direita.

- Você tem sorte, garoto. Não gastou mais que algumas horas para conquistar o patrão.

- Eu só fiz o meu trabalho, Raoul.

- Você salvou a menina Isadora. Peça qualquer coisa a Don Lorenzo e será atendido.

- No momento, não quero nada além de um analgésico e uma dose de bebida, Raoul. Mas obrigado pelo conselho.

Como se pudesse prever o desejo do segurança, Lorenzo serviu ao rapaz naquela tarde uma generosa dose de seu whisky mais caro. Os olhos de Romeo acompanharam o líquido valioso se acumulando entre as pedras de gelo e ergueu os olhos para o mafioso depois que Romazzini terminou de servi-lo.

Sentado em frente à suntuosa mesa do mafioso, Romeo parecia estar intrigado com toda aquela atenção. Por dentro, contudo, sua mente afiada já articulava o próximo passo daquele perigoso plano de seduzir o pior inimigo do homem a quem ele realmente era fiel.

Um passo em falso e sua máscara cairia. Mas Romeo estava certo de sua capacidade de enganar um dos homens mais inteligentes de toda a região. Lorenzo nunca imaginaria que o sangue dos Agostini corria nas veias do segurança que salvara o seu mundo naquele dia.

A pergunta vaga de Lorenzo ecoou no silêncio do escritório. Romeo manteve os olhos fixos no mafioso antes de afastar a sua atenção para o copo de whisky. Os cantos das unhas do rapaz ainda estavam sujos de sangue ressecado quando seus dedos giraram a bebida no copo, fazendo o gelo se chocar contra as paredes do cristal. A resposta só veio depois de um generoso gole da bebida, que desceu queimando a garganta do segurança.

- Desde muito cedo, eu aprendi que a justiça é um conto de fadas no qual apenas os tolos acreditam. Vi meu pai morrer injustamente nas mãos de policiais. Um defensor público foi designado para o caso e nenhuma das provas foi suficiente para que o Estado assumisse a responsabilidade por este erro.

Os olhos de Romeo novamente buscaram pelo rosto do mafioso. Sua voz soava baixa, mas firme. A expressão intensa do rapaz contribuía para que aquela mentira parecesse ainda mais convincente.

- Isso me fez concluir que a justiça não existe. Ou, ao menos, não funciona para todos. Por isso eu decidi fazer a minha própria justiça. Sei que homens como o senhor pensam da mesma maneira e seguem as próprias regras. É por isto que estou aqui.

O rapaz deu mais um gole na bebida antes de completar.

- Lá fora, eu sou apenas mais um na multidão, não passo de um número para o Estado. Aqui, eu tenho uma família, alguém que zelará por mim. Prefiro as leis de homens como o senhor do que as leis do Estado. Aqui não há distinção. Aqui eu sou chamado pelo nome.

Depois daquela breve explanação, Romeo finalmente respondeu de forma mais direta à pergunta feita por Lorenzo.

- As minhas pretensões certamente são modestas para o julgamento de um homem como Don Lorenzo Romazzini. Eu desejo fazer parte desta família, contar com a sua proteção e com a sua confiança. Quero receber uma recompensa justa pelo meu trabalho e garantir que a minha mãe viúva nunca mais tenha que depender de caridade.

Uma pequena pausa precedeu o final do discurso de Romeo.

- Eu quero conquistar o meu lugar na sua família, signor. Não quero a sua gratidão por um ato isolado, por mais valiosa que tenha sido a minha conduta hoje. Desejo a chance de mostrar que sou digno do seu apreço e que repetiria os atos desta manhã quantas vezes mais forem necessárias.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 6:28 pm

O escritório foi palco do discurso de Romeo. Ele teve todo o tempo do mundo para se expressar e ser avaliado por Lorenzo. O Don não era tolo, se fosse um homem tolo, ele não teria herdado o império de seu pai e aumentado os lucros.

Seguranças novos sempre precisavam de um bom filtro para que não fosse ninguém infiltrado ou coisa do tipo. Ele tratava todos pelo nome, não por números ou sobrenomes, mas deixava uma barreira erguida até que pudesse confiar plenamente. Por isso era importante avaliar o discurso de uma pessoa e as mensagens que seu corpo passava.

No entanto, ele também precisava reconhecer que mesmo um ato isolado, o poupou de um grande sofrimento e o inicio de uma guerra na Sicilia. Porque ele não perdoaria nem sossegaria até ver todas as ruas cobertas de sangue, caso alguma coisa acontecesse com sua filha.

E, novamente, Romeo o surpreendia com suas palavras.

Lorenzo seu um último gole em seu whisky.

- Não são pretensões modestas, Romeo.

Disse simplesmente, recuando um pouco mais, se encostando na cadeira e colocando as mãos nos braços da cadeira.

- Família, proteção e confiança são as coisas mais caras do mundo. Mas me satisfaz ouvir e perceber que você não considera a vida de minha filha um bem, mesmo que pudesse pedir o que quisesse e eu daria, de bom grado, dentro das possibilidades.

Suspirou.

- Pois bem. Você terá todas as chances ofertadas aos outros seguranças para conquistar o seu lugar nessa famiglia. Nós realmente formamos uma. Mas...O seu trabalho será um pouco mais diferente dos outros.

Voltou a se sentar.

- Esse trabalho é capaz de combinar tudo o que você deseja. Eu posso adotá-lo como um filho, protege-lo como um e confiar a segurança de minha familia a você, mesmo que você também faça parte da minha. Eu quero que você seja o segurança particular de Isadora, mas não apenas isso, eu desejo que você seja o seu tutor.

Mexeu em seu copo, o gelo escorregando e fazendo barulho.

- Salvatore faria o trabalho se eu pedisse, mas eu quero dar a chance a você. Depois de hoje, acho mais do que merecido. Talvez você tenha percebido que Isadora é uma jovem...frágil, por assim dizer. Ela não faz ideia da vida dupla que nós levamos, porque eu a poupei da verdade depois que ela sobreviveu a um atentado. Quis proteger minha filha da melhor forma que pude, mas isso não basta mais. Ela precisa entender porquê, às vezes, coisas ruins acontecem conosco.

Encarou Romeo com aqueles olhos extremamente azuis, tão azuis que pareciam perfurar a alma.

- Não estou mandando que você conte a verdade a ela. Não. Mas eu vi sua ficha e sei que você é versado em defesa pessoal, serviu nas forças armadas e pudemos ver que é perito em armas de fogo. Ensina minha filha a se defender com as mãos vazias ou com armas brancas ou fogo. E seja a sombra dela. Sei que pode ser um trabalho um tanto quanto ingrato, em alguns momentos, porque minha filha não tem uma vida muito tumultuada ou agitada. É bem regrada, por opção própria, bem verdade. Mas...É o trabalho que fará com que alcance o que deseja, mais rápido do que normalmente conseguiria. Caso vocês tenham algum problema de adaptação, não terei problemas em muda-lo de área.

Deu um longo suspiro ao final.

- O que me diz?

(...)

- O que me diz?

Antonella perguntou algumas horas depois, acariciando os braços de Isadora.

- Eu estou um pouco cansada ainda...

- Mas são apenas 16h. Podemos passear no Shopping, ver se chegaram novos pinceis e lápis pros seus desenhos...Comer no bistrô...

A tia tentava anima-la, mas Isadora continuava deitada onde estava, apenas a encarando.

- A senhora realmente não vai desistir, não é?

- Não. E veja, é o dinheiro do seu pai, nem é o meu. Vamos? Você estava morrendo de saudades da Sicilia. Vamos! E ainda voltamos a tempo de jantar com seus irmãos e seu pai.

- Tudo bem tia...Eu vou.

- Ótimo. Arrume-se. Eu vou preparar o carro...

Isadora concordou e sentou-se na cama enquanto a tia saía porta a fora para ver o que tinha comentado. A morena deu um pequeno suspiro e foi até seu closet procurar uma roupa. De alguma forma que não se lembrava bem, tinha acordado limpa depois da viagem, tampouco como tinham chegado ali, mas a verdade era que ela estava com tanto sono que provavelmente tinha dormido no caminho.

Escolheu um vestido estampado com delicadas flores vermelhas e rosas num fundo branco e uma sapatilha vermelha. O vestido era de alça fina e primaveril. Colocou um cinto também vermelho na cintura, marcando a região e deixou o cabelo solto, caindo até a metade de suas costas, com as ondas sedosas e brilhantes.

Passou um pouquinho de batom e colocou rímel, apenas. Não demorou nem meia hora para descer, esperando por sua tia e o segurança para leva-la no hall de entrada. A mesa central estava com um belíssimo arranjo de Camélias brancas. Mexeu nas pétalas, distraidamente.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 7:42 pm

Era irônico como o destino tratava de mudar os planos tão sistematicamente articulados. Romeo tinha desenhado cada passo a ser dado na mansão dos Romazzini, mas poucas horas no novo “trabalho” bastaram para que todos os planos fossem jogados no lixo.

Sem o amparo dos planos, Romeo sentia que estava pisando num terreno ainda mais perigoso. Seu único consolo era que o destino também tratara de colocá-lo num patamar diante de Don Lorenzo. O rapaz, que esperava contar com a confiança do mafioso somente depois de meses de serviços prestados, tornou-se segurança particular de Isadora Romazzini com menos de vinte e quatro horas de atuação. Este era um grande progresso, sem dúvida. Benito Agostini ficaria impressionado quando soubesse.

- É um absurdo! – a voz severa de Antonella foi dirigida ao irmão – Romeo está machucado! O mínimo que você deveria fazer era dispensá-lo pelo resto da semana!

- Eu já disse. – Lorenzo tomou o último gole de bebida – Romeo foi promovido a segurança pessoal de Isadora. Ela só sai desta casa na companhia dele.

Antes que os dois irmãos prolongassem aquela discussão, o jovem segurança pigarreou e chamou a atenção dos Romazzini para si. O olhar rígido de Antonella se suavizou um pouco enquanto Romeo discursava.

- Eu agradeço a preocupação, signora. Mas realmente não há razão para tamanha apreensão. Sinto-me perfeitamente capaz de realizar as minhas funções. Se um passeio fará bem à menina, terei um imenso prazer em ajudar.

- Você tomou um tiro, rapaz! – os olhos de Antonella se estreitaram, mas sua voz soou doce. Era como uma mãe repreendendo um filho querido. – Não é possível que não esteja dolorido!

- O analgésico que me deram era potente. – Romeo abriu um sorrisinho encantador – Vou preparar o carro, signora. Estarei pronto para partir em cinco minutos.

- É mesmo um insolente. – os olhos de Antonella giraram – É fácil entender o seu encantamento por ele, Lorenzo. São igualmente teimosos e atrevidos!

O mafioso soltou uma risada contida e encheu novamente o copo com whisky. Ao ver que aquela era uma guerra perdida, Antonella girou sobre os calcanhares e saiu do escritório para buscar a sobrinha. Parecia irreal dar um passeio no shopping depois de um tiroteio, mas Isadora precisava de estímulos para reagir. Ficar trancada num quarto só agravaria a apatia na qual a garota estava mergulhada.

- Está linda, bambina. – Lorenzo se derreteu quando a filha surgiu no saguão da mansão, pronta para o passeio – Vai me trazer um presente?

- Não. – Antonella respondeu pela sobrinha, numa clara provocação ao irmão – Você não merece presentes. Será uma tarde de meninas!

- E quanto ao Romeo? – Lorenzo devolveu a provocação.

- Romeo faz parte do espetáculo. – Antonella abriu um sorrisinho maldoso – Vai embelezar a nossa vista a tarde toda! Aliás, minhas congratulações pelo bom gosto, Lorenzo. Isa e eu estamos muito gratas pela visão proporcionada por sua nova aquisição no quadro de funcionários.

Os olhos de Lorenzo se estreitaram, mas Antonella não esperou que aquela discussão se prolongasse. De mãos dadas com a sobrinha, a mulher saiu pela porta principal da mansão. Conforme prometido, Romeo já estava pronto para acompanhá-las. A camisa suja fora trocada por uma peça limpa e impecavelmente passada. O segurança usava novamente um terno alinhado e havia deixado os cabelos úmidos, penteados para trás.

Enquanto Antonella e Isadora desciam as escadas para alcançarem o veículo parado em frente à porta, o segurança lançou um olhar mais demorado à jovem. A caçula de Lorenzo parecia perigosamente frágil depois das emoções daquele dia. Mas nem mesmo o abatimento era capaz de macular a beleza de Isadora.

Num gesto de cavalheirismo, o rapaz abriu a porta traseira do veículo para as duas mulheres. Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de Antonella quando Romeo lhe ofereceu a mão. A mulher aceitou a gentileza e se apoiou na mão dele enquanto entrava no veículo, equilibrada em sapatos de salto.

É claro que o gesto foi repetido com Isadora. Romeo buscou pelos belos olhos da garota enquanto estendia a mão na direção dela. Depois que a moça estava devidamente acomodada junto à tia no banco traseiro, Campanaro fechou a porta da Mercedes preta, contornou o veículo e ocupou o banco do motorista.

- Seu braço realmente está bom o bastante para dirigir, Romeo? – Antonella encarou os olhos do rapaz pelo espelho central do carro enquanto o carro era manobrado – E não se atreva a mentir para mim. Lorenzo não está aqui para intimidá-lo.

- Estou ótimo, signora. – Romeo devolveu o olhar para a mulher e abriu um meio sorriso – E, se me permite um pequeno atrevimento, devo dizer que me sinto mais intimidado na sua presença do que na dele.

- Ora! – os olhos de Antonella se estreitaram, mas seus lábios se comprimiram, contendo um sorriso – Hunf. É bom saber disso. Vamos logo. Isadora e eu temos muitos planos para esta tarde, não é, principessa?

Enquanto o carro seguia pelas ruas calmas do distrito onde se localizava a mansão Romazzini, Antonella se distraiu com a paisagem. Ela já conhecia cada canto daquele bairro, mas gostava de deixar que seus pensamentos se perdessem enquanto os olhos observavam o cenário tão conhecido.

Muitas pessoas conheciam o passado triste de Antonella, mas poucos sabiam que o golpe mais potente que a mulher já recebera da vida acontecera antes mesmo do acidente no iate. Aquela era uma dor que Antonella guardava só para si. Era uma culpa que a corroía todas as noites. A perda da família no iate fora devastadora para aquela mulher, mas Antonella ao menos tinha a consciência limpa. O mesmo não poderia ser dito sobre o primeiro filho que a vida lhe tirara.

- Romeo...? – Antonella novamente buscou pelos olhos do rapaz no espelho central do carro.

- Signora?

- Quantos anos você tem?

Aquela era uma pergunta que Antonella repetia com frequência, há mais de vinte anos. Inicialmente, ela dirigia tal questionamento a qualquer menino que cruzasse o seu caminho. Era uma forma de imaginar que tamanho teria o filho que ela nunca mais vira. Os anos se passaram, mas Antonella nunca se livrara daquela obsessão. Ela ainda queria recriar em sua mente a imagem do bebê que estivera em seus braços há mais de vinte e cinco anos. Que altura ele teria hoje em dia? Teria uma voz grave? Músculos definidos? Já teria barba o suficiente para cobrir todo o rosto?

- Vinte e cinco, signora. – Romeo estranhou a pergunta, mas não se negou a responder – Vinte e seis antes do fim deste ano.

Antonella manteve os olhos no segurança, mas seu olhar se perdeu da realidade. Seu filho já tinha a idade de Romeo. Portanto, já era um homem feito, barbado, forte, atraente. Provavelmente já tinha um emprego, uma vida independente. Já tinha idade o bastante para tomar um tiro. Talvez ela já era avó e não sabia disso. Nunca saberia.

A única forma de saber era através de Benito Agostini, e isso estava totalmente fora de questão. Provavelmente Agostini se recusaria a lhe dar uma resposta, ou terminaria de esmagar seu coração dizendo que a criança bastarda deixada em sua porta há vinte e cinco anos se perdera em um dos tantos orfanatos da Itália.

Antonella gostava de pensar que não era uma coincidência que Telma Agostini tivesse tido um filho meses após o abandono do seu bebê. Era reconfortante pensar que aquela criança crescera sob a proteção dos Agostini, como um filho legítimo. Mas a tecnologia frustrava os sonhos daquela mãe desamparada. Sempre que digitava o nome de Vincenzo Agostini em sites de busca, Antonella encontrava imagens que não faziam o seu coração saltitar. Ela queria que seu bebê fosse Vincenzo, queria desesperadamente acreditar naquele consolo. Mas seu coração não se deixava enganar.

- Você já tem filhos, Romeo? – a pergunta soou depois de uma longa pausa – Sua mãe já é avó?

- Não, signora. – o segurança mordeu o lábio inferior antes de completar – Não que eu saiba...

O sorrisinho de Romeo fez com que Antonella girasse os olhos de um jeito divertido.

- Insolente. Você tem um futuro promissor nesta família, sabia? Poupe a pobre Isadora deste tipo de atrevimento.

- Perdoe-me, Isadora. – os olhos do rapaz buscaram pela garota refletida no espelho central do carro – Foi apenas uma brincadeira.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 8:43 pm

Isadora estava acariciando uma das pétalas da Camélia quando o pai e a tia surgiram de um dos ambientes do corredor. Lorenzo carregava um copo de whisky em sua mão e Antonella usava um macacão preto de frente única, marcando seu bonito corpo. A jovem deu um sorriso para seu pai, mas antes que pudesse responder, a tia falou por ela.

- É claro que vou trazer, Papà...Vamos ver se encontro algo para o senhor.

Mas, por algum motivo, os dois estavam entregues a uma discussão sem fim, onde, geralmente, Antonella saía vencedora. Apenas porque sabia como tirar o irmão mais velho do sério.

E Isadora arregalou os olhos quando ela falou da aparência de Romeo. Oras, ela não era cega e também tinha reparado que o rapaz era muito bonito. As bochechas dela coraram, mas a tia logo a puxou e ela não foi obrigada a dar nenhuma explicação ao pai.

Antonella seguia um pouco mais à frente, descendo as escadas. Ela sempre fazia isso, não para que fosse a primeira a chegar, mas para sondar o ambiente antes que sua sobrinha aparecesse. Era inconsciente já.

Isadora desceu tranquilamente, sem os passos sempre firmes de Antonella e os olhos dela também recaíram em Romeo. Estavam bem pequeninos por conta do sol da tarde que batia naquela altura da escada. Mas ela o encarava, sem hesitar apenas porque ele também não parava de encará-la.

Aproximou-se do carro e ofereceu a delicada mão com esmaltes claros enquanto entrava. Sentiu um choque quando o tocou, por isso eles afastaram no instinto. Um sorriso divertido surgiu logo depois e ela entrou no carro, acomodando-se.

Estava mexendo em sua bolsa quando os dois começaram a falar de machucados. A garota olhou para Romeo pela diagonal e franziu as sobrancelhas.

- Você está machucado, Romeo?

Antonella arregalou um pouco os olhos, encarando-o pelo espelho retrovisor.

- Sim. – Respondeu rapidamente. – Uma brincadeira estupida de homens, entre ele e Salvatore, sobre quem aguentava mais peso. Foi um trote pelo primeiro dia, mas você sabe como os homens são inconsequentes.

Isadora fez um ‘o’ com os lábios.

- E mesmo assim você quer nos acompanhar até o shopping, Romeo? Não deveria, deveria descansar o braço.

- Foi o que eu falei. Mas seu pai é obtuso e quer continuar torturando o pobre menino.

- Prometemos que não vamos fazer você carregar as bolsas, pelo menos.

Deu um sorriso e recostou-se na cadeira.

A tia começava a conhecer um pouco mais Romeo. Ela sempre fazia aquelas perguntas para os rapazes que conhecia, mas sempre os que tinham ou aparentavam ter a faixa-etária de Pietro. Isadora nunca entendeu o porquê, talvez fosse um meio de sua tia quebrar formalidades e deixar os rapazes um pouco mais relaxados, para não se sentirem num ambiente opressor como acontecia na presença de seu pai.

Não podia ser outra coisa, até porque, tia Antonella não gostava de rapazes tão jovens. Ela sempre flertava com homens mais maduros, bons como os vinhos, como ela mesma dizia.

Quando Romeo fez aquela piada, as bochechas de Isadora coraram de novo e ela o encarou pelo espelho retrovisor, dando uma risadinha.

- Eu imagino que tenha sido. Você não tem cara de quem foge com as suas responsabilidades. Duvido que tenha uma informação importante desse tipo que você não saiba.

- Hm. Desde quando você avalia tão bem as pessoas, Isa? – Perguntou de modo implicante.

- Foi só uma impressão...

- Sei...

Antonella olhou para os dois por um instante e ficou quieta.

Eles continuaram conversando sobre amenidades enquanto chegavam até o shopping. O shopping escolhido tinha as melhores lojas de marca da Sicilia. Era um lugar caro e belíssimo. Isadora não parecia muito animada para gastar nada, mas Antonella gostava de ver as vitrines, criticar sapatos e queria ver a nova coleção de um amigo seu.

Não demorou para que eles entrassem na loja em questão. Por coincidência do destino, o próprio dono da marca estava ali. Antonella cumprimentou seu amigo e fez as devidas apresentações.

- Nossa, que coincidência maravilhosa! Tanto tempo que não nos vemos, Antonella!

- É verdade, Paco!

- E Isadora, você está magnifica! Já pensou em ser modelo, menina?

- Claro que já! Mas aí o pai dela soube das fotos de biquíni e proibiu...

Eles deram uma risada.

- E esse rapaz lindo?

- Romeo, nosso novo amigo...

- Adoro novos amigos. – Paco deu um sorriso afetado e olhou para Antonella. - Você está com tempo, minha linda? Ou com pressa?

- Hm...Vou resolver isso agora. Isa, por que você não dá uma volta com o Romeo...? A gente pode se encontrar em...1 hora?

Isadora cruzou os braços, arqueando uma das sobrancelhas.

- 1hora e meia... – Disse a menina.

- Otimo! No bistrô! Romeo, estou de olho em você mesmo que não esteja presente...

Isadora revirou os olhos e despediu-se do estilista, caminhando com Romeo para fora da loja.

- É mole, isso? – Disse meio cansada. – Tem alguma coisa que queira fazer, Romeo? Eu só queria mesmo era ir numa loja de materiais de desenho, mas...Não tem pressa e temos longos 90 minutos pela frente...
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 9:24 pm

Poderia parecer entediante acompanhar duas mulheres em uma tarde de compras no shopping, mas o semblante de Romeo não demonstrava aborrecimento. Ao contrário, ele seguia os passos de Antonella e Isadora com uma expressão amena, reagindo com paciência a cada vez que a mulher parava diante de uma vitrine.

A interação entre Antonella e Paco obrigou o segurança a conter um sorriso debochado. Embora a situação estivesse cada vez mais cômica, Romeo sentiu uma profunda gratidão quando foi dispensado daquela loja. O segurança não sabia por quanto tempo mais suportaria segurar as risadas.

- Não costumo frequentar shoppings de luxo... – o rapaz enfiou as mãos nos bolsos das calças enquanto andava lado a lado com Isadora – Para ser sincero, eu nem conheço as opções de passatempo disponíveis neste lugar.

Um brilho mais divertido iluminou os olhos de Romeo antes que ele completasse.

- Imaginei que passaria a tarde carregando sacolas enquanto você e sua tia se divertiriam esgotando os estoques das lojas. Ela não frustrou as minhas expectativas, mas estou intrigado em saber que você não é adepta deste tipo de divertimento.

Por mais que a entonação de Romeo fosse leve e irônica, era óbvio que ele não estava criticando os comportamentos de Antonella e de Isadora. Ele realmente imaginou que a caçula dos Romazzini fosse mais parecida com Mariella Agostini. Era uma agradável surpresa saber que um par de sapatos novos não tinha o poder de restaurar o humor da menina.

- Vamos ver as nossas opções... – o segurança parou diante de um quadro numa das paredes, que mostrava um mapa do shopping com a lista de lojas disponíveis.

Num gesto inicialmente inconsciente, Romeo passou o braço direito pelos ombros de Isadora apenas para impedir que ela continuasse caminhando sem ele. A iniciativa de tocá-la poderia ter sido inocente, mas Romeo tinha plena consciência de que mantinha aquele meio abraço enquanto seu indicador deslizava demoradamente pelo quadro.

- Muitos nomes franceses, isso não é bom. – o rapaz brincou, forçando uma careta de desagrado – Há necessidade de acumular tantas sapatarias?

Antes que Isadora tivesse a chance de responder, um sorriso mais largo iluminou o rosto de Romeo.

- Achei. – ele finalmente afastou o braço que enlaçava os ombros da menina – Achei o único lugar que parece oferecer um bom passatempo por noventa minutos.

É claro que Romeo manteve o mistério e não se rendeu às perguntas insistentes de Isadora enquanto a guiava pelos andares do shopping. A garota só compreendeu qual era a ideia do segurança quando se viu diante de uma enorme loja de games. Dezenas de fliperamas de última geração estavam enfileirados num canto. No centro da loja, várias mesas de jogos eletrônicos estavam disponíveis para os clientes. A máquina de dança estava desocupada, mas tocava uma irritante musiquinha japonesa que fez Romeo franzir a testa.

- Simuladores. – o rapaz ergueu uma das sobrancelhas para Isadora – Na minha opinião, são os melhores. Vamos começar com um simulador de corrida.

Sem dar muito tempo para Isadora pensar, Romeo a guiou até um dos fliperamas mais ao fundo da loja. Os dois se sentaram lado a lado, em duas miniaturas de carros de corrida diante de uma grande tela que mostrava uma pista cheia de curvas. Isadora ficou bastante confortável em seu assento, mas Romeo se viu obrigado a encolher um pouco mais as pernas compridas.

O segurança abriu um sorrisinho e virou-se para a jovem, provocando-a.

- Pode começar. Vou te dar trinta segundos de vantagem para que a minha vitória não seja tão avassaladora.

Era totalmente irreal que os dois estivessem ali, brincando como crianças, depois de sobreviverem a um tiroteio naquela manhã. Mas Romeo sabia que Isadora era um degrau importante na escadaria dos Romazzini. Se ele conquistasse a confiança dela, sua missão ficaria consideravelmente mais fácil.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 9:45 pm

- A principal atração do Shopping, com toda a certeza são as lojas...Talvez seja uma novidade para você, até porque você não me parece gostar de lugares assim e...

Parou de implicar, dando um sorriso e piscando para ele enquanto meneava negativamente. Cruzou os braços enquanto caminhavam lado a lado e ponderou sobre o comentário de Romeo. Sabia que não era uma critica, mas era meio triste saber que sempre pensariam que ela era fútil antes de conhece-la de verdade.

- Eu não vou negar que gosto do luxo e conforto que minha família tem, mas não vejo motivos para gastar até não poder mais. A verdade é que eu não uso nem 1/3 da minha “renda” que você pode chamar de mesada.

Riu e coçou a bochecha de leve.

- É bem verdade que eu não preciso gastar muito, porque tia Antonella vive comprando roupas e sapatos. E eu praticamente renovo o guarda-roupa todo ano, doando as peças que se vão. Só algumas que eu gosto mais ficam, sabe? Ah, sou um pouquinho apegada a uma jaqueta, um vestidinho ou outro...

Continuou sorrindo, dando de ombros.

- Mas eu economizo uma parte, faço doações com outra e gasto de verdade com materiais pra faculdade e com comida. Porque eu gosto de comer fora.

Respondeu de modo tímido, sem saber porque estava explicando tanto para o rapaz que tinha acabado de conhecer. Talvez porque quisesse tirar aquela impressão de que ela era fútil. Parou em frente ao mapa do shopping e antes de olhar para o mapa, ela olhou para a mão de Romeo em seu ombro.

Fez um bico no canto dos lábios, mas não se moveu, aproveitando aquela aproximação por alguns segundos.

Não soube exatamente o que ele estava procurando naquele mapa, mas riu do comentário sobre os sapatos.

- Tia Antonella tem uma marca de sapatos, sabia? Mas ela parou de desenhar, só faz quando interessa, por isso são bastante caros.

E Romeo chegava até o local desejado.

- Onde?

Ele não respondeu e começou a guia-la pelos corredores. Quando estavam no andar dos simuladores de ultima geração, não foi dificil de imaginar onde eles parariam. Isadora já estava rindo antes de entrarem no local.

Mas quando Romeo a encarou, ela fez uma expressão surpresa, como se não esperasse que parariam ali.

Eles compraram alguns créditos e logo ele escolheu pelos dois. Isadora continuou com aquela expressão meio surpresa, sem saber o que fazer. Sentou-se, segurando o volante ainda como se fosse uma nave alienígena e o encarou por um segundo.

- Na verdade, eu deveria te dar 30 segundos de vantagem, já que seu braço está machucado, Romeo. Mas como eu sou boazinha, eu dou 40...

Disse de modo bastante cretino, porque ela fazia uma expressão meiga e até dava um sorriso angelical para ele.

- Não se desafia um Romazzini dessa forma, meu caro...

E Romeo entenderia o que ela estava falando, quando ela pareceu entender muito bem que tipo de carro queria e as melhorias que faria. O carro era muito bom, mas precisava ter muita habilidade. A jovem até deu um suspiro, meio cansado e quando deram a partida, ela indicou.

- Pode ir...

Nenhum dos dois foram.

- Vai, Romeo...Ou vamos ficar 40 segundos parados aqui.

Aparentemente, ele estava duvidando dela. Ela continuou a encará-lo, quase como o par romântico de velozes e furiosos se encaravam enquanto o mocinho metia o pé no acelerador. Ela tamborilou os dedos no volante e eles arrancaram juntos.

Isadora não era boa não. Ela era muito boa nesse jogo!

A principal razão era bastante simples: tinha dois irmãos mais velhos. A segunda era que Pietro era seu irmão mais sacana, que sabia todos os macetes e ensinava para sua pequena “padawan”. E a terceira, era que Isadora adorava dirigir mesmo, desde antes de tirar a carteira, quando treinava com a autorização do pai.

Romeo comeu muita poeira naquele jogo e ao final de uma derrota horrível, ela começou a rir, batendo palmas.

- Até que você foi bem, Romeo. Quer uma revanche?
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 10:07 pm

- Foi injusto! – Romeo bradou quando Isadora cruzou a linha de chegada bem antes dele – Meu braço está machucado!

Um riso denunciou que o segurança estava brincando. Mais uma vez, Romeo se sentia positivamente surpreso com o comportamento de Isadora. Era inesperado que a garota se sentisse mais à vontade numa casa de games do que enchendo sacolas nas luxuosas lojas espalhadas por todos os pisos.

- Já fui suficientemente humilhado neste jogo. Vamos escolher outro no qual eu tenha alguma chance de vencer...

Durante os minutos seguintes, os dois travaram duelos bem equilibrados. Isadora era realmente muito habilidosa em praticamente todos os tipos de jogos. Romeo foi vítima de uma derrota simplesmente humilhante na mesa de discos e mais uma vez tentou culpar o braço dolorido. Sua dignidade foi parcialmente recuperada no arco e flecha, onde Campanaro demonstrou ser dono de uma mira imbatível.

Os minutos voaram enquanto os dois se divertiam como crianças. Faltavam apenas dez minutos para completar os noventa quando Romeo anunciou que queria uma última brincadeira antes de seguirem ao encontro de Antonella.

- Qual deles você quer...?

A pergunta de Romeo soou tranquila e ele encarou Isadora com um semblante confiante enquanto parava diante de uma das máquinas lotadas de pelúcias.

- São máquinas feitas para roubar moedas, sabia? É praticamente impossível vencer uma delas. – a garota cruzou os braços numa postura de desafio – Duvido que consiga tirar um brinquedo desta máquina, Romeo.

- Eu perguntei qual deles você quer... – o segurança insistiu, com um sorrisinho convencido inabalável.

Isadora chegou a olhar as pelúcias através do vidro, mas com um sorriso debochado, como se realmente duvidasse da capacidade de Romeo. Apenas para provocá-lo ainda mais, a garota apontou uma simpática girafinha, escondida bem ao fundo da máquina, de onde era praticamente impossível ser retirada pelo gancho do brinquedo.

Uma moeda foi enfiada na máquina e Romeo guiou o gancho para o fundo. Não foi fácil içar a girafa e o tempo acabou antes que o segurança conseguisse arrastar o brinquedo. Isadora soltou um risinho quando viu Romeo enfiar a segunda moeda na máquina.

- Vai perder todo o seu salário aí, Romeo. Eu disse que é impossível!

- Shiiiu. Está me desconcentrado. Eu só estava me aquecendo, agora vai dar certo.

Isadora já estava rouca de tanto rir, completamente esquecida dos traumas daquela manhã, quando Romeo enfiou a sétima moeda na máquina. O queixo da garota caiu e seus olhos se arregalaram quando, finalmente, a girafinha deslizou pelo tubo e foi resgatada pelas mãos de Romeo. Uma das sobrancelhas dele se arqueou enquanto o segurança estendia o brinquedo para a moça.

- A sua falta de fé não deveria ser recompensada, mas tome. Eu disse que conseguiria.

Antonella já estava no bistrô e conferia o relógio de pulso a cada dez segundos quando avistou a sobrinha se aproximando. Os olhos da mulher se estreitaram e ela retirou os óculos escuros para enxergar Isadora melhor, mas só reconheceu o objeto nos braços da menina quando Isa se sentou diante dela.

- Isso é uma girafa? Uma girafa??? De onde você tirou uma girafa, Isadora? Dio mio! Eu te trago para comprar sapatos e você me volta com uma girafa?
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qua Nov 18, 2015 10:43 pm

Uma tarde que tinha tudo para ser apenas agradável, tornou-se um momento extremamente divertido. Isadora tinha se esquecido há quanto tempo conseguira se divertir tanto. A todo momento ela falava para que Romeo não pegasse leve, porque ela não queria nenhum tipo de vantagem! Queria um embate justo em todos os jogos que eles fossem participar.

E tudo foi uma delicia.

Romeo tinha sido uma deliciosa surpresa para sua vida. E ela nem sabia ainda que ele seria o seu segurança particular agora.

Quando Romeo conseguiu a Girafinha, mesmo depois do desafio dela, Isadora pegou a bichinha e abraçou. Era muito difícil se manter longe da ingenuidade e espontaneidade de Isa. Ela não escondia suas emoções e, por isso mesmo, era um alvo muito fácil para as pessoas. No entanto, ela também era uma pessoa tão carismática que as pessoas se apegavam com certa facilidade.

- Ela é tão fofinha! Parabéns, Romeo! Vou te pagar um sorvete!

Logo os dois seguiram a passos apressados até o bistrô para que lanchassem com Antonella. Ela tinha colocado vários papos em dia, mas também aproveitou para comprar algumas coisas da coleção de Paco. Na verdade, ela ganhou metade das coisas, mas Paco sabia que era um investimento, uma vitrine ambulante.

Isadora estava com a alegria estampada em seus olhos quando chegou até a tia. O garçom se aproximou para puxar a cadeira, mas Romeo fez as vezes e sentou-se entre as duas logo em seguida.

- Ah, tia! Olha que linda que ela é!! – Mostrou para Antonella. – Nós gastamos bastante hoje, nos fliperamas e simuladores...

Antonella ficou de queixo caído e olhou para Romeo.

- Não me diga que você tem a idade mental de Pietro.

- Tem!!! E foi tão divertido!! Ele conseguiu pegar a “Margherita” na sétima tentativa. É numero de mentiroso, mas é verdade, eu vi.

- Margherita?

- Sim. Ela é amarelinha...E Girasole ficaria estranho.

Antonella escondeu os lábios, controlando a risada por um instante.

- Então você não foi ver ainda suas coisas...

- Não, não tem pressa. Mas agora quero passar na tabacaria para comprar charutos cubanos para o papà.

- Tudo bem, não estamos com horário. Só o jantar que deve sair às 21h.

Mesmo que o jantar fosse sair às 21h, Isadora não poupou o estômago no lanche. Ela pediu crepe de camarão com catupiry e o prato era bastante farto. Antonella pediu um sanduiche bem mais light, mas Isa também complementou com sobremesa: um pedaço de torta de limão siciliano.

Ela comeu bastante mesmo, aproveitando cada momento. Antonella contava sobre as novidades mais relevantes de sua conversa com o amigo. Aparentemente, ela também tinha se divertido bastante naquelas horas.

Uma hora depois do encontro deles, eles ainda deram uma volta para comprar o que precisavam e Antonella também comprou um conjunto de gravatas de pura seda para Romeo. Apenas como uma lembrancinha. Ele precisaria para os eventos futuros.

Já era noite quando eles chegaram em casa. Conforme o prometido, Antonella e Isadora não deixaram que Romeo carregasse nada.

Enquanto ele estacionava o carro, as duas entravam na Mansão e já se deparavam com a gritaria que vinha da sala de estar.

- Não vai ter mais mesada. Não vai ter mais carro. Não vai ter nada, Pietro!! Aquele foi o meu último aviso!!!

- Mas pai, eu...

- Mas nada, Pietro!!! Deixe de ser um sanguessuga nessa vida, moleque! Até mesmo o seu tio, SEU TIO, que parecia um homem incorrigível, tomou jeito na vida e olha onde ele está!

- Eu estou seguindo os passos dele...

Havia uma sinceridade irritante naquele tom de voz. E isso o deixava com um ar irônico que irritava Lorenzo. As duas chegaram no instante que Enzo apenas fechava os olhos e massageava a têmpora. Ele tentava controlar a risada.

- NÃO TIRE MINHA PACIENCIA, PIETRO! VOCÊ NUNCA SERÁ COMO O SEU TIO PORQUE VOCÊ NÃO TEM NEM GOSTO PARA ESTUDAR!!! QUANTAS FACULDADES VOCÊ FEZ??

- Ahm...Eu me matriculei em...- Comentou a contar.

- PARA DE SER CINICO, PIETRO!

- Eu realmente estou contando...Economia, Administração, Direito...- Deu de ombros. – Não concluí nenhuma, mas tentei, oras. Fui mais longe em Musicas...

- Pietro. Eu realmente desisto de você, moleque. Desisto. Se você admira tanto e quer ser como o seu tio, pode ir. Mas vá com o que você tiver na conta, porque eu não te dou dinheiro nem para a passagem de ônibus, Pietro!!!!!!

- O que está acontecendo aqui? – Antonella deixou as bolsas em cima da poltrona e colocou as mãos no quadril.

- Eu estou tentando ser razoável com esse garoto, mas a verdade é que estou me controlando para não dar uns bons tapas nele. Que é o que você merecia!!

- Razoável? Eu nem consegui abrir a boca para me defender...

- Defender do que??? Você não tem defesa!!!

- Você nem sabe com o que eu gastei minha mesada, papà...Foi um investimento, o senhor deveria ter orgulho de mim...

- O que você fez?

- Eu não tenho um centavo no meu bolso. Na verdade, o senhor falou que ia confiscar o carro, mas nem carro mais eu tenho. Eu meio que precisei...vender...

- Você...vendeu...a Ferrari?

- Vendi...

Lorenzo ficou em silencio. Enzo e Antonella só tiveram segundos para se aproximar dele.

- Pelo meu filho, papà...

- É O QUE?!? – Antonella gritou, segurando o irmão.

- Filho? – Enzo arregalou os olhos.

- Meu sonho... – Pietro falou daquele jeito sonhador dele. – Virei sócio de uma casa noturna. E meio que montei um estúdio para fazer meu som, viver da minha arte...Claro que preciso ver se a casa noturna me dá lucros e...

- EU VOU MATAR ESSE GAROTO!! VIVER DE SOM? FAZER ARTE? ANTONELLA!!!!

- Pelo menos o menino está tentando, Lorenzo!!!

- O QUE FOI QUE EU FIZ DE ERRADO COM ELE????
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qua Nov 18, 2015 11:05 pm

- O que está havendo...?

Mesmo da cozinha, era possível escutar a gritaria na sala dos Romazzini. Os italianos já falavam naturalmente mais alto que o necessário e o volume se tornava insuportável durante brigas. Os demais empregados pareciam acostumados com a sinfonia, mas Romeo lançou um olhar intrigado para a porta.

- Pietro deve ter aprontado mais uma. – Raoul comentou enquanto beliscava uma das batatinhas assadas que a cozinheira usava para decorar a bisteca.

- Ele é um bom menino. – Felicia, a velha cozinheira que trabalhava há décadas para os Romazzini, acrescentou depois de um suspiro – Só um pouco desajuizado.

- Um pouco? – Raoul soltou um riso debochado – Que bondade a sua, Felicia.

- Que tal pararem de fofocar e me ajudarem a finalizar os pratos? – a mulher olhou ao redor, incluindo o segurança e o mordomo naquela sugestão. – Vamos, vamos. Eu só libero as panelas para vocês depois de servir a mesa principal!

Sem muitas alternativas, Romeo e Raoul trocaram um olhar antes de lavarem as mãos para ajudarem na cozinha. Felicia deu as coordenadas, zombou da falta de habilidade dos rapazes e não precisou de mais que dez minutos para finalizar a discussão da sala, anunciando que o jantar estava servido.

Enquanto Felicia distribuía os pratos fartos pela mesa, os demais empregados atacavam as panelas da cozinha. Romeo serviu um prato generoso, mesmo já tendo feito um bom lanche no shopping. O cheiro do tempero de Felicia era irresistível. O segurança estava comendo tranquilamente quando uma das assistentes pessoais de Lorenzo puxou a cadeira e sentou-se ao seu lado.

No fundo, Romeo conhecia bem o efeito que causava nas mulheres. Ele sabia que havia se tornado um homem bonito, tinha plena consciência de que seu corpo era atraente e que seus traços não eram comuns. Não era incomum que ele atraísse olhares femininos por onde passasse, e não foi diferente naquele dia.

A secretária do mafioso não se preocupou em ser tão discreta e abriu um sorriso enquanto se virava na direção do novato.

- Imagino o quanto deva ser chato acompanhar as madames em tardes de compras... – a moça comentou, tentando puxar aquela conversa para fora do âmbito profissional.

- Faz parte do trabalho.

Não foi exatamente um flerte, mas Romeo ofereceu um sorriso à jovem enquanto fornecia aquela resposta educada. A assistente era uma moça bonita que ele talvez não dispensaria se a situação fosse outra. No momento, contudo, o segurança preferiu manter uma conduta mais profissional. Ele estava sob o teto dos Romazzini, afinal.

- Também trabalha aos sábados...? – a moça insistiu com um olhar mais intenso.

- Algumas vezes.

- Eu geralmente folgo nos sábados. Ficaria feliz se me ligasse algum dia, Romeo.

Um meio sorriso surgiu nos lábios de Romeo diante daquela singela insistência. Era difícil fugir quando a oportunidade surgia tão facilmente. Era quase impossível dispensar um banquete gratuito, mesmo sentindo-se satisfeito.

- Neste caso, eu precisaria de um número... – Romeo se inclinou para ler o nome dela no crachá dela - ... Flora.

A moça pegou uma caneta que usava para prender os cabelos loiros num coque, puxou a mão de Romeo e escreveu o número do seu celular na palma do segurança.

Havia sido um flerte inocente. Romeo nem pensava seriamente na hipótese de ligar para a colega, mas era bom saber que havia tal opção.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Nov 19, 2015 10:37 am

A discussão continuou na sala de estar. Antonella tentava mediar a explosão de Lorenzo com a ausência de preocupação de Pietro. Pietro sabia que tinha sido bastante ousado em seu projeto, mas afirmava que tinha sido o impulso necessário para que ele fizesse o que queria. Os números só apareceriam depois de um mês, então, até o próximo mês, eles não poderiam dizer com certeza se foi uma ideia boa ou ruim.

Lorenzo, por outro lado, defendia que o filho não tivera nenhum tipo de planejamento ou preparado, não considerou lugares, números, absolutamente nada! E castelos de areia não duram!

Pietro se mostrou mais irritado, porque o pai sempre parecia disposto a discutir sobre suas ideias. Felizmente, ele conteve a língua para não falar dos negócios, porque ele tinha ciência que não era um assunto para ser discutido fora do escritório. Ainda mais com tantos ouvidos atentos.

Lorenzo decretou, por fim, que visto que o filho achava capaz de fazer suas próprias decisões, ele não moveria uma palha para ajuda-lo. E se desse errado, ele teria duas opções: Ou entrava na linha e iria para Roma estudar e voltar para assumir parte dos “negócios” – dava para entender que eram os lícitos, mas eles sabiam que Lorenzo falava dos ilícitos também – ou poderia arrumar as coisas dele e tentar viver de luz e miçangas.

O jovem não hesitou, aceitando o desafio, mas já deu a resposta dele.

- Se der errado, farei minhas malas, papà. O senhor não se preocupe com isso.

Pietro era um espirito livre e nunca encontraria amarras dessa forma. Ele era além de um bon vivant, fanfarrão, muito parecido com o mar. Não tinha como segurá-lo dessa forma.

Lorenzo não gostou da resposta, mas também cumpriria sua parte no trato.

Felicia surgiu avisando sobre o jantar e a familia começou a seguir para lá. Enzo passou por Isadora e depositou um beijo na testa da irmã caçula.

- Como foi de viagem?

- Foi ótima, Enzo. E como estão os preparativos para o casamento?

- Corridos. Giulia está me enlouquecendo.

- É a noiva, mas ainda tem um ano pela frente, não é?

- É... – Ele deu uma risadinha.

Isadora o encarou com uma das sobrancelhas arqueadas e o irmão sorriu, seguindo em frente. Pietro foi o último a sair da sala e agarrou a irmã por trás, pegando no colo como se fosse uma boneca de pano.

- Gordiinhaa!!

E começou a jogá-la de leve para cima.

- Para! Para!!!

Ela disse tentando segurar a saia e não cair do colo dele.

- Ai, paro mesmo. Você tá pesada. Comeu muito chocolate na Suiça? Oh, não responda! É o mesmo que perguntar se macaco gosta de banana.

- Ou se você bebeu hoje...

- Ouch...

Pietro a colocou no chão de novo, mas logo continuou a perturbando, cutucando a barriga dela aqui e ali para fazer cócegas.

- Para, Pietro!!!

- Você estava com saudades, me mandou mais de cinco mil mensagens pelo whatsapp.

- Estava mesmo.

Fez um bico e Pietro sorriu, parando de implicar.

A familia se reuniu à mesa e logo tiveram uma jantar um pouco incomodo, mas normal. A comida estava deliciosa como sempre e isso pareceu acalmá-los um pouco mais.

Talvez Romeo notar uma qualidade e uma fraqueza dos irmãos Romazzini: Eles eram muito unidos. E a prova disso foi que mesmo depois do que Pietro havia aprontado, Enzo e Isadora seguiram até a varanda do jardim – aberta e com uma bonita vista para o exótico jardim e piscina e foram jogar.

Como ele não tinha dinheiro e todos estavam muito cansados para sair, Enzo e Pietro ficaram jogando cartas enquanto o mais velho fumava um charuto artesanal e o mais novo comia as trufas alcoolicas que Isadora trouxera: cada mordida era uma explosão de álcool, fosse de licor de morango, licor de menta, de amarula. Isadora estava sentada no sofá, observando os irmãos e com um caderno e lápis em mãos, desenhando em silencio.

Lorenzo tinha se recolhido em seu escritório, conversando com Antonella e os seguranças faziam suas típicas rondas, mas prestando atenção nos herdeiros.
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Romeo Campanaro em Qui Nov 19, 2015 11:13 am

- Hey, novato. Venha até aqui!

A voz de Pietro ecoou pela varanda quando o filho do mafioso avistou o novo segurança fazendo a ronda nas proximidades do portão. O rapaz deixou as cartas de lado e se acomodou de forma displicente na cadeira enquanto Romeo se aproximava do grupo.

- O nome é Romeo. – Enzo corrigiu o irmão do meio com uma entonação séria. Assim como o pai, o primogênito reconhecia a importância de tratar os funcionários com simpatia e respeito.

- Olá, novato. – Pietro obviamente queria provocar o irmão mais velho – Ainda não nos conhecemos. Sou Pietro.

- Romeo.

- Quer jogar conosco, novato? – Pietro indicou as cartas espalhadas sobre a mesinha de jardim – Estou cansado de ganhar do Enzo, será divertido ver a derrota estampada em outra face.

- Agradeço pelo convite, mas eu estou trabalhando.

Os olhos de Pietro giraram e ele olhou os dois irmãos, como se esperasse que Enzo e Isadora concordassem com a sua opinião.

- Enquanto Salvatore for o responsável pela seleção dos seguranças não teremos nenhum cara simpático por aqui... Você não gosta de se divertir, novato?

- Creio que temos definições diferentes para a palavra diversão, signor...

A resposta soou respeitosa, mas o olhar malicioso de Romeo fez Pietro gargalhar. O rapaz bateu duas palmas e apontou para Romeo.

- Agora sim! Gostei dele! Me avise quando for o seu dia de folga, novato. Vou te mostrar que temos definições muito parecidas para a palavra diversão. Foi contratado como segurança ou como motorista?

- Fui contratado como parte da equipe de seguranças da propriedade. Mas seu pai me promoveu a segurança particular de Isadora.

O olhar surpreso da moça indicava que Lorenzo ainda não havia comunicado a filha sobre aquela novidade. Enzo provavelmente já sabia, mas a reação de Pietro foi de surpresa. O filho do meio fez uma careta e encarou a irmã.

- Papà vai botar cães de guarda atrás da gente agora? Eu estou lindamente ferrado se o meu for Salvatore!

- Na verdade... – Enzo tomou a palavra com tranquilidade – Papà não desperdiçaria um segurança particular com você, Pietro. Você é um caso perdido!

O primogênito estendeu a mão e acariciou o rosto da irmã numa doce tentativa de tranquilizá-la enquanto Isadora recebia aquela notícia delicada.

- Os tempos estão difíceis, Isa. Papà está preocupado com você e gostaria que o Romeo te ensinasse algumas coisas. O Romeo tem experiência em defesa pessoal e pode te ajudar a aprender o básico. No fim das contas, acho que pode se tornar um passatempo para você.

O novo segurança esperou que Enzo finalizasse o seu discurso para acrescentar, cuidadosamente.

- Podemos começar amanhã mesmo, se quiser. – Romeo lançou um de seus sorrisos gentis à garota.

- O que é isso...? – Pietro interrompeu aquele momento delicado inclinando-se na cadeira e puxando subitamente a mão do segurança.

Um sorriso maldoso surgiu nos lábios do filho do meio de Lorenzo quando ele entendeu que aquela mancha de caneta na palma da mão de Romeo era o número de um celular, escrito com uma caligrafia feminina.

- Você não perde tempo, hein, novato! Quem é ela? É gata? É peituda? Já pegou ou ainda vai pegar? Ela tem uma irmã ou alguma amiga gostosa? Qual a nota que você dá pra bunda dela?

- Pietro, por Dio!!! – Enzo deu um tapa não muito sutil no ombro do irmão – Seja discreto!

- Oras, que mal tem!? – Pietro fez um bico, soltou a mão de Romeo, mas logo lançou um sorrisinho na direção da irmã – Gordinha, quando você dará folga ao seu segurança particular? É sério, eu gostei dele, eu reconheço de longe quando um cara tem potencial! Preciso levá-lo numa das minhas noitadas! Acho que será o começo de uma linda amizade!
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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

Mensagem por Isadora Romazzini em Qui Nov 19, 2015 12:11 pm

O lápis traçava habilidosas linhas e curvas pelo papel branco, formando um desenho com bastante jogo de luz e sombra, exatamente como o jardim estava naquele momento. Isadora estava tão concentrada nos próprios traços que não saberia dizer quantas partidas os irmãos já tinham jogado.

No entanto, a voz de Pietro chamando pelo “novato” despertou a jovem de seu transe.

Os olhos atentos da jovem foram mais rápidos do que ela gostaria e ela olhou ao redor, procurando por Romeo. Felizmente os irmãos estavam distraídos o suficiente para não repararem na reação dela. Mas quando percebeu que Romeo estava bem em frente, ela duvidou que ele não tivesse reparado na velocidade que ela precisou para encará-lo.

Abaixou o olhar de novo, mas não estava tão mais interessada no desenho. Estava apenas reforçando uma sombra.

Ainda usava a mesma roupa do passeio no shopping.

Ouviu a discussão entre os três e deu um sorriso divertido. Fechou o seu caderno e ajeitou-se um pouco mais no banco onde estava quase deitada. Colocou as pernas para fora e apoiou as mãos nas laterais de seu corpo.

Quando a conversa virou-se para ela, ela arregalou os olhos e fez uma expressão de surpresa. Geralmente ela faria uma brincadeira para responder Pietro, mas estava um pouco mais séria do que o normal, ponderando sobre os detalhes.

Ah, é claro...

Tudo fazia parte do trabalho.

Continuou com aquela expressão fechada mesmo quando recebeu o afago de Enzo. Olhou para eles e repousou o olhar em Romeo de novo.

- Quantas horas você acha que serão necessárias e quantos dias na semana? Preciso refazer minha agenda...

Romeo ponderou.

- Pode ser uma hora, todo dia ou duas horas três vezes na semana...Como preferir, signorina.

- Pode ser uma hora todo dia, na parte da tarde.

Estava usando um tom um pouco mais formal, mas Pietro indicou o braço de Romeo e ela também olhou aquela letra feminina. Arqueou uma das sobrancelhas, encarando-o bem nos olhos e fazendo uma expressão de desagrado.

Cerrou um pouco os olhos e voltou-se para Pietro de novo.

- Quando ele quiser.

Pietro tombou um pouco a cabeça e Isadora levantou-se de seu lugar.

- Já vai subir? – Enzo perguntou preocupado. – Não se sente bem?

- Estou com dor de cabeça, não deveria ter comido o licor de morango. Não se preocupe, fratello. Boa noite.

Deu um beijo na bochecha de Enzo e passou empurrando a mão de Pietro quando ele tentou fazer cocegas em sua barriga.

- Para. Boa noite.

Disse aos dois “restantes” e seguiu com o caderno debaixo do braço.

- Tá vendo? Você dá pouco chocolate e a mulher enlouquece, dá muito e ela enlouquece também. Tsc...

Pietro coçou a cabeça.

- Senta aí, novato. O seu trabalho acabou de subir pra dormir.
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Isadora Romazzini

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Re: Capítulo 1 - Onde Ninguém Dorme

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